Marcelo Henrique e Marcus Braga
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Será que voltamos ao Deus de Moisés, o do Velho Testamento, o do Deus Punitivo, que dá uma rasteira em Yeshua (Jesus de Nazaré) e dá um drible em Kardec?
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Preliminares Históricas
Nos idos da década de 1990 ouvia-se muito falar na cidade do Rio de Janeiro das atividades desenvolvidas pelos Grupos Leôncio de Albuquerque (Niterói) e Amelie Boudet (Rio de Janeiro) que, em sede de prática assistencial, compreendia a visita aos presídios daquela cidade, em conversações com os apenados, com o intuito de, segundo entendiam, oferecer-lhes conforto, consolo e esclarecimento espiritual (à moda religiosa espírita). O referido trabalho perdura até hoje [1].
Este projeto, conforme ouvimos em reuniões de entidades federativas no Conselho Federativo Nacional (CFN), da Federação Espírita Brasileira (FEB) é reproduzido em muitas outras capitais e alguma cidades do interior dos Estados, em que há presídios [2]. Neste sentido, não há ineditismo algum, em relação à “religião espírita”, posto que profitentes e membros de outras igrejas e seitas também recebem autorização das direções dos estabelecimentos desta natureza, para conversarem com os presos – sobretudo os de menor potencial ofensivo, isto é, aqueles que não signifiquem qualquer ameaça à integridade dos visitantes.
Vale dizer, neste contexto, que não se trata de nenhum juízo de valor, nosso, mas uma “classificação” que é definida pelas próprias autoridades, em relação tanto ao comportamento dos presos nos presídios quanto em relação à natureza dos crimes por eles cometidos, os quais levaram, como se depreende, ao cumprimento das medidas socioeducativas de privação de liberdade.
Os espíritas e os criminosos
Devemos enaltecer a motivação daqueles que reservam parte do seu tempo semanal para se dedicarem a uma atividade de difusão doutrinária e de assistência social-espiritual a um segmento de nossa sociedade, a população carcerária, atualmente na faixa de 940 mil brasileiros – a terceira maior do mundo em números absolutos [3]. E isto se revela mais surpreendente porque, em linhas gerais, os presidiários simbolizam um “nicho” que figura como um grupo invisibilizado em relação à imensa maioria dos espíritas (acima de 90% – noventa por cento, estimadamente). Ou seja, os espíritas em geral, fazendo Espiritismo, nem se dão conta ou se preocupam com os indivíduos que cometeram crimes e estão, conforme a legislação e o Poder Judiciário, “pagando” o que fizeram por meio das penas a eles determinadas. Ficamos lembrando, então, do “estive preso e me visitastes”, atribuído a Yeshua. Onde foi parar?
Para além da atuação dos abnegados do Leôncio de Albuquerque e do Amelie Boudet, as questões dessa natureza, figuram diretamente em “O livro dos Espíritos”, especificamente na Lei de Destruição, mas, também, na Lei de Sociedade. Isto porque a convivência social deve ser pacífica e harmônica e a delinquência representa, no uso do livre arbítrio, a opção pelo erro, pelo “mal”, na senda criminosa, no que recebem, os indivíduos que assim agem, o tratamento policial e judicial necessário e correspondente, retirando tais pessoas do convívio social e impondo-lhes o cumprimento de penas privativas de liberdade, para sua reeducação (pelo menos em tese) e recuperação para o retorno à sociedade.
O meio espírita federado, sua tônica e a principiologia espiritista
Cumpre lembrar que, em 1993, a Federação Espírita Brasileira (FEB) iniciou a “Campanha em Defesa da Vida” [4], já longeva, com um posicionamento claro sobre o combate às diferentes ações humanas que provocassem a morte (físico-material): aborto, eutanásia, pena de morte e suicídio. Devemos dizer que, pedagogicamente, os “slogans” da campanha – que tinha o NÃO à frente de cada tema – merecem a crítica construtiva da nossa parte. Ao invés de fixar na mensagem NEGATIVA, o melhor seria utilizar a linguagem POSITIVA, com o SIM À VIDA. Mais presentemente, a referida campanha substituiu o tema “pena de morte” (até porque nosso país jamais teve, no arcabouço jurídico a sua previsão, apesar dela existir, como sanção penal em outros países, contemporaneamente), por violência e (uso de) drogas. Um curioso aggiornamento [5].
