Todos estão mudos: a paz como uma gramática essencial, por Marcelo Henrique e Marcus Braga

Tempo de leitura: 8 minutos

Marcelo Henrique e Marcus Braga

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Se, destarte, “todos” parecem ter emudecido, a voz que sangra e se agita, a que provoca as convulsões dos pensamentos (antes e ainda hermeticamente contidos nas gramáticas da religião espírita) e as ações que principiam pelas vozes (dos nossos textos), é a do ECK!

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2026: calaram-se os gritos pela paz! Diante de sucessivos bombardeios o fanatismo silenciou aqueles que defendem o Partido da Paz. Não há, pois, em geral, notas de repúdio, editoriais ou desagravos. Circulam, apenas e tão-somente, aqui, ali e alhures, apenas as meras opiniões de ocasião, de quem precisa se justificar ou alimentar adeptos, simpatizantes ou filiados, ao lado de posições “políticas” e “identitárias”, bem como as “comemorações” daqueles que estão alinhados com o lado que aparenta ser o “vencedor”.

Nada muito substancial. Tampouco manifestos “de alma”, porquanto pudessem, esses, dar uma “sacudida” nos “mortais” humanos, endereçando-os a falas e atitudes mais condizentes com uma desejável espiritualização do planeta. Como dizia Gonzaguinha na música Fliperama [1]: “e  a arca da paz, jaz, sob fantásticas jogadas comerciais” (Gonzaguinha, 2026).

Porque, em tudo e por tudo, por cima e por baixo, por fora e por dentro, de um lado e de outro, onipresentemente, o que vigora é o “homus economicus” – os agentes individuais, os coletivos e os estatais como agentes que, racionalmente, são egoístas e visam a maximização da utilidade (obtenção de lucros, maiores benefícios, com os menores custos possíveis). É este “homo” que fabrica guerras, invasões, imposições de tarifas, embargos, vetos, na nítida vitória da força e da imposição de suas convicções sobre quem quer que seja.

Podem, até, variar os sujeitos, os belicosos, os opressores, os megalômanos da vez. Sim, porque na História Humana já foram muitos, desde eras ancestrais. E eles estão, novamente, por aqui, e ainda irão permanecer, enquanto o processo civilizatório progressivo estiver em curso – e, sabemos nós, este também é infindo!

Embora, nos dias desta década – como das anteriores, neste e no século passado – o tema já tenha virado rotina, ocorreu mais um bombardeio no final de semana, disputando, assim, a atenção do “respeitável público” com as estreias da Netflix e as competições esportivas. Praticamente um entretenimento, para todos. Porque há “sangue nos olhos” e, mesmo sem perceber, há vampiros por toda a parte: gente que, como dito acima, escolhe “lado” para torcer. Enquanto isso, tem-se mais pessoas morrendo ou ficando com sequelas físicas e morais…

E, entre os espíritas misturam-se as narrativas “de torcidas”, ao lado do costumeiro silêncio retumbante institucional, de entidades locais ou maiores. Assim como, generalizadamente, de todos “nós”, espíritas “de carteirinha”, de “afinidade”, adeptos ou simpatizantes. Tudo isto, logicamente – mas, também, indignadamente (para o ECK), sem qualquer clamor ou indignação.

Ouvimos, saudosamente, ao fundo de minhas lembranças a música do cancioneiro espírita – que embalou as nossas agradáveis e proveitosas andanças de juventude e mocidade espiritistas – que ainda ecoa, hoje, em muitas instituições:  “Fim dos tempos”, de João Cabete [2]. “In verbis”:

“Vem Jesus Divino amigo vem trazer a tua paz

[…]

Afastar do mundo a guerra, o chacal devorador

Que destrói tudo na terra espalhando luto e dor

Há gemidos de aflição já não há mais primaveras

Criancinhas pedem pão homens lutam como feras” (Cabete, 2026).

Cabete compôs, então, um verdadeiro hino anti belicista e, para além disso, situa-se no mesmo itinerário de Gandhi, Luther King e Lennon [3], em ações (individuais e sociais) que bucam a paz! Isto para ficarmos em, apenas, três personagens mundialmente conhecidos por suas “lutas” pela paz do (no) mundo!

