Para lembrar Herculano Pires, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 6 minutos

Para lembrar Herculano Pires

Marcelo Henrique

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Herculano nos provoca a doce e agradável saudade, sempre que o revisitamos em cada leitura, sempre que republicamos um texto ou uma citação de artigo ou livro, nas redes sociais e neste nosso Portal ECK, assim como quando escrevemos sobre algum tema, com inspiração naquilo que ele ensinou.

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O mês de março é, sempre, um convite para homenagear José Herculano Pires, o maior pensador espírita brasileiro de todos os tempos. Em 1974, Herculano deixava o plano físico, retornado ao “mundo dos Espíritos”.

Assim como Kardec, viveu 65 anos incompletos e sua produção literária, além dos programas de rádio e TV, alcançou mais de 80 títulos. Poderia ser cognominado de “Kardec brasileiro”, facilmente. A conversão de José Herculano Pires ao Espiritismo já demonstrava o grande caráter de sua personalidade e a qualificação de sua presença no meio espírita: católico de formação até os 15 anos de idade, o jovem de Avaré (SP) foi guiado pela necessidade do raciocínio lógico e aplicado, a fim de conhecer melhor as “coisas do mundo”, passando antes pela Teosofia até acessar, pela vez primeira em face de um desafio proposto por um amigo, o conteúdo de “O livro dos espíritos”, em 1936, aos 22.

Precocemente, revelou sua veia literária (um soneto, aos nove, sobre o Largo São João, sua terra natal, depois, com Sonhos azuis – contos, aos 16, e Coração – poemas livres e sonetos, aos 18 anos de idade). Com 32 anos, publicou O caminho do meio, seu primeiro e mais elogiado romance e aos 44, licenciou-se em Filosofia com a tese “O ser e a serenidade” (depois, também, publicada como livro).

Se pudéssemos adjetivar Herculano lhe atribuiríamos a combatividade como sua maior marca. Numa época em que, ainda, o Espiritismo procurava o “seu chão” para fincar raízes, tanto em termos filosófico-doutrinários como sócio assistenciais, o professor denunciou e bradou forte e claramente contra todo e qualquer desvio, tentativa de adulteração e desconfiguração do edifício kardequiano, sendo, ainda, o interlocutor favorito dos programas de rádio e TV para debater com clérigos, parapsicólogos e cientistas, sobre questões transcendentais.

Muitos destes programas, ainda hoje, chamam a atenção do público espírita para a “contundência serena” de Herculano que, mesmo contrariando cada linha de seus opositores, nunca confundiu ideias com pessoas, mantendo-se sempre fraterno e cordial com todos os que conviveram com ele nestes ambientes. Percebendo, ainda, que grassavam, aqui e ali, mesmo no seio de instituições e federações espíritas, ervas daninhas ardilosamente plantadas, foi o primeiro a combater as adulterações que, vez por outra, eram articuladas e desenvolvidas, sobretudo para alterar a tradução dos livros de Kardec – que conhecia bem, por ter sido versado em francês, tradutor e comentarista de edições brasileiras – ou para achincalhar a memória de companheiros (vivos ou desencarnados), como, por exemplo, o próprio Chico Xavier, com quem manteve sólida e duradoura amizade, além de ter escrito, com o médium de Uberaba, algumas obras bastante interessantes do ponto de vista da análise criteriosa das comunicações mediúnicas. Crítico mordaz e irreverente, do movimento espírita e do catolicismo, com quem debateu a vida quase toda, nunca deixou de lado o bom humor e a bem-querência no trato interpessoal. Um exemplo, também por isso.

Homem múltiplo, na definição de seu biógrafo e amigo Jorge Rizzini (recém-desencarnado), conseguiu conciliar a trajetória espírita com atividades profissionais no âmbito do magistério, da filosofia, da parapsicologia, do jornalismo e do sindicalismo, foi servidor público (Banco do Brasil), além de ter atuado na esfera político-governamental, por diversas vezes. Participou do Governo Jânio Quadros, em São Paulo e chegou a colaborar na (meteórica e polêmica) gestão deste político à frente da Presidência da República, como chefe do subgabinete da Casa Civil (1961).

Produzia tanto e com inegável e inigualável qualidade, que, a seu respeito, dizia sofrer de grafomania, pois escrevia dia e noite. Publicou em torno de 85 livros (dos quais 62, espíritas) e mais de 15 mil laudas, sobre as mais variadas temáticas (Filosofia, Ensaios, Histórias, Psicologia, Parapsicologia e Espiritismo).