Principiologicamente, a Doutrina dos Espíritos é flagrantemente contrária a qualquer tipo de violência. Na Conclusão, Item IX, de “O livro dos Espíritos”, Santo Agostinho (Espírito), assim afirma (Kardec, 2004:351, grifamos):
“Durante muito tempo, os homens se estraçalharam e se anatematizaram em nome de um Deus de paz e misericórdia, ofendendo-o com tal sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os unirá um dia porque lhes mostrará onde está a verdade e onde está o erro. Mas, ainda por muito tempo haverá escribas e fariseus que o negarão, como negaram o Cristo. Quereis, pois, saber sob a influência de quais Espíritos estão as diversas seitas que dividem o mundo? Julgai-as pelas suas obras e pelos seus princípios. Jamais os bons Espíritos foram instigadores do mal; jamais aconselharam ou legitimaram o homicídio e a violência; jamais excitaram os ódios dos partidos, nem a sede de riquezas e de honras, nem a avidez dos bens da Terra. Só aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos, são os seus preferidos e são, também, os preferidos de Jesus, porque seguem a rota indicada para levar a ele”.
Há que se considerar que o Espírito, em suas vivências encarnatórias – e a vida na Terra o demonstra cabalmente – constrói sua própria trajetória de progresso, experimentando situações relacionada ao bem e ao mal. Kardec (2021:71-72, destacamos), assim consagra:
“O progresso dos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho. Como são livres, no entanto, trabalham para o seu adiantamento com mais ou menos afinco ou negligência, conforme sua vontade, assim apressando ou retardando seu progresso e, por consequência, sua felicidade.
[…]
A encarnação é necessária a ambos os tipos de progresso do Espírito, o moral e o intelectual. Ao progresso intelectual, por conta da atividade que é obrigado a desenvolver no trabalho, e ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida em sociedade é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia – numa palavra, tudo o que caracteriza o homem bom ou o homem mau – têm como motivação, objetivo e sustento as relações do homem com seus semelhantes”.
Flagrante, pois, a necessidade da vida social e a interrelação entre os indivíduos, superando animosidades e divergências e, acima de tudo, respeitando-se mutuamente. Eis o porquê do Espiritismo se posicionar a favor da liberdade do Espírito e contrariamente a qualquer tipo de violência, em qualquer situação e sob qualquer argumento ou justificativa.
O contexto chamado espírita está fundamentado no conteúdo da obra kardeciana – que principia com “O livro dos Espíritos” – e se materializa em ações como o seu estudo sistemático, a atuação de grupos e instituições espíritas (em que se destaca, como carro-chefe, a realização de palestras) e o necessário debate pelos meios de comunicação (imprensa), além da publicação de muitas obras “ditas” espíritas (que contribuíram, claro, com a chamada “popularização” do Espiritismo [6].
As arenas sociais virtuais e o retrato do Censo 2022: e agora, espíritas?
Mais recentemente, nestas três últimas décadas, com a chamada “internet espírita” [7], por conta de um conjunto de influências ideológicas, sociopolíticas, culturais e, também, religiosas, o discurso espírita tradicional (o mainstream espírita) foi se apequenando, sofrendo preocupantes mutações e conformando em seu interior (como se doutrinários fossem!) temas relacionados à criminologia e à questão carcerária. Discursos violentos, toscos, rasteiros, com uma verborragia de vingança e atinente ao “fazer justiça com as próprias mãos”, totalmente dissociados do “Evangelho Espírita” – leia-se da Moral e da Ética Espíritas –, promoveram o completo afastamento do cenário das instituições e grupos do Jesus da primeira pedra, do Kardec da pena de morte e do Agostinho do autoexame consciencial diário [8] e, lamentavelmente, aproximaram-se do vetusto e superado Deus Mosaico do “olho por olho e dente por dente”.
Como demonstra o próprio Censo 2022, sob a extensão de um movimento predominante de classe média, branco, com escolaridade superior (Loschi, 2025), a tônica do “discurso espírita” passou a ser constantemente abastecida pelo medo urbano de estar diante de delinquentes e sofrer ameaças e lesões, à sua saúde e à dos seus mais caros, assim como de seu patrimônio. Esta permanente sensação de insegurança, amparada em sucessivas afirmações motivadas por determinadas ideologias político-partidárias fez reacender o (então sepultado) debate acerca da radicalização da Justiça e do estabelecimento de penas mais severas, inclusive por meio de castigos ou punições físicas e, até, pasmem, a pena de morte!
