Wilson Custódio Filho
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A proposta espírita nos convida a olhar além das formas e buscar a essência. O Natal não é sobre presentes, nem sobre trocas apressadas de amigo secreto ou mesas repletas de doces; é sobre presença. Não é sobre fartura material, mas sobre corações despertos.
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- Introdução
Quando os olhos se encontram, mas os corações permanecem distantes… Será apenas mais uma noite de Natal? Quando dezembro chega. as ruas se vestem de luzes, os templos ecoam cânticos, e os mares recebem flores. Tudo parece renascer — ou morrer — sob o brilho artificial das vitrines. Histórias gastas repetem-se como mantras hipnóticos: músicas — sim, aquelas velhas conhecidas, embaladas pelo eterno refrão “São tantas emoções” — ecoam sem alma, enquanto mesas fartas e ritos, embebidos em aparência, entorpecem os sentidos.
Assim seguimos — todos felizes, ou quase —, entre promessas, simpatias e caridades apressadas. Mas quando os fogos rasgam o céu e as luzes se apagam, o que realmente permanece?
- O Natal das Aparências
Há, porém, uma contradição gritante: celebra-se o Cristo — aquele que salva — e esquece-se o Homem de Nazaré — aquele que liberta. Não nasceu entre luzes artificiais — dizem, segundo Lucas (2:7) [1], que foi numa manjedoura singela. Verdade ou tradição? Pouco importa: não veio para os ritos, mas para despertar a consciência.
E nós, que nos dizemos Espíritas, onde nos situamos nessa métrica invisível que rege o tempo?
- O Abismo Entre Teoria e Prática
É nesse abismo entre teoria e prática que se desnuda nossa maior fragilidade; quando a essência se dissolve, resta a forma, o rascunho — fria, repetida, confortável. Meu bom, São Nicolau, que diria de tudo isso? [2] Talvez seja nesse hiato que um padrão quase biológico se insinua: ritos que se multiplicam como células, mas sem alma que os sustente.
- A Botija Rachada e a Ilusão dos Ritos
Velhos alquimistas [3], guardiões de segredos e promessas de ouro eterno, renascidos sob o disfarce da mansidão, repetem fórmulas seculares — na política, na religião, nas ciências e na Doutrina Espírita — como quem busca a Pedra Filosofal [4], embalando a essência humana em botijas douradas, rachadas pelo tempo, onde o ouro em pó se perde pelo caminho das distrações [5].
Assim, as indulgências de outrora ressurgem: orações ecoam nos templos, vibrações destoam nas federativas, oferendas se perdem nos mares, promessas se quebram antes mesmo de nascer…
Tudo isso é um teatro onde o protagonista — o “Espírito da Verdade” — permanece ausente, enquanto a plateia celebra o espetáculo.
- Quando a Essência Silencia
Desta forma, a ilusão que aplaudimos e a verdade que esquecemos revelam um silêncio que pede escuta. Quando os adornos caem e as promessas se desfazem, tudo o que é aparência se dissolve — e só a essência permanece. Talvez seja hora de olhar além das formas e buscar aquilo que não se compra nem se exibe.
- Chamado à Transformação
E é justamente essa essência que dá sentido ao Natal: não um rito, mas um símbolo vivo, um chamado à introspecção e à transformação silenciosa. Allan Kardec nos lembra, no capítulo XIII, item 9, de “O evangelho segundo o Espiritismo” (“Não saiba a vossa mão esquerda o que dá a direita”) [6], que a verdadeira caridade é discreta, desinteressada, longe dos holofotes.
Nesse mesmo aspecto, vale destacar que a proposta espírita nos convida a olhar além das formas e buscar a essência. O Natal não é sobre presentes, nem sobre trocas apressadas de amigo secreto ou mesas repletas de doces; é sobre presença. Não é sobre fartura material, mas sobre corações despertos.
- Conclusão: O Natal que Importa
Essa diferença entre essência e aparência não é apenas um detalhe: é o ponto onde muitos de nós, espíritas, tropeçamos — nos atos e nas instituições. Mantemos ritos, discursos e tradições, mas esquecemos que a proposta kardecista é movimento, é consciência viva — não um calendário de eventos.
Chegamos, então, ao ponto decisivo: o convite à mudança real, à caridade que não se fotografa; à esperança que não depende de fogos de artifício nem de roupas em branco. É o instante em que Yeshua pode nascer — não nas vitrines, mas na consciência lúcida que rompe a inércia.
Quando — por fim — os olhos se encontram, mas os corações permanecem distantes, tal distância revela a nossa falência espiritual. Luzes, festas, promessas: sem lucidez, são apenas cenários.
Espíritas, urge romper a inércia! — não para manter aparências, mas para reacender o ideal que nos pede coragem e clareza. Esse é o Natal que importa: não o que se anuncia… mas o que se concretiza!
Fica a velha dica — permanente —, de Yeshua: que a mão esquerda não veja o que faz a direita.
Fontes:
[1] Bíblia On Line. (2025). Evangelho de Lucas. In: “Bíblia Sagrada”. Lucas 2:7. Disponível em: <LINK>. Acesso em: 17. Dez. 2025.
[2] Wikipedia. (2025). “São Nicolau”. Informações históricas sobre São Nicolau, bispo de Mira, século IV. Disponível em: <LINK>. Acesso em: 17. Dez. 2025.
[3] Wikipedia. (2025). “Alquimia”. História e conceitos da alquimia. Disponível em: <LINK>. Acesso em: 17. Dez. 2025.
[4] Wikipedia. (2025). “Pedra Filosofal”. Conceito e simbolismo na tradição alquímica. Disponível em: <LINK>. Acesso em: 17. Dez. 2025.
[5] Bordin, S. (2013). A botija e a alma. “Primavera da Vida”. 8. Jun. 2013. Disponível em: <LINK>. Acesso em: 17. Dez. 2025.
[6] Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.
Imagem de Chil Vera por Pixabay.




