Nunca foi sorte. Sempre foi Deus?, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 4 minutos

Marcelo Henrique

***

Não é sorte. Nem azar. Nem Deus. É você, sou eu, somos todos!

***

A vida me fez observador. De pessoas, de cenários, de objetos, de edificações e, sobretudo, de mensagens escritas. Em qualquer lugar. Sob qualquer forma ou meio. No cotidiano.

Aquilo que minhas lentes corporais vislumbram, há décadas, tem servido de inspiração para as minhas crônicas do cotidiano. Em alguns casos, o mote é de natureza religiosa, porque a religião é uma parte marcante da cultura das pessoas e das coletividades.

Já tratamos, outras vezes, das diferenças entre religião e religiosidade. A primeira está ambientada em organizações humanas e, como tal, falíveis, mesmo que terceirizem a autoria para um ser divino, seja ele o próprio Deus (humanizado), seja outras formatações. Na Antiguidade, muitos povos despertos, espiritualizados e que foram dominantes em suas épocas cultuavam não uma divindade, mas várias. Uma para cada “área” ou “tema”, conforme a religião, bem ao gosto do freguês – isto é, o ser em suas permanentes buscas por ser mais e melhor do que era, àquele tempo.

A segunda, embora mantenha correlações com a primeira, porque a existência de ambientes (locais) e a formação de grupos (fiéis, seguidores, adeptos), favorece a aproximação, a sintonia e a mantença de vínculos segundo afinidades e visões do mundo, possui elementos marcantes de diferenciação. A religiosidade simboliza a espiritualidade, que é o mergulho do ser em si mesmo, nem sempre de forma autônoma, porque há o direcionamento da primeira acerca do “que”, “como” e “porque” crer.

Situando o título desta nossa crônica, o preceito é religioso e pode – ou não – envolver a verdadeira espiritualidade. A verdade, neste caso, depende da lógica, da racionalidade, da validade incontestável de uma afirmação e de sua aplicabilidade a todos os casos. Porque, neste caso, é consonante com leis universais e, como tal, não depende de interpretações parciais, segundo as conveniências humanas. No Antigo Testamento encontramos expressões similares, ao sabor do “Deus dá e tira”, “Deus permite e proíbe”, “Deus elogia ou pune”, “Deus premia ou castiga”. E assim por diante.

As duas frases que intitulam nosso ensaio estavam no vidro traseiro de um automóvel. Um modelo “hatch”, de fabricação nacional, novo, bonito e reluzente. Nem raro nem comum. Mas facilmente encontrado em estacionamentos ou filas das nossas médias e grandes cidades. Vamos a elas: “Nunca foi sorte” e “Sempre foi Deus”.

O que tem a ver a sorte? Sorte ou azar são dois lados de uma mesma moeda e consistem nas visões precárias do ser em relação aos atos e contextos da vida humana. Quem tem sorte? Aquele que é bem sucedido na vida, que tem um bom trabalho/emprego, que recebeu uma herança, que fez um bom casamento, que tem filhos responsáveis e trabalhadores. E assim vai. Quem tem azar? Aqueles em situação oposta às questões acima descritas.

Sorte e azar, assim, parecem condições fortuitas, ao “sabor dos ventos”, ou, então, benesses e maldições concedidas ou impostas por uma “força superior” à humanidade, a que muitos chamam Deus. Neste caso, um personagem bíblico, do Antigo Testamento, Jó, materializa os “testes” a que ele se subordinou na trajetória humana, similar à nossa, para provar a sua obediência (e subserviência) ao “Pai”, o Criador de tudo. Em essência, um grande contingente de pessoas acredita – e nisso as religiões são responsáveis por infundir das ideias – que a vida se resumiria a jogar dados e esperar o número que caia, de um a seis, demonstrando o vencedor e o vencido.

E o sempre foi Deus? Foi o quê? É Deus o quê? O responsável direto pelo sucesso ou pelo fracasso dos indivíduos (Espíritos)? A ventura ou a desgraça são obras d’Ele? É Ele quem quer ou deixa de querer? Como funciona isso?

Vamos a alguns exemplos.

Você estuda (ensino fundamental e médio) e escolhe uma profissão. Deseja passar num exame admissional para o ensino superior ou ensino profissionalizante. Se esforça, estuda, memoriza, analisa, pondera. Faz a prova. E passa. Foi Deus?

Você está formado e busca uma colocação no mercado de trabalho. Se submete a entrevistas, prepara e envia seu currículo, realiza treinamentos, demonstra conhecimento, capacidade, habilidades. E é contratado ou selecionado. Foi Deus?

Você trabalha “duro”, corta gastos, economiza, faz renúncias ou “sacrifícios”. Conquista bens materiais, troca de carro, compra um apartamento, troca mobília, compra aquele celular desejado, ou um eletrônico que você nunca teve antes, para desfrutar conforto e prazer. Foi Deus?

Você está na “pista”. Conhece pessoas. Se interessa por umas enquanto afasta outras. No seu radar, há mulheres ou homens interessantes, que você gostaria de conhecer mais proximamente e, lá na frente, constituir uma família, ter filhos, viver em parceria. Foi Deus?

E o oposto? Perder o emprego, bater o carro, fazer um mau negócio, ser enganado por um sócio, desfazer um relacionamento de anos, não passar num concurso ou teste seletivo, incendiar seu apartamento, estragar um eletrodoméstico, ter o celular furtado. Foi Deus?

Reflitamos… Até que ponto Deus ocupa o papel condutor, a posição principal de sua vida? Por que Deus e não você pilota sua nave existencial, o corpo físico que alberga o ser inteligente, Espírito? Acaso Deus está por detrás de cada escolha sua? Porventura é a divindade quem lhe diz para pegar o rumo à direita ou à esquerda, para chegar ao destino desejado?

As religiões seguem apregoando isso. Falseando o mapa que representa os trajetos humano-espirituais, para manter os indivíduos presos a convicções falsas, mas que permitem a obediência cega e a veneração a ídolos – sejam eles seres humanos como nós, padres, pastores, gurus, influencers, dirigentes, palestrantes, médiuns, sejam os próprios seres divinais, que não conhecemos, que não temos qualquer certeza da existência e veracidade, senão a fé que as religiões nos incutem.

Não é sorte. Nem azar. Nem Deus. É você, sou eu, somos todos! Obviamente que é preciso buscar forças em algo superior a nós, independente do nome que dermos a isso. Como um aluno que procura um professor, um discípulo que escuta um mestre, um novato que carece de orientações de um veterano, um ser em dificuldade precisa de um ombro amigo, um sofredor precisa de alguém que lhe ajude a encontrar a cura, o significado das situações da vida ganha um contorno mais adequado e um colorido mais real quando deixamos de terceirizar a responsabilidade e as ações, sejam elas as positivas ou as negativas. Os sucessos e os fracassos. As alegrias e os dissabores. As satisfações e as tribulações. Assuma o seu posto, a sua tarefa, a sua “missão”: seja, você mesmo, e não Deus, sempre!

Imagem de Myriams-Fotos por Pixabay

 

Written by 

Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.