A conclusão é óbvia e acompanha, com precisão o que as Inteligências Invisíveis já teriam vaticinado acerca do “homem médio” (planetário, claro, mas notadamente presente em nosso país, hodiernamente). O contexto é o da pergunta de Kardec (2004:308), acerca da razão de, no nosso mundo, da maior influência ser a dos homens maus, ao contrário dos bons. E a resposta daqueles foi: “Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância” (Item 932, de “O livro dos Espíritos”, tratando das “Penas e Gozos Terrenos”).
Prevalecendo os maus sobre os bons, qual o discurso-padrão? Quem assume o protagonismo? Que tipo de debates passam a ocupar a “pauta espírita”? E, nas ambiências espíritas quem sobressai e prevalece?
Então, uma pauta que era legítima e tradicionalmente nossa (verdadeiros espíritas, indivíduos sensatos, mulheres e homens de bem) vai desaparecendo, pouco a pouco. Entre lacunas, meias palavras e jogos interpretativos, essa agenda (estruturada sobre a transformação moral dos humanos como premissa fundamental) foi se transmudando. Os bons, tímidos, na real e exata leitura das Inteligências Invisíveis, têm suas falas engolidas pelos intrigantes e audaciosos maus. E que não se venha com qualquer discurso à moda viralatista, do tipo “ninguém é bom; todos somos inferiores” ou outro, congênere, de que “devemos exercer o perdão em relação aos outros” (sendo esse perdão incondicional, e que leva à aceitação tácita e sem oposição dos maiores absurdos, inclusive os ditos em reuniões e atividades espíritas).
Pesquisa sobre o Punitivismo
Não sem surpresa, assim, neste início de 2026, uma pesquisa de um veículo midiático sobre o punitivismo [9] foi divulgada com uma alarmante chamada: “maioria dos brasileiros aceita punir até inocente”, encartada, segundo o órgão responsável pelo estudo, dentro da sociedade brasileira que “vive uma tensão profunda entre o desejo de ordem absoluta e os princípios éticos da justiça” (ICL, 2026). O levantamento apresenta uma série de aspectos que ratificam essa lamentável tendência entre os brasileiros e, no que se refere ao meio espírita, que acompanha – mas não deveria, em função da própria fundamentação ética da Filosofia Espírita – o ideário que aponta para uma maior severidade no trato dos criminosos, sobretudo ancorado na deplorável expressão que é símbolo da extrema-direita brasileira: “bandido bom é bandido morto”!
Em outras palavras, segundo a pesquisa, grande parte dos espíritas também “segue” o bordão acima, praticamente legitimando a prática da pena de morte a ser executada, não pelos instrumentos judiciais cabíveis (já que nosso Código Penal Brasileiro não adota essa tipologia de execução criminal), mas por policiais no combate à criminalidade e, até, por cidadãos com porte de arma, em defesa própria, de suas famílias, amigos, vizinhos e na defesa de seu patrimônio.
A partir do levantamento em tela, efetuamos a análise dos dados da pesquisa com ajuda da Inteligência Artificial (Gemini IA), para apresentar alguns dados que são, também, úteis para a apresentação das teses que esposamos neste ensaio. Vale dizer que, mesmo tendo sido apresentados, na amostra colhida na pesquisa, os espíritas como menos punitivistas, em números absolutos, alguns elementos nos inspiram importantes reflexões. Vamos a eles:
1) Diante de um cenário real com nove culpados e um inocente, 51% (cinquenta e um por cento) dos espíritas acreditam que é melhor absolver todos do que condenar um inocente. Esse índice é superior à média geral de 42% (quarenta e dois por cento) e ao índice de católicos, de 41% (quarenta e um por cento) e de evangélicos, da ordem de 38% (trinta e oito por cento);
2) Sobre a pena de morte, especificamente, 62% dos espíritas prefeririam não executar ninguém para evitar o risco de matar um inocente; para os católicos o percentual é de 51% (cinquenta e um por cento); e, para os evangélicos é de 49% (quarenta e nove por cento); e,
3) Apenas 12% (doze por cento) dos espíritas aceitariam “executar as 10 [pessoas] para garantir a punição das 9”, o menor índice entre as três religiões mencionadas – comparado a 21% (vinte e um por cento) entre evangélicos e 17% (dezessete por cento) entre católicos.
