Evandro Oliva e Marcelo Henrique
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A Doutrina dos Espíritos procura explicar as relações entre os Espíritos e, neste sentido, apresenta elementos filosóficos que são destinados à melhor compreensão de cada Espírito, sua relação com os demais Espíritos, com o mundo em geral. É por isso que, para entender Gênero e Sexualidade em plenitude, as abordagens espíritas devem ser conciliadas com as Filosofias das Ciências em geral, como produtos do estudo, da experimentação e da criação humana.
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Preliminares
Começo esse artigo com duas perguntas: ― Quando foi que você escolheu seu gênero? ― E sua condição sexual, quando foi escolhida por você?
Se você respondeu: NUNCA, você é privilegiada(o) por ter a aceitação na (da) sociedade e segue sem ter problema algum quanto a essas “classificações”.
Na verdade, a pergunta é apenas provocativa. Ninguém ESCOLHE Gênero ou Sexualidade! Simplesmente se É.
Para iniciarmos nossa breve conversa, é fundamental deixarmos claro as diferenças existentes entre GÊNERO e SEXUALIDADE (ou CONDIÇÃO SEXUAL). E não! Não se fala OPÇÃO SEXUAL, nem ESCOLHA SEXUAL. Ninguém escolhe nada. Duvida? Então, se você é hétero, quando escolheu ser?
GÊNERO ou IDENTIDADE DE GÊNERO?
Há duas definições: a primeira, e mais comum, vem da linguagem: “Gênero é qualquer forma ou tipo de comunicação em qualquer modo (escrito, falado, digital, artístico, etc.) com convenções socialmente acordadas desenvolvidas ao longo do tempo” (Wikipedia, 2026).
A outra é mais complexa e, por isso bem mais importante. Conforme Nohara (2016), a Identidade de Gênero refere-se aos papéis, comportamentos, atividades e atributos socialmente construídos que uma determinada sociedade considera apropriados para homens, mulheres e, também, pessoas não binárias. Diferentemente do sexo biológico (aquele que é definido por características anatômicas), o gênero é aprendido, culturalmente específico e mutável ao longo do tempo, daí falar-se na Identidade de Gênero.
O mais importante neste artigo é tratar exclusivamente da IDENTIDADE DE GÊNERO [1]. É o que faremos na sequência.
As espécies ou Identidades de Gênero
Temos as seguintes:
1) CISGÊNERO: se identifica com o gênero que nasceu biologicamente
“O cisgênero consiste no indivíduo que se identifica com o seu “gênero de nascença”. Por exemplo: um indivíduo que possui características biológicas típicas do sexo masculino e que se identifica (social e psicologicamente) como um homem. Desta forma, pode-se dizer que se trata de um homem cisgênero” (Theodoro, 2026).
2) TRANSGÊNERO: não se identifica nem se adequa ao gênero biológico
“O transgênero é o indivíduo que se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído no nascimento. Por exemplo: uma pessoa que nasce com características biológicas masculinas, mas que se sente do gênero feminino. Ou o indivíduo que possui características físicas femininas, mas que se identifica como homem” (Theodoro, 2026).
Theodoro (2026) ainda destaca que hoje se corrige um erro crasso do passado, pois “a transgeneridade não é um distúrbio mental”, sendo afronta aos direitos humanos individuais as tentativas de “patologização da pessoa transgênero”.
3) NÃO BINÁRIO: aquele que não se identifica com nenhum dos gêneros (masculino ou feminino), mas possui características de ambos.
Para Theodoro (2026), essa tipologia “caracteriza a mistura entre masculino e feminino, ou a total indiferença a ambos”. Como os não-binários estão além dos papéis sociais que tradicionalmente são atribuídos a cada gênero, eles constroem uma outra identidade, a terceira, totalmente distante do padrão “homem-mulher”.
E a “IDEOLOGIA DE GÊNERO?”
Em duas palavrinhas: isso NÃO EXISTE!
Configura mera conversa opinativa de políticos religiosos que se aproveitam da ignorância das pessoas para gerar ódio, preconceito e, também, votos, daqueles que se identificam com este hediondo discurso. Então, repetimos: NÃO EXISTE IDEOLOGIA DE GÊNERO!
Agora, vamos tratar do campo da SEXUALIDADE, ou da CONDIÇÃO ou ORIENTAÇÃO SEXUAL (não existe escolha nem opção, lembre-se!)
Assim, ambos os termos estão corretos – condição sexual ou orientação sexual. É o que veremos a seguir.
Tipos de orientação sexual
Enumeramos os tipos:
A) HETEROSSEXUAL – Pessoa que sente atração sexual por pessoa de gênero oposto. Exemplo: Homem por mulher, mulher por homem (sempre cisgêneros).
B) HOMOSSEXUAL – Pessoa que sente atração sexual por pessoa do mesmo gênero. Exemplo: Homem por homem, mulher por mulher (cisgêneros ou transgêneros).
C) BISSEXUAL – Pessoa que sente atração por pessoas de ambos os gêneros. Exemplo: Homem por homem ou mulher; Mulher por homem ou mulher. Não necessariamente isto ao mesmo tempo, e pode ser, inclusive, por certos períodos da vida sexual.
Essas são as classificações mais comuns, mas há outras. Vejamos:
D) ASSEXUAL – Pessoa que não sente desejos sexuais por ninguém, ou seja, não pratica sexo.
E) DEMISSEXUAL – Pessoas que se atraem sexualmente somente por pessoas que já tenham um vínculo afetivo.
F) PANSEXUAL – Pessoa que sente atração sexual por outras pessoas, não importando o gênero nem a condição sexual.
G) QUEER – Um “apelido” pejorativo usado na década de 1970 que, recentemente, foi apropriado pela comunidade LGBT+ para se referir a quaisquer membros da comunidade (LGBTQIAPN+).
H) INTERSEXO – Pessoa com características biológicas (genitais, hormônios) que não se enquadram no binário masculino/feminino. O ser nasce com os dois aparelhos reprodutores, embora um ou outro incompleto (pênis e vagina). Antigamente era chamado de Hermafrodita, mas hoje este é um termo inadequado.
Complicando para esclarecer
Vamos complicar um pouco mais? Jocosamente, claro, porque a intenção de nosso artigo é esclarecer alguns pontos e permitir a você, leitor, em qualquer notícia, informe ou debate, conhecer os elementos de entendimento e evitar que falácias e manifestações ideológicas sejam tomadas como verdades indiscutíveis.
Imaginemos que um homem trans (nasceu com sexo feminino mas se define como masculino) pode ser gay – ou seja, gostar de homens. Então ele terá o gênero TRANS MASCULINO, e a sua condição sexual será HOMOSSEXUAL (ou GAY).
Ah, mas então é relacionamento biologicamente hétero, né? NÃO.
Uma pessoa TRANS pode optar OU NÃO em fazer cirurgia ou procedimentos de redesignação sexual (transformar pênis em vagina, ou colocar próteses mamárias, etc.). Portanto, Um HOMEM TRANS pode, se assim desejar e com acompanhamento médico, ENGRAVIDAR de seu PARCEIRO GAY. O que atrai as pessoas na condição sexual, não é apenas a genitália, e sim o TODO do SER.
Uma MULHER TRANS, por sua vez, pode ter um relacionamento HÉTERO com um HOMEM TRANS – como é o caso da Deputada Federal Érika Hilton. Ambos são TRANSGÊNEROS, mas sentem ATRAÇÃO SEXUAL pelo gênero OPOSTO. Então, SÃO UM CASAL TRANS HÉTERO.
Estes dois exemplos são, apenas, duas combinações possíveis entre IDENTIDADE DE GÊNERO e CONDIÇÃO SEXUAL. Portanto, com esse conhecimento, temos certeza que você não confundirá mais, nem estranhará quando souber da existência ou presenciar um relacionamento entre pessoas que foram casais diferentes do “comum”.
As siglas LGBTQIAPN+
Entendemos oportuno apontar os corretos significados da sigla LGBTQIAPN+ (vigentes em 2026), que são referenciados pela imprensa ou em publicações autorais. São eles:
L (Lésbicas): Mulheres que sentem atração afetiva/sexual por outras mulheres.
G (Gays): Homens que sentem atração afetiva/sexual por outros homens.
B (Bissexuais): Pessoas que sentem atração sexual/afetiva por mais de um gênero (homens e mulheres).
T (Transgêneros/Travestis): Pessoas cuja identidade de gênero difere do sexo biológico atribuído ao nascimento.
Q (Queer): Pessoas que não se encaixam nas normas tradicionais de gênero ou sexualidade, muitas vezes subvertendo padrões impostos.
I (Intersexos): Pessoas com características biológicas (genitais, hormônios) que não se enquadram no binário masculino/feminino.
A (Assexuais): Pessoas que sentem ausência total ou parcial de atração sexual. Inclui também arromânticos e agêneros.
P (Pansexuais): Pessoas atraídas por outras, independentemente do seu gênero ou sexo.
N (Não-binários): Pessoas que não se identificam com o binário “homem” ou o “mulher”, podendo se identificar com ambos ou nenhum.
+ (Mais): Símbolo para incluir outras orientações e identidades de gênero não explicitadas, garantindo a abrangência da sigla.
As dificuldades da vida planetária
Seguimos, nesta terceira década do Século XXI enfrentando problemas graves em nossa sociedade planetária. Trata-se de um mal ainda generalizado mas que, em determinados países é mais grave e, em outros, as leis e as condutas ajustadas da maioria das populações permitem uma convivência pacífica e respeitosa.
Estes problemas são a desinformação e o preconceito. A primeira faz com que ideias equivocadas sejam tomadas como reais e usuais, influenciando aqueles que desconhecem o que é verdadeiro, ou seja, aquilo que é cientificamente demonstrado. O segundo implica no aumento de casos de violência contra os “diferentes”, justamente pela ausência de respeito em relação àquilo que os outros são.