É mais do que pungente, necessário e vital (do ponto de vista da continuidade da vida física – tão primordial ao progresso humano-espiritual), dizer, novamente, como já, antes, dissemos: “Basta de Colonialismos e Imperialismos!” – título do Editorial ECK, de 19 de julho de 2025. Lá, quanto aqui, o lema é:

“O ECK continua atento aos ataques à nossa democracia nunca antes vistos em nossa história. É preciso que os organismos internacionais e as nações soberanas deem um decisivo basta aos colonialismos e imperialismos de ocasião, nesta terceira década do século XXI” (Editorial ECK, 2025).

O verbo “espírita”, espiritualizado, transcendente, mas aplicável “in totum” à ambiência planetária é PAZEAR. Fazer, realizar, promover a paz. Incondicionalmente. Sempiternamente. Sem exceções. Falando, então, nesse verbo, buscamos, ingênua e inutilmente, nas redes sociais, as manifestações de espíritas sobre o horror da guerra. Indo um pouco mais além, percorremos com os dedos e os olhos, as páginas dos sites institucionais e dos coletivos espíritas. Nada! Não há nada, mesmo! Tudo parece figurar ajustado, pertinente (?) à vida e  naturalizado…

Cegos, talvez, pelo fanatismo dos extremos – e dos “neutros” que aderem, aqui ou ali, a certas formulações “mágicas” e “mirabolantes”, que visam explicar (convenientemente!) os acontecimentos, chegamos à rotina desses tempos estranhos, em que desapareceram as postagens de lamento pela guerra. Chegamos a sentir falta das ilustrações (algumas até bem feitas, com recursos de IA) mostrando os Espíritos sendo resgatados de escombros de prédios e localidades civis, ou trincheiras e campos de batalha, sendo bem-recebidos em “Nosso Lar”. Nem mesmo a fábula dos espíritas deu suas caras! Calaram e continuam silentes os pedidos de (pela) paz, egressos do meio espirita. Repetimos:  todos calados!

Neste silêncio sepulcral do alinhamento, uníssono, de gente que “tem mais o que fazer”, ou que lamenta apenas no intervalo de míseros segundos quanto navega pelo “feed” do portal de notícias ou os links das publicações de mídia especializada – ao lado dos múltiplos anúncios publicitários que inundam e ocupam a página toda, por vezes, ou que interrompem os vídeos das reportagens – inexiste empatia. Nenhuma dor de quem está tão distante e que não é da “nossa” etnia, nem empunha a “nossa” bandeira (verde-amarela) é motivo de meditação, de comiseração, de vibração ou de preces. Que lástima!

Não temos, por hora, e não sei se haverá, psicografias de lamento, com seus subscritores pedindo a paz. Nem sei se “autoridades” dos “conglomerados” espiritistas irão proferir notas ou artigos sobre a paz necessária. Talvez, não sabemos. A mediunidade não se presta a sortilégios premonitórios nem penetra no âmago dos indivíduos, onde está a usina de suas verdades.

Se a guerra, então, não figura capaz de nos indignar, que lado sombrio da natureza humana tem preponderado? Fomos, quem sabe, vencidos pelas más tendências? Assumimos as falácias exógenas de guerras espirituais, contidas em discursos que dizem ser justificável a guerra (“guerra santa”)? Ou, para tentar “encaixar” na legítima teoria kardeciana, que trata da guerra [3], dizem que os algozes são “espiritualmente” predeterminados para “limpar o orbe”? Ora, pois… Além de fazer desembarcar Kardec, quase corrido ou enxotado, lá foi Jesus junto, no roldão, como se, na limpeza do casco, com água e esfregão, o carpinteiro estivesse sendo, também, jogado ao mar?

Em um momento em que o conflito bélico aumenta (e, cada vez mais) vertiginosamente no mundo todo, nos perguntamos: cadê os defensores da paz no âmbito das denominações religiosas? E, sim, onde estão eles, no meio espírita?  Sobrou aos “seguidores do Cordeiro”, a defesa da violência, hoje, para a “paz de amanhã” (que paz?), como gramática hegemônica?