Conferencista ardoroso, com uma prodigiosa memória quanto às citações das obras fundamentais em suas exposições, foi, ainda, escritor e articulista de mão cheia. Nunca, entretanto, esteve de braços dados com a Federação Espírita Brasileira, talvez porque a contundência de suas manifestações não fosse o perfil desejado pelos dirigentes da Casa-Máter (sob os auspícios do dito Anjo Ismael) e porque Herculano nunca aceitou, antes deixou sempre consignada a sua divergência com a federativa pela adoção de princípios e teses roustenistas naquela Casa e pela insistência na edição de “Os quatro Evangelhos”, obra do advogado francês contemporâneo de Kardec, Jean-Baptiste Roustaing.

Mesmo assim, Herculano mereceu, da parte de muitos, o status de “Kardec brasileiro”, de reconhecimento aos inúmeros serviços prestados à Doutrina Espírita tendo, entre seus livros, aquele que foi democraticamente escolhido em processo de consulta, “O espírito e o tempo” como o “livro espírita do século XX”, ao lado de “O problema do ser do destino e da dor”, do pensador francês León Denis. Esta obra herculanista, que recomendamos a leitura e o estudo, é um verdadeiro Tratado Antropológico do Espiritismo, base para a consideração da Mediunidade como base cultural da História da Humanidade.

Jornalista, colaborou com periódicos (jornais, revistas e boletins) e dirigiu, durante seis anos o jornal Diário Paulista, tendo sido redator, secretário, cronista e crítico literário, alcançando a respeitável marca de dois mil artigos em 12 periódicos.

Pedagogo e Educador, foi responsável, através de várias iniciativas, pela difusão da Educação Espírita como cadeira pedagógica, sendo o primeiro daqueles que propugnaram pela existência de Faculdades Espíritas. Editou e lançou (1970) a revista “Educação Espírita”, construída sobre o paradigma “o educando é um espírito encarnado”, lamentavelmente de curta duração, pela falta de apoio e o desinteresse dos espíritas e a dificuldade, inclusive, de participação dos pedagogos espíritas, sem interesse em produzir artigos e matérias para o periódico. Isto fez com que Herculano adotasse quase uma dezena de pseudônimos – muitos dos quais conhecidos até hoje, em razão de incursões do professor em órgãos noticiosos, assinando como tal – dos quais o mais famoso era Irmão Saulo.

Herculano foi, sem dúvida, um cientista espírita, daqueles que arregaçam as mangas e se debruçam, ávida e responsavelmente, sobre os fenômenos espíritas, buscando-lhes a robustez de sustentação, na aplicação do método e da metodologia próprios e naturalmente adequados, por meio da sintaxe da exposição objetiva de fatos e argumentos e da semântica do desenvolvimento lógico e racional. Defendeu, veementemente, a permanente aproximação da Ciência Espírita com as ciências humanas, mas com uma fraternal advertência: “Todos sonham com o momento em que a Ciência deverá proclamar a realidade do espírito. Mas essa proclamação jamais será feita, se a Ciência Espírita não atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura, a visão materialista do mundo e a concepção materialista do homem” (no artigo “Uma tomada de consciência”).

De sua existência física, vivida intensamente, sobressaem os caracteres de seu Espírito imortal: profundidade e coragem, sobretudo para a edificação de pontes permanentes e sólidas entre o conhecimento espírita e as vertentes da cultura contemporânea.

Curioso é que as mesmas superstições que eram consideradas por Herculano, jovem, como impeditivas a que ele se interessasse pela Doutrina Espírita, muitas vezes, figuram presentes nos dias de hoje, em face de tanta acomodação e desinteresse dos espíritas pelo estudo, abrindo campo propício às adulterações, inserções de teorias e práticas esdrúxulas, além, é claro, da perigosa e prejudicial visão personalista daqueles que insistem em “interpretar” a seu talante as questões da vida, dispostos a encontrar e a proferir “soluções milagrosas” para os problemas existenciais. Nunca tivemos profusão tão grande de obras ditas espíritas, mas que não guardam a menor sintonia com os princípios genuinamente kardequianos, do mesmo modo que a regra de aprovação de mensagens “ditas” espirituais, foi completamente abandonada por instituições e editoras, seja por comodismo, por não desejarem causar melindres ou, até, seduzidas pelos lucros das vendagens de obras que “encantam” pela fantasia e misticismo.

