Antônio Carlos Amorim
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Kardec precisou escolher termos e construções frasais para tornar compreensível o conteúdo espírita. Ele errou ou apenas se utilizou dos instrumentos disponíveis para dar cumprimento a seus objetivos?
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“¹ No princípio criou Deus os céus e a terra.
² E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
³ E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
⁴ E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. “ (Gênesis 1:1-4)
Epa, epa… Deus (que Deus?) criou céus e terra, uma terra sem forma, mas com abismo (?), e esse Deus se movia no escuro, e por isso precisou criar a luz? Que bagunça é essa?
Essa é apenas uma mitologia- entre tantas outras, de diversas culturas e povos- que pode ser interpretada de várias formas, até para adequar-se aos conceitos esposados atualmente pela ciência, com o modelo que preconiza o surgimento do universo conhecido, cerca de 13,8 bilhões de anos atrás, de uma expansão acelerada de uma ‘singularidade’ no chamado ‘Big Bang’ (aliás, modelo proposto por um sacerdote católico e físico belga Georges Lemaître em 1927). Da mesma forma que não temos como verificar a realidade sobre o surgimento desse Universo, pouco podemos dizer de seu criador, tão ‘distante’ de nossa compreensão que sobre ele (ou ela? Isso significa algo?) surgem mitologias as mais diversas, do guerreiro das tribos mais primitivas ao senhor dos céus nas culturas aparentemente mais avançadas.
E entre nós, espíritas, também há alguma confusão. Nosso professor Rivail/Kardec, ao escrever suas impagáveis obras, precisou escolher termos e construções frasais para tornar compreensível o conteúdo. Utilizou, repetidas vezes, que Deus impôs algo, que ele fez ou prefere, como se fosse apenas mais um dirigente terráqueo em nossos calcanhares, a vigiar cada ato e inscrevendo-os em um livro de contabilidade, para as cobranças futuras- ou podemos simplesmente entender que essas citações simplificam o texto, que seria ‘conforme a lei natural…’ e mais algumas palavras para dizer a mesma coisa? Até sobre a reencarnação e sua motivação nos temos entretido, se são compensações dos erros passados, se são para a evolução espiritual, ou se decorrem dessa evolução.
AK errou, ou apenas se utilizou dos instrumentos e linguagens disponíveis para dar cumprimento a seus objetivos? Enfim, a despeito de um conjunto harmonioso e até óbvio, apegamo-nos a detalhes aqui e ali para nos afirmarmos capazes de interpretar diferentemente dos demais, como se pudéssemos estabelecer uma determinada interpretação como absoluta, nós que ainda estamos a palmilhar os primeiros passos no entendimento da existência…
Entendo que se aproxima do chamado ‘ano novo’- é tudo ‘velho’, os dias continuam transcorrendo como todos os demais, nem é uma mudança de fato no clima (o solstício já passou), mas se fazem festas, tem alegrias, mas tem abusos também, acidentes, desentendimentos: que ano novo, cara pálida?
Para mim, uma certeza- a cada momento estamos construindo o próprio futuro, e colhemos o que plantamos. Então, plantar flores é bonito e romântico, mas sem arroz e feijão não sobrevivemos, do que concluo que sem trabalho sobre nós mesmos nada de progresso real, pois não há como avançar moralmente sem deixar para trás nossos ‘vacilos’, que ao menos no meu caso são muitos.
Um bom dia, sempre renovado, a todos!
Imagem de Felipe por Pixabay