Vejamos algumas conclusões:
A) Para quase a metade dos espíritas ouvidos, não importaria a condenação de um inocente;
B) Um contingente de 38% (trinta e oito por cento) de espiritistas concordou na execução de criminosos (pena de morte); e,
C) Embora seja um número bem pequeno, causa espanto o quantitativo dos espíritas concorde com a possibilidade de execução de uma pessoa inocente (isto é, aquela que fosse condenada e depois se descobrisse que ela não teria qualquer ligação com o delito; nessa situação, o erro judiciário não poderia ser reparado, sob qualquer hipótese).
Voltamos, pois, ao Deus de Moisés, o do Velho Testamento, o do Deus Punitivo, que dá uma rasteira em Yeshua (Jesus de Nazaré) e dá um drible em Kardec. Isto sem a necessidade de chamar o VAR! Como diria aquele velho comentarista de arbitragem do futebol brasileiro profissional: “A regra é clara”!
Os espíritas, assim, em número significativo – que pode ser até maior na sua cidade ou região, em face dos adeptos e simpatizantes que você conheça ou frequente grupos e instituições de que você participe – com uma só “jogada”, escanteiam Kardec (logo ele, o fundador do Espiritismo), assim como Yeshua (aquele que, flagrantemente, influencia, por seus ditos e feitos, a Moral Espírita ou a Ética Espírita), para dar prestígio ao superado legislador hebreu. Numa só “tacada”, de sinuca ou bilhar, livram-se da fé raciocinada, do amor e da fé que movem montanhas, para adotar a fé cega que se consubstancia no asco a irmãos que cometeram erros (maiores, é claro, que os nossos, tanto que respondem criminal ou judicialmente e são condenados), a ponto de “defenderem” a pena capital, com execução dos criminosos – sem falar nos discursos bem comuns, no ambiente inflamado das redes sociais, de aplicação de maus tratos e castigos severos!
Onde vamos parar, senhoras e senhores?
Como dito acima, em uma comparação com outras denominações religiosas – sim, porque não podemos fugir da questão religiosa e do fato de que, como a própria pesquisa consagra, os ouvidos foram catalogados como religiosos, condição, aliás, que é majoritária entre os espiritistas brasileiros –, figuramos melhor posicionados no que se refere ao punitivismo, mas existe uma faixa estatística, nas três perguntas, que oscila entre 12% e 49% (doze e quarenta e nove por cento), demonstrados nos tens “1” e “3”, antes apresentados.
O retrato dos espíritas e a distância em relação à Filosofia Espírita
Esta é, flagrantemente, a diagnose do contingente de pessoas que “gabarita” a receita do Deus de Moisés e que se declara espírita. Pode-se dizer, então, que não seja um percentual desprezível, uma vez que, na gênese da Filosofia Espírita figura presente o rechaço espiritual à pena de morte. Nesse sentido, é sempre bom recordar os elementos de “O livro dos Espíritos”, no verbete “Pena de Morte”, Tópico VII, do Capítulo VI, ao tratar da Lei de Destruição (itens 760 a 765):
- a) Generalizadamente, “Somente as leis divinas são eternas. As leis humanas modificam-se com o progresso” para que sejam colocadas, estas, “em harmonia com as leis divinas” (Kardec, 2004:257);
- b) No curso histórico da Humanidade neste planeta, a pena de morte foi considerada, pelo homem “necessária quando não encontra nada melhor” e tal instrumento lhe pareceu “justo numa época”, e passando a ser “bárbaro em outra”. Ela desaparecerá das legislações e sistemas judiciais, “quando os homens forem esclarecidos” (Kardec, 2004:256-257);
- c) A pueril justificativa de autoproteção para matar um delinquente é totalmente infundada, havendo outros meios e sendo necessário “abrir ao criminoso e não fechar a porta do arrependimento” (Kardec, 2004:256);
- d) Existe um mecanismo universal de justiça – que, na visão cristão-espírita é atribuída a Deus [10] [11] – aplicado a todos os Espíritos, indistintamente, que corresponde, segundo as Inteligências Invisíveis, à exata acepção da “Lei de Talião”, conforme a célebre expressão do Antigo Testamento, “olho por olho e dente por dente”(Ex; 21-24) [12], não aquela tomada e executada pelos humanos, mas a que decorre dos princípios universais de justiça, consagrados na pedagogia de Yeshua como dar (aplicar) “a cada um segundo suas obras” [13] (Mt; 16:27), conforme Almeida (2026).
