Nelson Santos
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Será que a bondade de Lancelotti estaria “incomodando” os setores mais conservadores da ICAR? Ou seria uma condenação sumária diante do pretenso “dossiê de denúncias” ― estas já velhas e bastante carcomidas ― agora encaminhadas por um certo político à Embaixada do Vaticano? Desculpas?
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Em 1904, Vladimir Ilitch Lénine, lançou “Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás (A Crise no Nosso Partido)”, no qual tecia crítica contundente ao oportunismo dos mencheviques [1] quanto às questões de organização do partido. Isto tornou-se um adágio utilizado contemporaneamente diante do retrocesso verificado na vida dos indivíduos, assim como na história das nações e no desenvolvimento de políticas públicas.
O já saudoso Jorge Bergoglio (Papa Francisco) procurou transformar a estrutura arcaica da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), dando-lhe ares progressistas, enquanto presente nesse mundo em que vivemos. Conseguiu, ele, alguns avanços possíveis, fazendo florir uma primavera humanista no seio da imensidão dogmática. Porém, a sua partida já demonstra, em curto prazo, o pujante conservadorismo soprando nuvens tempestuosas, ainda que não seja uma exclusividade das várias estruturas religiosas, como se vê, também, na organização espírita.
Esta introdução se faz necessária para abordarmos o personagem da vez. Todos, no Brasil, independentemente de posições religiosas ou políticas, conhecem o trabalho humanista de Padre Júlio Lancelotti junto ao “povo de rua”, isto é, aquelas pessoas em extrema vulnerabilidade que a sociedade, tradicional e repetidamente, “esquece”. A luta de Júlio se direciona à ignomínia social da aporofobia, trabalho esse que o torna alvo da extrema-direita brasileira, por meio de críticas nas redes sociais e, até mesmo, de ações de pessoas, grupos ou instituições. Justamente contra um homem que, na condição de representante religioso, veste plenamente as sandálias do pescador Yeshua, vivenciando o amor pleno legado por aquele, caminhando entre os menos favorecidos e amparando-os.
A pergunta que não quer calar é: o que leva um superior eclesiástico ― no caso, o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer ―, sob o guarda-chuva de “protegê-lo” dos problemas vivenciados, em face de estar com mais de 75 anos, a afastá-lo das atividades religiosas e caritativas, suspendendo as transmissões de missas ao vivo e interrompendo as atividades do clérigo em redes sociais? Será que a bondade de Lancelotti estaria “incomodando” os setores mais conservadores da ICAR? Ou seria uma condenação sumária diante do pretenso “dossiê de denúncias” ― estas já velhas e bastante carcomidas ― agora encaminhadas por um certo político à Embaixada do Vaticano? Desculpas?
Entendemos que é hora dos setores religiosos, sociais, políticos e também laicos se pronunciarem contra esse cerceamento, incluído, aí, o meio espírita por seus órgãos representativos. Vejamos, a propósito, o que Kardec (2003:200, grifo do original) asseverou no Item 5, do Capítulo XV, de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, obra que contém, aliás, as máximas morais do nosso Magrão:
“Caridade e humildade, esta é a única via de salvação; egoísmo e orgulho, esta é a via da perdição. Esse princípio é formulado em termos precisos nestas palavras: “Amarás a Deus de toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo; estes dois pensamentos contêm toda a lei e os profetas.” E para que não houvesse equívoco na interpretação do amor de Deus e do próximo, temos ainda: “E o segundo, semelhante a este, é”, significando que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar ao próximo, nem amar ao próximo sem amar a Deus, porque tudo quanto se faz contra o próximo, é contra Deus que se faz. Não se podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se encontram resumidos nesta máxima: Fora da caridade não há salvação.”
Embora arreligioso, como espírita, livre pensador, laico, progressista, humanista, não posso e não devo me calar perante tal fato. Silenciar ou limitar a atuação de Padre Julio é crucifica-lo, em vida. Mas o mundo contemporâneo não tolera nenhuma crucificação. Convido, assim, todos a refletirem e agirem. O ECK inicia, com esse libelo, a defesa espírita do sacerdote, verdadeiro humanista cristão”
Fonte:
Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.
Nota do ECK:
[1] Mencheviques representavam a facção moderada do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) que defendeu, durante a Revolução Russa, que, por meio do desenvolvimento capitalista e democrático (pelas conquistas do Parlamento) se operasse a transição gradual ao socialismo. Em oposição a eles figuraram os radicais bolcheviques, desejosos da revolução imediata.
Imagem capa: São Paulo (SP) 24/02/2024 – Primeira entrega de alimentos fornecidos pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) para atendimento à cozinha solidária de São Paulo. Um projeto do MST com o padre Julio Lancellotti Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil




