Wilson Custódio Filho
***
O que antes era travessia tornou-se performance; o que era silêncio se tornou slogan; o que era compaixão agora é instrumento de disputa ideológico‑moral. Tornamo-nos peixes à deriva, agonizando no aquário que nós mesmos contaminamos — um ambiente que nos sustenta e nos asfixia ao mesmo tempo.
***
Um Mundo Fora de Órbita.
Há dias em que a Humanidade parece, metaforicamente, um experimento malconduzido — um peixe arrancado da água, que se debate para sobreviver em um ambiente insalubre — só que, no caso dos humanos, este ambiente é criado e mantido por suas próprias mãos.
Não é necessário grande esforço intelectual para perceber que vivemos um apagão ético: perdemos, não apenas a capacidade de agir corretamente, mas também a delicadeza do discernimento e, por vezes, o mínimo de senso de humanidade. Note-se: observamos guerras transmitidas por noticiários em tempo real, que se tornam corriqueiras diante de olhos convenientemente atônitos.
Líderes de nações falam em Deus enquanto suas mãos chancelam a barbárie, perpetuando massacres firmados em contratos capciosos. Ao mesmo tempo, instituições diversas vendem moralidade ao mesmo tempo em que negociam interesses, transformando valores em mercadoria — um movimento tão evidente que dispensa profecias.
A Metáfora do Peixe — e Nossa Desorientação Espiritual.
A sensação de que o mundo está fora de órbita se revela em cada gesto de indiferença – crianças que, entre os escombros da guerra, lutam para manter a própria força e alguma centelha de inocência; adultos que se perdem em disputas mesquinhas e ideológicas; famílias dilaceradas pela violência cotidiana; decisões políticas guiadas por cálculos eleitorais; jamais pela vida humana.
E, ainda assim, religiosos e devotos da própria vaidade ousam repetir que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Imaginar a face humana colada à onipotência é quase uma ironia trágica. Se isso um dia foi verdade, então, há tempos, deformamos o espelho — ou simplesmente esquecemos a face que deveríamos refletir.
A metáfora do peixe nunca foi tão pertinente. O símbolo cristão, que antes evocava fé e irmandade, hoje revela outra realidade: somos seres deslocados, perdidos, desmemoriados da própria origem espiritual.
Yeshua falava de pescadores de almas, mas até nós, espíritas, transformamos seu ensinamento em uma mera disputa por adesões, em que influenciadores almejam curtidas e palanques — convertendo compaixão em espetáculo e ética em disputa.
E então se impõe a pergunta que atravessa todo este texto – o que acontece com a consciência quando a fé se transforma em palco?
Detenhamo‑nos um instante: O que antes era travessia tornou-se performance; o que era silêncio se tornou slogan; o que era compaixão agora é instrumento de disputa ideológico‑moral. Tornamo-nos peixes à deriva, agonizando no aquário que nós mesmos contaminamos — um ambiente que nos sustenta e nos asfixia ao mesmo tempo.
O Aquário Social e o Esvaziamento da Alma.
Dentro desse aquário — que chamamos de sociedade — o frio é real. O trabalho tornou-se espaço onde a alma se esconde atrás de crachás, metas e discursos corporativos reciclados. A produtividade substituiu a empatia, a competição disfarçou a miséria emocional, e o sucesso converteu-se em moeda capaz de comprar quase tudo, exceto o sentido.
Não é raro encontrar pessoas de barriga para baixo: vivas por fora, mortas por dentro, respirando por aparelhos que sustentam apenas a aparência de vida, alheias ao destino dos demais peixes — posto que cada um enfrenta sua própria tormenta e nada por si.
O Espiritismo e o Descompasso Entre Teoria e Vivência.
O Espiritismo nos ensina que fomos “criados simples e ignorantes” [1], destinados a progredir sem limites. Ainda assim, na prática, o discurso do progresso espiritual [2] — tão belo em teoria — frequentemente se choca com a negação dos fatos. Como falar em perfectibilidade quando o ódio se institucionaliza, a caridade se transforma em espetáculo e a religião se converte em instrumento de poder?
Não percamos a “fé raciocinada” [3]! Convém lembrar: a ignorância é apenas etapa da viagem — nunca o destino final. Como a Fênix, essa consciência nos faz renascer das próprias cinzas.
A pergunta inaugural de “O livro dos Espíritos” — “Que é Deus?” [4] —nos recorda o princípio: inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Se esse fundamento é claro, o que por vezes se obscurece não é Deus, mas nossa vivência desse princípio. Entre o discurso do progresso e as atitudes que o contradizem, instala-se um descompasso silencioso — e, pouco a pouco, a compaixão cede lugar à indiferença.
A Responsabilidade Moral: Entre Aflição e Livre Arbítrio.
Tenhamos calma, não inércia! Lembremos: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo: eu venci o mundo” [5]. Em um mundo de expiação e provas [6], as aflições não anulam o livre-arbítrio — antes o convocam ao trabalho moral.
A perfectibilidade é horizonte, não fantasia, e só será alcançada quando admitirmos nossas próprias deformações — individuais, institucionais, religiosas e sociais — e assumirmos responsabilidade por nossas escolhas. O progresso não acontece por osmose; exige coragem, discernimento e ação consciente.
Permanecer no Aquário ou Retornar ao Oceano.
O Espiritismo não é uma boia emocional: é um convite à razão, ao dever moral e à reflexão sobre a própria consciência. Enquanto nadamos — ainda que devagar — contra a correnteza da insensatez coletiva, cada gesto — pensar, denunciar, sentir, amar — é uma forma de resistência.
O que fazemos enquanto tudo passa é o que realmente nos define: se permaneceremos prisioneiros do aquário que ajudamos a manter ou se, enfim, retornaremos ao oceano da essência.
Porque, como ensina “O livro dos Espíritos”: “Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar” [7].
Notas:
[1] Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Livro I, cap. II, q. 115. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
[2] Idem. Livro III, cap. VIII – Lei do Progresso, q. 776-802.
[3] Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Cap. XIX – A fé transporta montanhas. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.
[4] Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Livro I, cap. I, q. 1. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
[5] Bíblia Sagrada, Evangelho de João 16:33 (Qualquer tradução que você frequentemente utilize. Ex.: Almeida Revista e Atualizada; ou Bíblia de Jerusalém; ou NAA).
[6] Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Livro II, cap. I – Dos Espíritos, q. 101-113 (Escala Espírita). Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
[7] Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Livro III, cap. X – Lei de Liberdade, q. 843. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Imagem de Ilona Frey por Pixabay