Vale salientar, ainda, que a temática da pena capital foi tratada tanto por Kardec quanto pelas Inteligências Invisíveis em outras obras de sua lavra e, também, em fascículos da “Revue Spirite” [14], cuja leitura atenta e estudo sistêmico recomendamos.
Conclusão
Como o ponto de partida para este ensaio foi, de fato, a publicação da pesquisa que detalhamos, acima, cumpre destacar que apesar de se tratar de uma instituição declaradamente progressista, a pesquisa em se e os seus resultados, depõem, a priori, contra essa visão de mundo. Porque evidenciam o comportamento massivo dos brasileiros dentro do conservadorismo que é a tônica de muitos brasileiros e que se reflete, também, nos poderes constituídos, principalmente o Poder Legislativo (Federal, Estadual e Municipal) e o Poder Judiciário (sobretudo em muitos dos componentes dos tribunais inferiores).
Mas, mesmo sendo o retrato temporal de nossa população, ele serve para abrirmos os olhos para diversificadas questões e, principalmente, continuarmos o trabalho de esclarecimento – no nosso caso, mais particularmente, do próprio segmento espírita – para demonstrar a distância entre os discursos vigentes e a principiologia espiritista.
É preciso demonstrar essa profunda incoerência dos espíritas (ou de parte deles), que compactuam com a visão da solução da criminalidade e da violência por meio do extermínio de indivíduos, abreviando a experiência da encarnação (que, sabidamente, pela fundamentação espiritista, é expiacional, provacional e missionária para todos – repetimos TODOS, sem exceções!). A pena de morte, seja pela adoção de uma formalidade jurídico-legal e judicial-processual, como pela triste e hedionda realidade dos linchamentos (Braga, 2014).
Falando em linchamento, presente no cotidiano, os tempos recentes indicam uma ascensão de campanhas pela adoção do instituto da pena de morte, justamente pelo desejo de fazer justiça – inclusive diante da “morosidade” judicial, a qual ganha muito espaço nos periódicos e redes, mas acaba passando invisível nas letras e falas espíritas.
Tem-se, assim, aqui, ali e alhures, sobretudo diante de crimes bárbaros como os homicídios violentos – inclusive aqueles cometidos por motivo pueril ou torpe, os latrocínios e as chacinas – um reticente mantra de revolta permanente com a realidade do planeta no qual estamos encarnados e, em especial, diante da situação presente em médios e grandes centros urbanos brasileiros. Isto revela não só a presença maciça de ideias alienígenas permeando os atuais debates no meio espírita, assim como o recrudescimento do tradicional espírito humanista presente nas ambiências espíritas do século passado.
Vale dizer que tais discursos, vazios e inflamados, que ignoram os variados contextos e as especificidades de cada caso, com fórmulas prontas e acabadas e respostas únicas e uníssonas para todas as situações. Olvida-se que numerosas situações – mesmo aquelas que parecem similares – possuem a natureza complexa e não demandam soluções simples. Mas o que se vê, em regra, inclusive nas ambiências espiritistas, é um comportamento padronizado de indivíduos que agem “como juízes impiedosos diante dessas situações concretas, sem entender o seu contexto e as causas antecedentes”, posicionando-se, assim, com “uma crueldade atroz e [que] pouco contribui com a causa”, como já destacou Braga (2025) em outro artigo.
Apelam, tais indivíduos – e, ousamos dizer, até, me face da observação investigativa, grupos e instituições – para instintos imediatos e primitivos, próprios de um inquietante desespero e de um despropositado desejo de vindita que, triste e lamentavelmente, têm caracterizado a nossa época.
Um questionamento nos assola: – Devemos nos contentar com o terceiro lugar no ranking do punitivismo, ao nos compararmos com as outras denominações presentes na pesquisa? Isto é, para nós, motivo de orgulho? Devemos comemorar isto? Ou não devemos nos preocupar que tais significativos percentuais indicam que há algo que pode estar crescendo? Porque seguimos nos preocupando, como espíritas e como membros de distintas comunidades, quando vemos algumas falas e escritos que corroboram essas posturas, inclusive aquelas que, sediadas em debates espiritistas, são dotadas de malabarismos doutrinários para a justificação de quaisquer ações violentas de extermínio.