Portanto, o bombardeio do Irã e os alvores de nova guerra (mais uma!?) [4] que não durará só doze dias [5], é um fato que indicam uma tendência, um movimento de tempos mais acentuados em termos de guerra, o chacal devorador que destrói tudo na Terra, espalhando luto e dor. É preciso reagir, defender a paz.

Ademais, entendemos, estes que subscrevem esse artigo assim como os que compõem o nosso Coletivo ECK, que

“a decisão por uma guerra é sempre a escolha errada, porque mata inocentes, destrói economias e memórias, obriga a êxodos e separações, causa traumas, entre outras consequências terríveis”, como escreveu nesta manhã de domingo, o primeiro de março, Dubeaux (2026).

Henrique (2022) já havia, no âmbito espiritista, sinalizado isso: “Da cátedra espírita resulta a noção de que não será à custa de vidas humanas que se conseguirá o estágio de paz social. A chamada ética espírita, fundada nos ideais de liberdade, fraternidade e solidariedade, oferece importantes elementos na contribuição aos debates mundiais sobre guerra e paz”.

Por isso, a nós, espíritas kardecianamente conscientes e proativos na semeadura da paz de todos os dias,

“Não importa os motivos da guerra

A paz é mais importante”

como disse e cantou Roberto Carlos na música “Todos estão surdos” (Carlos; Carlos, 2026).

Estamos surdos, então? Cegos, além disso? Será que cansamos da nossa condição humana, porquanto incrédulos? Que raio de consenso maligno é esse em que nos enfiamos? E que, ao que parece, convenientemente, nas zonas de conforto da modernidade, protegidos pela distância dos fatos, sujeitos, apenas, ao alcance da luminosidade azul das telas, em nossas casamatas intransponíveis (por enquanto, viu? Já que o Brasil – por ora – não está na “alça de mira” dos belicosos “conquistadores” do Terceiro Milênio…

Assim, Henrique e Braga, nós, agora, em 2026, repisamos o que os Editores do ECK (2025) já escreveram (“Vozes para Gaza”) em relação a esta porção do território terreno que “respira” conflitos infindáveis:

“O Coletivo ECK une-se a esse clamor, como tem feito em sua linha editorial em variados momentos de crises humanitárias planetárias, ameaças à democracia e outros temas sensíveis, em diversos campos”. Por isso, acrescenta o ECK: “independentemente de onde venham — individuais ou coletivas, laicas ou religiosas, de qualquer espectro político —, Gaza necessita de mais e mais vozes. Não é o momento de análises menores, é o momento de gritar — sem divisões nem tergiversações — em nossas redes e grupos, para que possamos interromper esse ciclo impiedoso de violência contra pessoas, sejam homens, mulheres ou crianças” (Henrique; Braga, 2026).

O Irã e Israel também precisam de MAIS VOZES…

Por hora, segue sozinho, entre os encarnados, o ECK. Como dissemos (Henrique, 2026), recentemente:

“Lamentamos estar solitários, enquanto instituições e grupos espíritas neste cenário, mas seguimos, mesmo sozinhos, em nome da ética, da paz, da fraternidade e do mais absoluto respeito aos direitos humanos fundamentais! Nosso convite, pois, é o de que apliquemos o mesmo metro de medição para todas as ações antijurídicas vigentes em nosso planeta!”.

Se, destarte, “todos” parecem ter emudecido, a voz que sangra e se agita, a que provoca as convulsões dos pensamentos (antes e ainda hermeticamente contidos nas gramáticas da religião espírita) e as ações que principiam pelas vozes (dos nossos textos), é a do ECK! E a de todos – os leitores – que sejam capazes de romper a (contingencial e rotineira) inércia!

Vamos?

 

Notas dos Autores:

[1] A música “Fliperama” integra o álbum “Cavaleiro Solitário” (1993), de Luiz Gonzaga Jr., com doze faixas.

[2] João Cabete (1919-1987) foi músico espírita, escreveu mais de duzentas composições, apesar de jamais ter gravado um disco ou CD. Suas músicas são, até hoje, interpretadas por músicos, grupos e corais em todo o Brasil. Sobre a música “Fim dos Tempos”, declarou que a inspiração foram as cenas de TV sobre a guerra do Vietnã. Disse ele, a propósito: num mundo futuro, no amanhecer da nova Humanidade “Não haveria fronteiras, os canhões transformados em urnas de flores, os homens sem divisões, uns amparando aos outros, o fraco sendo ajudado pelo mais forte, enfim, a humanidade redimida. Mais uma vez, fui ao meu piano para que traduzisse em canção todas as emoções que estava sentindo, vendo hoje o amanhã”.

