Unificação e Diversidade, por André Henrique de Siqueira

Tempo de leitura: 10 minutos

André Henrique de Siqueira

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Precisamos ter tolerância ante as diferenças, mas, também, suficiente solidariedade e trabalho colaborativo para superá-las! Precisamos compreender o diálogo como ferramenta fundamental, o que implica a união dos espíritas em torno de ideais comuns.

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Introdução

O trabalho colaborativo que se desenvolve no Movimento Espírita é regido pelos ideais de trabalho e solidariedade, pelos quais a caridade se desenvolve. O respeito mútuo e a compreensão das diferenças são amparados pelo espírito de tolerância que, ao mesmo tempo que promove o diálogo, amplia a resiliência dos colaboradores para o mais amplo entendimento das oportunidades e circunstâncias que promovem o progresso.

Precisamos reconhecer no diálogo a ferramenta, por excelência, que nos oportuniza o desenvolvimento e a ampliação do conhecimento pela exposição ao novo e ao diferente, sempre amparados no discernimento salutar.

As ideias são os moldes de nossa compreensão e, como tais, orientam o nosso modo de perceber, de pensar e de viver. Selecionar as ideias que assimilamos e criticar as que nos orientam é fator determinante para nossa saúde espiritual.

Na exposição à lei de sociedade, nos vemos envolvidos no convívio com pontos de vista, entendimentos e juízos distintos dos que nos regem a vida. E a convivência com eles nos possibilita a experiência de múltiplos modos de aprendizado, ainda que conduzidos pelos mesmos princípios filosóficos, doutrinas sociais e conceitos socioculturais.

No contexto do Movimento Espírita, é fundamental que nos entendamos sobre as bases fundamentais do Espiritismo, ferramenta epistemológica que nos transforma o modo de ser, ao mesmo tempo que se mostra instrumento existencial para nos orientar a condução da própria vida. Urge compreender e vivenciar o Espiritismo como recurso libertador de nossas individualidades, rompendo o círculo das ilusões transitórias, e educando-nos no aprendizado das Leis Divinas – das quais ele, o Espiritismo, se faz o sublime intérprete, com o auxílio dos Espíritos Superiores que no-lo confiaram.

Diálogo: ferramenta de progresso [1]

 O homem, ao buscar a sociedade, obedece apenas a um sentimento pessoal ou há também nesse sentimento uma finalidade providencial, de ordem geral? Resposta: “O homem deve progredir, mas sozinho não o pode fazer porque não possui todas as faculdades; precisa do contato dos outros homens. No isolamento ele se embrutece e se estiola.” (“O livro dos Espíritos, Item 768) [2].

Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. Por isso é que, precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não insulados.

Ao apresentar a Lei de Sociedade e a premência da vida social como necessidade humana, os Espíritos indicam a garantia do progresso como fator determinante para a convivência social.

Constituímos nosso modo de experimentar, pensar e viver de acordo com as ideias que elaboramos, assimilamos ou transformamos. Desse modo, a convivência social possibilita a troca de impressões e de experiências e articula decisivamente a progressão das ideias.

Nesse cenário, o diálogo é excepcional ferramenta de progresso.

No diálogo, temos o encontro de lógicas diferentes (dia = “dois” + logos = “lógica”). Cada Espírito desenvolve sua própria lógica – como modo de perceber, pensar e expressar as ideias que o regem. A capacidade de experimentar e de racionalizar orientam-se por essa lógica particular. O diálogo ocorre por meio da troca das ideias diferentes ou pela exposição das lógicas particulares, possibilitando a permuta e a renovação dos instrumentos de perceber e pensar.

É com Georg Wilhelm Friedrich Hegel, um filósofo alemão, que conhecemos a dialética como proposta de interação entre ideias. Em sua obra principal A Fenomenologia do Espírito, escrita em 1807, Hegel apresenta o desenvolvimento dos diálogos na forma de uma exposição cadenciada em que um dos interlocutores apresenta uma tese (no início do diálogo). A tese é criticada ou contraditada pelo interlocutor, que apresenta uma antítese. O debate entre tese e antítese gera a culminância do diálogo, produzindo um novo entendimento do assunto tratado – denominado síntese. Cada ideia dialogada passa pelo ciclo de tese -> antítese -> síntese. E esse processo caracteriza o progresso das ideias pelo uso da dialética como forma linguística de aprimorar as ideias.

O conceito também pode ser aplicado a diálogos existenciais: observamos em tese a forma como os outros vivem, comparamos com o nosso próprio modo de viver (antítese) e, modificando nossa forma, criamos uma síntese existencial.