Não há dúvida de que os que assim agem seguem deturpando a essência do Espiritismo e permanecem muito distantes da verdadeira mensagem de Yeshua, inspiradora da Filosofia Espírita.
Notas dos Autores:
[1] A descrição do trabalho em questão pode ser acessada no site do Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro, conforme a referência abaixo.
[2] Marcelo Henrique, por dezessete anos seguidos, frequentou o CFN da FEB, na qualidade de representante da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade), entidade que tinha assento (voz e voto) no referido conselho, como ente espírita especializado de âmbito nacional, conforme o Estatuto da federativa brasileira.
[3] Estes números são apresentados em um levantamento subscrito pela Secretaria Nacional de Políticas Penais do Ministério da Justiça e Segurança Pública do Governo Federal, conforme pode ser acessado no “link”, abaixo, em “Fontes”.
[4] Em termos históricos, a campanha foi lançada em 5 de setembro de 1993 (SEIR, 2026). A FEB mantém, em sua webpage, a referência permanente à campanha, inclusive com material promocional para ser utilizado por grupos e instituições espíritas (vide referência em “Fontes”).
[5] Esta expressão italiana (derivada de outro termo latino “giorno”, que é dia) – que foi, inclusive, tema do Concílio Vaticano II, da Igreja Católica (1962-1965), na condução do Papa João XXIII, representando uma renovação do Catolicismo – tem uma interpretação mais ampla, para diferentes contextos, simbolizando a atualização, a modernização e a renovação de conceitos, teorias e práticas.
[6] Abordamos essa popularização em outro artigo, bem recente (Braga; Henrique, 2026): “Assim também ocorreu com o meio espirita, cuja popularização a nível nacional ocorreu na década de 1970, com o emblemático Programa “Pinga Fogo”, que contou, em dois programas, com recordes de audiência para a televisão da época, com a presença do médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier. O programa motivou reportagens em revistas nacionais, como “Realidade” e “Cruzeiro”, dois dos mais importantes periódicos culturais daquele momento, além de um elenco de ações de divulgação não-comercial na imprensa e em outros programas televisivos”.
[7] A contextualização da chamada “internet espírita”, foi feita pelos autores deste artigo, no Portal ECK (Braga; Henrique, 2025). Veja a referência completa, abaixo. Neste “nicho”, importantíssimo, e que permite o acesso simultâneo e sem limites para todos os interessados, de qualquer parte do planeta, algumas premissas são fundamentais. É o que dizem os autores: “Porque acreditamos – inclusive a partir deste nosso Portal ECK – que há muito o que contribuir para nos afastarmos da ideia de selva ou terra sem lei que a internet em geral – inclusive a “povoada” pelos espíritas – se converteu e se mantém. Porque duas são as premissas fundamentais: a primeira, a especialização e seletividade de conteúdo; a segunda, tão importante ou mais do que a primeira, é a ética da convivência, calcada naquele gesto real (e não virtual) do Magrão, amando aos outros como desejava que fosse por eles, amado!”.
[8] Escolhemos, dentre inúmeras passagens que poderiam ser enunciadas, esta em especial, assinada pelo vulto cristão, que concita à transformação constante a partir do olhar para si mesmo, no chamado balanço diário dos erros e dos acertos (“O livro dos Espíritos”, Cap. XII, “Perfeição Moral”, Item 919-a).
[9] A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), um ecossistema digital com jornalismo, pós-graduação, documentários, biblioteca, podcast e produtos próprios. Foi realizada pela Ágora Consultores, ouvindo quase dez mil pessoas de diferentes classes sociais (levantamento realizado entre 17 e 23 de novembro de 2025). A reportagem sobre os resultados da pesquisa, comentada neste artigo, está disponível no “link” abaixo informado, em “Fontes”.