Religioso, por tradição, formação e excelência, Pires sempre alertou os adeptos espiritistas do risco que o igrejismo salvacionista, o fanatismo e a mitificação (idolatria de guias, médiuns e/ou dirigentes) poderiam causar à proposta libertária do Espiritismo. Tanto é que, veementemente, pontua: “Os beatos das religiões dogmáticas trocaram de pele, mas não perderam suas manhas. Substituíram os ritos católicos pelos passes e preces, a água benta pela água fluídica e os rosários de repetições medrosas pelos colares de contas de ifá, na magia primitiva das religiões mágicas da selva, negras e indígenas” (em “O mistério do ser ante a dor e a morte”).

Herculano, se vivo estivesse, com certeza estaria à tribuna e à pena jornalística, desafiando tal qual Dom Quixote, elegantemente, aqueles a quem chamava de “detratores do Espiritismo”, para que se explicassem e se posicionassem “fora” do espectro espiritista. Não havia meio termo ou meias palavras, para o filósofo, ainda que, neste sentido, não fosse necessário, a ele, atuar com grosseria, aos berros e sem caridade. Nada mais o deixava tão profundamente irritado, perplexo e receoso do que a adesão dos pretensos espíritas às novidades “de ocasião”. E elas, as novidades, continuam por aí, a atrair aqueles que não têm, para com a Doutrina Espírita, o mínimo compromisso com o estudo, a prática e o raciocínio lógico aplicado, nem, tampouco, com a universalidade dos ensinos espíritas, critério inafastável de Kardec. Era o “zelador do Espiritismo”.

Herculano nos provoca a doce e agradável saudade, sempre que o revisitamos em cada leitura, sempre que republicamos um texto ou uma citação de artigo ou livro, nas redes sociais e neste nosso Portal ECK, assim como quando escrevemos sobre algum tema, com inspiração naquilo que ele ensinou. Todos representativos do sinal e expressão de alerta àqueles que desejam um Espiritismo plural, permanente, alteritário e produtor das grandes transformações evolutivas (individuais e coletivas). Este é o maior legado que ele nos deixou, um talento que devemos fazer multiplicar, como recomendou aquele Carpinteiro de Nazaré.

Ler e estudar Herculano e, sobretudo, entendê-lo e aplicá-lo no cotidiano de nossas instituições e no seio de nosso movimento, é o maior sinal de que as sementes que ele lançou vicejaram e já produzem frutos, a cem por um.

Esteja sempre conosco, nos inspirando, Professor!

 

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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11 thoughts on “Para lembrar Herculano Pires, por Marcelo Henrique

  1. Excelente artigo, que retrata com carinho fidelidade, e de maneira bem completa, a figura e o trabalho do grande e saudoso Herculano Pires. Que falta enorme ele faz hoje ao movimento espírita!

  2. Olá, Rita!
    Muito importante seu comentário, me fez pensar e muito sobre o preconceito ao culto africano e aos povos originários.
    No primeiro momento, tive o mesmo sentimento seu, um preconceito, mas refletindo um pouco, ou mesmo pouquíssimo melhor, será que Herculano não quis trazer, tão apenas, o simbolismo desses cultos africanos e originários que necessitam de rituais, de magia, que por acaso sou apreciadora, dentro da espiritualidade kardecista que se baseia na ciência, na filosofia, que tem por base a racionalidade, a realidade, que com a evolução, o conhecimento, não mais necessitam desses aparadores?
    As religiões em seus cultos necessitam desses aparadores como instrumento de poder psicológico para a adaptação e domínio, ou seja, será que Herculano não pretendeu mostrar o que diferencia a filosofia e a ciência espírita embasada no conhecimento com as religiões que com seus dogmas e simbolismo levam a uma crença com pouco discernimento de pensamento ao não permitir o contraditório, sob pena do cisma, como estamos a fazer aqui.
    O ECK propõe essa liberdade de conhecer, avaliar e questionar nos moldes do professor Rivaiil e Herculano.
    Uma frase tirada de um contexto pode ter mil significados, mas para nós o mais importante é que possamos opinar, nas opiniões formamos ideias, que nos levam e sempre a um patamar acima no conhecimento, por tudo isso lhe agradeço, Rita, vc me fez pensar, grata.

