Os maus tratos aos idosos, por Wellington Balbo

Tempo de leitura: 4 minutos

Wellington Balbo

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É imperioso respeitar as fases da vida, encarando-as como um incessante processo da natureza que, no seu infindável vai e vem, nos lapida e nos ensina a nos despir de preconceitos, para compreendermos que o chegar da idade faz parte da caminhada evolutiva de todos nós.

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Acompanho durante vinte anos uma delicada história. As razões certamente se perdem nas noites dos séculos, onde, nos dias de hoje, os Espíritos protagonistas são chamados aos reajustes perante a própria consciência.

Para quem vê apenas a superfície, trata-se de dolorosa situação; contudo, para quem vê “além do horizonte”, é motivo de júbilo, porquanto pode representar a real libertação do Espírito, que vence as dificuldades e ressurge triunfante rumo à evolução.

Minha tia, há vinte anos, teve trombose cerebral, e desde então não fala, não anda, não se mexe, necessidades fisiológicas apenas com a ajuda de muitos remédios e por ai vai.

Um de meus primos assumiu desde a adolescência a tutela da mãe, cuida com extremo carinho de sua progenitora. Troca fraldas, prepara papinhas, dá banho… Coloca-se de fato como o pai de sua própria mãe. É um carinho, um afeto que emociona quem acompanha essa história.

Enquanto há pessoas conscientes no mundo, que se preocupam com os pais, demonstrando gratidão e trabalhando por eles quando estes estão impossibilitados de fazê-lo, há também pessoas que carregam consigo o lema da ingratidão, e lamentavelmente o da maldade, agredindo, ameaçando, violentando aqueles que fizeram a história de nossa sociedade e nosso país.

Por isso, vamos adentrar delicado assunto: os maus tratos aos idosos.

Em “O livro dos Espíritos”, Kardec e os Espíritos amigos trataram de temas semelhantes, envolvendo a responsabilidade que os filhos têm para com seus pais. E foram além demonstrando que a sociedade também deve proteger e proporcionar uma vida digna àqueles que durante longos anos foram o alicerce da família e da economia.

Ainda na mesma obra, no Capítulo relativo à “Lei do Trabalho” (item 681), Kardec questionou os mentores espirituais: “A lei natural impõe aos filhos a obrigação de trabalhar por seus pais?”. Eles responderam:

“Certamente, do mesmo modo que os pais devem trabalhar por seus filhos; é por isso que Deus fez do amor filial e do amor paternal um sentimento natural para que, por essa afeição recíproca, os membros de uma mesma família fossem levados a se ajudarem mutuamente, o que é freqüentemente esquecido em vossa sociedade atual”.

Agora, vejamos uma questão seguinte, a de número 685, em que Kardec prossegue perguntando: “Mas que recurso tem o idoso necessitado de trabalhar para viver, se já não pode?”. As Inteligências Invisíveis orientaram: “O forte deve trabalhar pelo fraco e, na falta da família, a sociedade deve tomar o seu lugar: é a lei da caridade”.

Vamos, então, informar alguns dados para que o leitor amigo tome nota da gravidade da situação porque passam alguns de nossos idosos.

Segundo recente pesquisa realizada por especialistas da Universidade Católica de Brasília, de um universo de 18 milhões de idosos em nosso país – considere-se então pessoas com idade acima de 60 anos –, um total de 2 milhões de idosos são vítimas de maus tratos. Violência psicológica, ameaças, violência física, negligência e pasmem, até violência sexual vem sendo anotada pelos especialistas e estudiosos da questão.

O mais triste é que alguns casos de violência são anotados dentro do próprio lar, ou seja, um local onde o idoso deveria se sentir protegido, amparado, amado, torna-se palco de atrocidades. E nota-se ainda traços de machismo, porquanto, 60% das vítimas são mulheres.

Lamentavelmente, crescemos com a idéia de que, com o passar dos anos, vamos perdendo nossa utilidade. É a cultura de privilegiar o corpo, a superfície, apenas a estética. Rugas são sinônimos de horror. Cabelos brancos são sinais de tristeza. Todas essas idéias desembocam no preconceito, na discriminação e na violência.

O próprio mercado de trabalho, por exemplo, confirma essa tese, ao condenar pessoas com idade acima dos 35 anos ao desemprego, considerando que já estão “velhas” para determinada função. Um autêntico absurdo!

Vemos, também, essa idéia impregnada na forma de pensar das pessoas, quando em tom de brincadeira dizem: “Ah, vou trocar minha esposa de 40 por duas de 20!”

De modo que as gerações se sucedem e começam a ver nos idosos não fontes de experiência, mas, sim, um peso, um incômodo. Tanto é verdade que muitos se recusam a falar sobre sua idade biológica, trazendo consigo uma visão distorcida da realidade, acreditando que o avançar da idade é sinônimo de enfermidades, dificuldades, limitações… Ora, qual o problema do avançar da idade? Por que esconder os anos que nos trouxeram experiência, maturidade?

Em realidade, com o progresso da ciência, hoje, a qualidade de vida aumentou muito, nos mostrando que os problemas de saúde estão muito mais relacionados com a falta de cuidado com o corpo do que com o avançar das primaveras.

E como dizem os sábios da espiritualidade, vencer o preconceito é uma questão de educação, não a educação vinda dos livros – que também é importante, mas não suficiente –, mas a educação moral, que ensina o indivíduo a moralizar suas atitudes e acionar os condutos do coração.

Assim, é imperioso respeitar as fases da vida, encarando-as como um incessante processo da natureza que, no seu infindável vai e vem, nos lapida e nos ensina a nos despir de preconceitos, para compreendermos que o chegar da idade faz parte da caminhada evolutiva de todos nós, desmistificando a cultura de que pessoas que ultrapassam os 60, 70, 80 anos são um incomodo, um peso que a sociedade deve carregar.

O melhor é, então, exercitarmos a gratidão: pelos pais que tanto fizeram por nós, pelos professores, amigos e tantos outros que cruzaram nossa existência, banhando-nos com a riqueza de suas experiências.

Quando aprendermos o sentido da gratidão, não haverá agressões, preconceitos, negligências contra os idosos que, a muito custo, construíram a história de nossa pátria.

Uma questão, portanto, a se pensar!

Imagem de Sabine van Erp por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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