[10] A ideia costumeira da Divindade como aplicador da Justiça Universal vem, no nosso caso, do Judaísmo (Antigo Testamento), primeiramente, e do Cristianismo (Novo Testamento). Em ambos, há a descrição de uma figura antropomorfizada e masculina (Deus). Na primeira menção feita por Kardec a ele, na primeira parte de “O livro dos Espíritas”, há o rompimento com essa “tradição”. Vide a própria resposta das Inteligências Invisíveis, ao questionamento “Que é Deus”, feito pelo Professor francês: “é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (Kardec, 2004:55). Todavia, depois, sobretudo em “O evangelho segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”, provavelmente sob a influência dos muitos textos psicografados, ele passa a enquadrar um Deus antropomorfizado, similar ao do Novo Testamento, distanciando-se da descrição contida na obra primeira.
[11] Alguns artigos no Portal ECK tratam desta questão, especificamente. Em “Ser um espírita autônomo”, Marcelo Henrique afirma: “Em Kardec – isto é, no conjunto das suas 32 obras – também vamos encontrar algumas destas afirmações, marcantemente em páginas assinadas por Espíritos Superiores, concebidas para contextualizar a incidência das Leis Espirituais ao existir humano e planetário, mas que resultam da interpretação (pessoal) daqueles Espíritos e, neste sentido, também se acham impregnados de conceitos das religiões – em especial, a Cristã – que materializa a ideia de um Deus antropomórfico. Então, nestes textos, há um Deus “controlador”, “fiscal” das condutas humanas, “presente”, “atuante” e “aplicador” das leis espirituais a indivíduos ou coletividades” (Henrique, 2021). No texto “Deidades, um ensaio”, Nelson Santos destaca (Santos, 2024): “Entendemos que sim, porque, apesar de toda a lucidez de Rivail – expressa, particularmente, no Capítulo I, de “O livro dos Espíritos” (OLE), o conceito sofreu interpolações a partir das sucessivas mensagens obtidas pela mediunidade, expressas, principalmente, em três obras kardecianas sucessivas (“O evangelho segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”, permanecendo com um marcante viés antropomórfico e, ainda, com uma visão masculinizada de gênero (masculino)”. Finalmente, Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique apontam: “E a divindade real, universal, onipresente figura apenas em seu formato antropomórfico, como o espelho das iniquidades humanas, ao invés de ser a magnanimidade de Pai-Mãe (Origem) que nos suporta em nossas dificuldades e nos infunde o (necessário) ânimo para continuar lutando”. (Rivé; Henrique, 2024). Vide as referências completas em “Fontes”.
[12] A expressão aparece na Bíblia, também, no Deuteronômio (19:21), no Levítico (24:20), no Êxodo (21:26), todos no Antigo Testamento. No Novo, aparece em Mateus (5:38).
[13] A expressão figura, no compêndio kardeciano em “O livro dos Espíritos”, Item 1009; em “O evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo XVI, Item 6; e, em “O Céu e o Inferno”, Primeira Parte, Capítulo III, Item 7, Capítulo IV, Item 8, Capítulo V, Item 4.
[14] Outras obras de Kardec em que aparece a pena de morte: “O que é o Espiritismo”, Capítulo I, Terceiro Diálogo (“O Padre”); e, “O Céu e o Inferno”, Primeira Parte, Capítulo V, Item 1 , considerando as obras fundamentais. E nos fascículos mensais da “Revue Spirite”: Janeiro de 1861 (“Contra o Espiritismo”); Junho de 1863 (“O futuro do Espiritismo”); Outubro de 1863 (“Da proibição de evocar os mortos”); Março de 1866 (“A lei humana”); Setembro de 1866 (“Os fenômenos apócrifos”); e, finalmente, Março de 1867 (“Exploração das ideias espíritas”).
Fontes:
Almeida, J. F. A. (2026). “Bíblia On Line”. Almeida Corrigida e Fiel. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Braga, M. (2014). As muitas faces da pena de morte. “Agenda Espírita Brasil”. 5. Jul. 2014. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Braga, M. (2025). A dor antecedente. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 3. Jul. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Braga, M.; Henrique, M. (2026). Entre cadeiras e vazios: ou o vazio de se ter cadeiras – uma reflexão sobre o fim da era dos grandes médiuns brasileiros. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 18. Jan. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Braga, M.; Henrique, M. Internet e espiritismo: três décadas de uma relação que merece discussão. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 10. Nov. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Brasil. (2026). “Governo Federal”. Presidência da República. Casa Civil. Decreto-Lei n. 1.848/1940. Código Penal Brasileiro. 3. Jan. 1941. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
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CEERJ. (2026). Trabalhos do Grupo Espírita Leôncio de Albuquerque (Niterói). “Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
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