O Brasil segue sendo, infelizmente, o país que mais assassina pessoas TRANS no mundo, e a violência é empregada apenas por elas existirem. Em muitos casos, os homicidas (assim como aqueles que praticam diversas violências físicas ou psicológicas contra as TRANS, também crimes) são os parceiros sexuais MACHISTAS que tem “nojo” do próprio desejo, assim como diversos indivíduos que, mesmo não tendo relacionamentos afetivos ou sexuais com TRANS, sentem o mesmo desejo.
É sempre preciso destacar que a HOMOFOBIA é crime [2], de modo similar ao RACISMO.
UNIÃO ESTÁVEL e CASAMENTO HOMOSSEXUAL é um direito, mas determinado pelo STF, pois temos um congresso retrógrado e conservador que sequer legislou sobre esse direito básico e igualdade e equidade social.
Nossas leis vão, aos poucos, se adequando para esta realidade: PESSOAS AMAM QUEM QUISEREM.
O problema está no AMOR ou no ÓDIO?
As tais religiões que se dizem portadoras do amor divino, são, em grande parte, incubadoras de ÓDIO pelo diferente daquela “família em conserva” retratada no último carnaval.
E o Espiritismo?
O Espiritismo, ao contrário do que muitos pensam ou tomam para si, não se configura como uma filosofia prescritiva de comportamentos. Por outro lado, tampouco é uma religião – quando, nesse caso, a moral religiosa impõe obediências aos adeptos ou fiéis. A Doutrina dos Espíritos procura explicar as relações entre os Espíritos (compreendendo, nesse caso, tanto os encarnados – nós – quanto os desencarnados – aqueles que já passaram pela experiência físico-material e, em breve, estarão de volta a tal condição encarnatória) e, neste sentido, apresenta elementos filosóficos que são destinados à melhor compreensão de cada Espírito, sua relação com os demais Espíritos, com o mundo em geral. Então, na generalidade dos casos, os temas espíritas precisam ser conciliados com as Filosofias das Ciências em geral, como produtos do estudo, da experimentação e da criação humana, aproximando o conhecimento espiritual do conhecimento humano, e vice-versa.
Portanto, o que o Espiritismo encampa são as Leis Universais e, dentre elas, a Lei de Amor, Justiça e Caridade. Como já cantaram os “The Beatles” (“All you need is love” – tudo o que necessitamos é o amor), ou o nosso “Bituca”, Milton Nascimento (“Paula e Bebeto” – “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”), importa aos Espíritos amar! E esse amor não tem gêneros específicos e comporta, em plenitude e essência, todas as identidades de gênero explicitadas neste artigo.
Esperamos, assim, que esse artigo tenha contribuído para sua cultura, mas especialmente, para que eliminemos por completo os preconceitos pueris que ainda insistimos em repetir.
Então, porque EXISTIMOS E TEMOS DEVERES E DIREITOS IGUAIS A TODOS, independente da Identidade de Gênero…
Somos todos HUMANOS!
Notas do ECK:
[1] Em 2007, em face da escassez de bibliografia espírita que tratasse dos temas afetos à sexualidade humana, Marcelo Henrique escreveu o livro “Túnel de Relacionamentos”, cuja referência consta ao final. Na obra, publicada pela Editora EME, temas como “Espiritismo & Sexualidade”; “Falando de sexo com seu filho”; “Sexualidade do Adolescente”; “Nossas meninas são meninas!”; “Namoro”; “Relações Sexuais”; “Masturbação”; “Promiscuidade”; “Homossexualidade”; “Uniões Conjugais Homossexuais”; “Bissexualidade”; “Travestismo”; “Transexualidade ou Transexualismo”; “Camisinha”; “AIDS”, entre muitos outros, causaram “perplexidade” na maioria dos espíritas, justamente pela coragem em abordar tais temáticas, a partir dos conceitos espíritas.
[2] Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o enquadramento dos atos de discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero na Lei do Racismo, a Lei Federal n. 7.716/1989 Brasil, 1989). E, em 2023, o mesmo STF passou a equiparar as ofensas contra pessoas LGBTQIAPN+ a crime de injúria racial (STF, 2023).
Fontes:
Brasil. (1989). “Lei do Racismo”. Lei Federal n. 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Disponível em: <LINK>. Acesso em 26. Fev. 2026.
Henrique, M. (2007). “Túnel de Relacionamentos”. Capivari: Ed. EME.
Nohara, I. P. (2016). “Fundamentos de Direito Público”. São Paulo: Atlas.
Theodoro, J. Identidade de Gênero: o que é e quais os tipos (trans, cis, não-binário). Disponível em: <LINK>. Acesso em 26. Fev. 2026.
STF. (2023). “STF equipara ofensas contra pessoas LGBTQIAPN+ a crime de injúria racial”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 26. Fev. 2026.
Wikipedia. (2026). “Gênero”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 26. Fev. 2026.
Imagem de Patricia Román por Pixabay




