Laura, 98: para a eternidade!, por Debora Nogueira

Tempo de leitura: 3 minutos

Debora Nogueira

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O ECK presta homenagem a uma Grande Dama da Dramaturgia Brasileira. O Brasil, então, sente tua falta e ora por você, Laura! A cultura brasileira fica, sem dúvida, diminuída pela tua falta, embora rica pela tua história. Porque o nosso sentimento de saudade e respeito é resultante do seu trabalho e de sua entrega como atriz.

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Laura Cardoso se foi… Aos 98 anos, 80  anos de carreira  e incontáveis trabalhos no teatro, TV , cinema, possuía um amor profundo pela arte.  Passeava pelo humor e pelo drama, com a mesma desenvoltura. Ia de uma ponta à outra com a facilidade dos que se dedicam ao ofício.

A emoção brota em nossos olhos pela sua partida, mas seu legado é tão grande e tão profundo que nos emocionamos de muitas formas: pelo momento da despedida e por reviver sua história, seus personagens, as cenas profundas, o riso pela sua irreverência e a facilidade de nos fazer rir.

Certa vez, tive a sensação de estar muito perto dessa atriz tão admirável, ao assistir uma exposição sobre ela. Na ocasião, pude observar seus textos – todos marcados , rabiscados, meio amassados… Prova inconteste de que o texto de um artista está o  tempo todo em suas mãos. Isto porque o artista de teatro/cinema precisa ter, permanentemente, os olhos atentos para decorar o texto e entender seu personagem, ter o papel em mãos.  O papel, assim, deve estar sempre presente na vida de quem interpreta. Tanto o papel-personagem quanto o papel-texto, impresso, palpável. E isso é tão bom!

Hoje, com a partida de Laura, a emoção toma conta dos artistas, colegas de profissão, por causa da partida. Aliás, quando chega a hora da partida, nunca é fácil para os que ficam, pois, mesmo sendo um momento esperado, ninguém quer protagonizar  o mesmo… Mas, temos certeza de que ela foi em paz!

Certa feita, em um programa da TV Cultura, ela disse para o entrevistador, muito bem humorada, de que gostaria de morrer dormindo. Não sabemos, ao certo, se, agora, isso se deu exatamente como ela queria, mas certamente, em face de sua maturidade, a desencarnação deve ter ocorrido de modo  sereno. Particularmente, entendemos que o grande Zé Celso já deveria estar preparando uma festa para recebê-la: um cortejo com muita dança e muita música junto com tantos queridos que estão do “lado de lá”.

Pensamos, também, no legado de quem interpreta como algo sagrado, espiritualizado. É preciso ter as sensações e as percepções, para se entregar à dramaturgia, após tanto estudo e pesquisa.  Ser artista não é só decorar um texto. Há um processo longo, profundo e que exige muito estudo, concentração e entrega. Às vezes, interpretar tem algo muito próximo da mediunidade; não porque o personagem “incorpora” no ator ou na  atriz, mas pela responsabilidade de se ter os pés no chão, mas a cabeça nas nuvens: sem esquecer jamais de quem se é, o Espírito encarnado.

Será que Laura, ao deixar esse mundo, encontrou o maravilhoso Godot? Será que estará conversando com algum autor das peças que encenou?

Por vezes, dá uma imensa vontade de saber como são os teatros “do  lado de lá”. Como se dão os estudos, as pesquisas, os ensaios e as conversações. Porque a “embocadura” de quem foi atriz/ator segue como conduta e inspiração. Tenho certeza de que isso continua. E, quando do retorno, tenho a certeza de que será possível realizar aqui, depois, nesse nosso “mundinho” de encarnados, muita experimentação daquilo que foi iniciado na Erraticidade.

O Brasil, então, sente tua falta e ora por você, Laura! A cultura brasileira fica, sem dúvida, diminuída pela tua falta, embora rica pela tua história. Porque o nosso sentimento de saudade e respeito é resultante do seu trabalho e de sua entrega como atriz. Lembrando de suas performances, dos textos tão ricamente expostos, imaginei estar ao seu lado falando de todo o processo de construção do personagem. Tantos ensinamentos deixados para todos nós e, sobretudo, demonstrar que é possível envelhecer dignamente e ser feliz com a longevidade, trabalhando e dividindo o set, o palco com tantos companheiros.

Quero que os palcos da eternidade te recebam com amor!

Qual será, então, Laura o seu próximo projeto, numa vida futura? Que textos passarão, ainda, por tuas mãos? Um dia, quem sabe, farei a tua maquiagem e estaremos lado a lado na hora da estreia, naquele silêncio barulhento da coxia… O espiar pela cortina , com o público entrando… O terceiro sinal sonoro e as luzes se acendendo ou a cortina se abrindo… Laura estará no centro do palco e Paulo Autran lhe dará a mão. O espetáculo começa! Vou entrar na segunda cena, nervosa! E assim é. Boa estreia, mas eu  ainda fico por aqui , tenho muito p fazer…

Atuar é uma forma de resistência! Atuar é um ato revolucionário! Confortar o público, divertir e fazê-lo refletir. Quando saímos do teatro e repassamos o espetáculo na nossa cabeça, fixamos uma cena ou uma frase. E isto faz com que ninguém saia ileso.

Evoé Laura ! Que os deuses do teatro te reverenciem!

A atriz brasileira Laura Cardoso em entrevista para o Canal Viva em 2019, Globoplay Novelas divulgação, reprodução YT, Wikipédia

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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