  3. Sra Rita,
    Acompanhe o ECK. Se a senhora procura algo coerente, aqui encontrará. E apesar da impressão que vc ficou nessa leitura, lhe asseguro, aqui há o maior respeito com outras expressões da espiritualidade, em um pensamento plural e humanista. Navegue e verá!

    1. Oi, Marcus.
      Não fiquei com tal impressão, acredite. Seria uma postura não condizente com a proposta de vocês.
      Meu comentário foi em relação às palavras dele. Mas, compreendo a razão d eele ter falado assim. Para nós, hoje em dia, é fácil criticar, tendo em vista as informações que temos, o que não acontecia na época dele – e era mesmo comum.
      Mas, como eu disse, os tempos mudaram.
      Grata por responder.

  4. Olá,
    Acabei de conhecer o blog e estava gostando demais da leitura ..Sempre quis saber mais sobre Herculano Pires. Mas a escolha dessas palavras para citá-lo não foi feliz, não ajuda muito não “rosários de repetições medrosas pelos colares de contas de ifá, na magia primitiva das religiões mágicas da selva, negras e indígenas
    Elas são muito questionáveis, pois vêm eivadas de preconceitos. Essa é exatamente uma postura da qual precisamos nos desfazer, se ainda as tivermos: preconceito religioso, preconceito em relação aos povos originários, às religiões de matriz africana. Trazem a ideia de que o cristão, o Espiritismo são superiores
    Enfim, vou procurar conhecê-lo melhor, afinal, os tempos são outros, agora.

    1. Olá, Rita, seja bem vinda ao ECK!
      Não somos, cara amiga, um “blog”. Somos um Portal – e como o próprio nome o diz, abrimos as consciências para o NOVO, para a TRANSCENDÊNCIA.
      Herculano Pires (1914-1979) é o nosso principal inspirador, pela relação direta (mediunicamente) que temos com ele. Eu, particularmente, desde 1982, quando tive minha primeira “conversa”, espiritualmente falando, com ele em uma reunião espírita. De lá para cá, são 46 (quarenta e seis) anos de CONVÍVIO DIÁRIO. Herculano é, sim, o PRINCIPAL RESPONSÁVEL (espiritualmente falando) pela EXISTÊNCIA DO ECK. E sempre destacamos isso.
      Com relação à citação – que te “incomoda” – devemos CONTEXTUALIZÁ-LA, inclusive para não perder o SIGNIFICADO que o Professor paulista intentou explicitar e explicar naqueles “duros” momentos, entre as décadas de 1950 e 1970, ou seja, praticamente a sessenta ou setenta anos atrás.
      Havia, sim, naquele quadrante temporal, uma “mistura” bastante problemática entre a proposta espírita e outras correntes e expressões da religiosidade – TODAS respeitáveis – mas que causaram problemas como a interdição de instituições espíritas por força policial – lembremos da época dos “anos de chumbo”, ou seja, a DITADURA MILITAR que impôs tantos prejuízos a pessoas e coletividades.
      Hoje, no entanto, – e o ECK é prova inconteste disto – não enfrentamos embargos quanto à manifestação da ESPIRITUALIDADE. O ECK, assim, é um “habitat” para a confluência das manifestações espirituais de TODA ORDEM, as de matiz africana, indígena e de outras culturas, todas PROPÍCIAS e necessárias.
      Fica, então, o convite para você “navegar” no nosso Portal, e conhecer a nossa FILOSOFIA INCLUSIVA, ÉTICA e PLURAL!
      Forte abraço,

      Marcelo Henrique – Coordenador-Geral do ECK.

      1. Oi, Marcelo.
        Grata por esclarecer sobre o portal – não sou boa com esses termos de internet.
        Expliquei ao Marcus, no comentário dele, o que penso ser a causa da fala do professor Herculano.
        E, claro, não será uma frase isolada que irá me afastar desses conteúdos interessantes – conteúdos que, talvez, possam voltar a me deixar interessada pelo Espiritismo, como fui desde muito tempo.
        Rita

        1. Olá, Rita, ficamos felizes com a continuidade dos diálogos, aqui. Gostaríamos de conhecer um pouco mais sobre você, sua trajetória e o que você pensa sobre alguns temas conexos ao deste artigo. Vou deixar, logo abaixo, o nosso contato (ECK), aguardando uma mensagem sua. Muito obrigado!

          contato@comkardec.net.br

          1. Oi, Marcelo.
            Será um prazer continuar o diálogo! Farei contato assim que possível.
            Grata!
            Rita