[3] John Winston Lennon foi, reconhecidamente, um ativista pela paz. Relembrando os 44 anos de sua ausência (física), assassinado que foi em praça pública por um “fã”, Lennon, para Henrique (2024), “nos endereça à construção da paz possível entre nós que estagiamos neste planeta na senda do Progresso” e, inspirados na “poética contida na letra e os acordes que emocionam” nos endereçam ao permanente agir, para “compor outras letras”, tornando-nos “protagonistas em relação aos nossos cotidianos”, na direção da pacificação de todos.

[4] Escrevemos (Henrique, 2023), diante dos conflitos, alguns que já duram  séculos, outros décadas, além dos mais recentes, “Uma nova guerra… E quantas mais, ainda, serão necessárias?”, em que consta: “A Filosofia Espírita encara o belicismo como um instrumento social, humano, para a moralização e progressão de indivíduos e povos, já que, a par das mortes e da destruição, novas ideias são semeadas, vicejam e se engrandecem, no sentido da renovação das coletividades”.

[5] Alusão ao título de um confronto armado, em 2025, entre irã e Israel, quando este último intentou impedir a expansão do programa nuclear do primeiro. O confronto gerou, em mais de 2.000 ataques, 963 mortos, quase 8 mil feridos e 700 prisões (Maselli, 2025).

 

Fontes:

Cabete, J. (2026). Fim dos Tempos. (1975). “Letras”. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Carlos, R.; Carlos, E. (2026). Todos estão surdos. (1971). “Letras”. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Dubeaux, A. (2026). O refrão do nosso tempo. “Correio Braziliense”. Opinião. 1. Mar. 2026. Disponível em <LINK>. Acesso em 1. Mar. 2026.

Editores do ECK. (2025). Vozes para Gaza. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 19. Jul. 2025. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Editorial ECK. Basta de Colonialismos e Imperialismos! “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 19. Jul. 2025. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Gonzaguinha. Luiz Gonzaga Júnior (2026). Fliperama. (1993). “Letras”. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Henrique, M. (2022). Como o Espiritismo interpreta as guerras? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 9. Mai. 2022. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Henrique, M. (2023). Uma nova guerra… E quantas mais, ainda, serão necessárias? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 9. Out. 2023. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Henrique, M. (2024). A paz, ainda que tardia: 44 anos sem Lennon! “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 8. Dez. 2024. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Henrique, M. (2026). Caracoles! O otimismo geopolítico respirando por aparelhos: e a nossa posição como espíritas nesse admirável mundo novo. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 5. Jan. 2026. Disponível em < LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

Maselli, J. (2025). Os 12 dias de guerra entre Israel e Irã em números: 963 mortos, quase 8 mil feridos, mais de 2 mil ataques e 700 prisões. “G1”. Mundo. 26. Jun. 2025. Disponível em <LINKl>. Acesso em 28. Fev. 2026.

União Espírita Mineira. “João Cabete”. Disponível em <LINK>. Acesso em 28. Fev. 2026.

 

Imagem de Creative Canvas por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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3 thoughts on “Todos estão mudos: a paz como uma gramática essencial, por Marcelo Henrique e Marcus Braga

  1. Orgulho de pertencer ao coletivo ECK, que procura se posicionar com a firmeza e clareza necessárias a tempos como este em que vivemos.
    A guerra é fruto de ações e omissões, interesses declarados e escusos, enfim, das imperfeições morais as quais insistimos em conservar, sob as mais esfarrapadas desculpas.
    Parabéns, ECK, a paz deve ser buscada ativa e corajosamente, sob a bandeira da prática do Bem, e não do disfarçado objetivo de conservação de bens e privilégios…

  2. Que artigo! A leitura foi um convite à introspecção e à escuta profunda, que é algo que precisamos demais hoje. Fiquei especialmente tocada pela clareza com que vocês tratam a paz como algo vivo, prático e essencial para o convívio humano.