Por meio desse fluxo de aprimoramento, desenvolve-se o progresso.

Importa destacar que esse modo de compreensão (a dialética) é apenas uma das formas de entender o processo.

O diálogo é o recurso mais precioso na construção de novos entendimentos, mas é preciso educar-se para utilizá-lo com sabedoria. Se iniciamos o diálogo com a simples pretensão de convencer o outro da melhor qualidade de nossas teses, podemos ser tomados pelo preconceito orgulhoso e impedidos de apreciar as contribuições que as ideias alheias podem acrescentar ao nosso modo de entender: é a escassez da solidariedade e da tolerância.

Ideias como formas de entendimento e de vida

Na convivência com o próximo, somos expostos a situações, experiências e ideias bem diferentes daquelas que esposamos. É preciso sabedoria para apreciá-las.

As ideias que adotamos são resultados da assimilação imediata ou da reflexão crítica. Na assimilação imediata, passamos a adotar as ideias sem que as tenhamos criticado previamente. Muitas ideias são desenvolvidas na infância e outras são assimiladas nas fases posteriores da vida, na forma de categorias de raciocínio, estruturas conceituais dentro das quais organizamos nossos pensamentos – às vezes sem uma clara consciência de que as adotamos.

Como exemplos de categorias de ideias – para fins didáticos de nosso aprendizado –, vamos analisar os dois modos, categorias de pensar dos filósofos Parmênides de Eleia e Heráclito de Éfeso.

O Ser e a essência em Parmênides de Eleia

O pensamento filosófico de Parmênides de Eleia, filósofo pré-socrático do século VI a.C., é marcado pela distinção entre o ser e o não-ser. Para Parmênides, o Ser é o que é, o que existe, o que é real, o que tem essência. O não-ser, por sua vez, é o que não é, o que não existe, o que é irreal, o que não tem essência.

Parmênides argumenta que o ser é eterno, imutável, uno e indivisível. Ele é eterno porque não teve um começo nem terá um fim. Ele é imutável porque não pode mudar, pois se mudasse deixaria de ser o que é. Ele é uno porque não pode ser dividido em partes, pois se fosse dividido deixaria de ser uno. Ele é indivisível porque não pode ser dividido em partes, pois se fosse dividido deixaria de ser o que é.

O não-ser, por outro lado, é impossível. Ele não pode existir, pois se existisse seria o ser, o que é real. O não-ser é também incognoscível, pois se fosse cognoscível seria o ser, o que é real.

A partir dessa distinção entre o ser e o não-ser, Parmênides chega à conclusão de que o mundo sensível é uma ilusão. O mundo sensível é o mundo que percebemos pelos sentidos, e esse mundo é caracterizado pela mudança, pela multiplicidade e pela divisão. No entanto, como a mudança, a multiplicidade e a divisão são características do não-ser, elas não podem existir no mundo real, que é o mundo do ser.

O pensamento de Parmênides teve um impacto profundo na filosofia ocidental. Ele foi um dos primeiros filósofos a defender a ideia de um mundo real que é diferente do mundo sensível. Essa ideia foi posteriormente desenvolvida por filósofos como Platão e Aristóteles.

A ideia de Parmênides sobre a organização do mundo em Seres e Não-Seres, em coisas reais (seres) e ilusórias (não-seres) faz com que busquemos um entendimento a partir da essência. Entender um Ser é compreender a sua essência imutável. Esse modo de entendimento é uma categoria de raciocínio que organiza nosso modo de compreender o mundo.

O fluxo contínuo do processo: as ideias de Heráclito de Éfeso

O pensamento de Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático do século VI a.C., é marcado pela ideia de que o mundo está em constante mudança. Para Heráclito, tudo flui e nada é permanente, exceto a mudança.

Heráclito acreditava que a mudança é a lei fundamental da natureza. Tudo no Universo está em constante mudança, desde os átomos até as estrelas. Essa mudança é contínua e irreversível.

Heráclito também acreditava que a mudança é o que dá sentido ao mundo. É através da mudança que as coisas se transformam e evoluem.

As ideias de Heráclito tiveram um impacto profundo na filosofia ocidental. Ele foi um dos primeiros filósofos a defender a ideia de que o mundo está em constante mudança.

Os principais conceitos do pensamento de Heráclito envolvem: (a) o Devir, como a mudança constante que ocorre no mundo; (b) o Logos, como a razão ou ordem que rege o mundo do Devir; e (c) os Opostos, que são os contrários que se complementam e dão origem ao movimento contínuo de tudo.

A Mudança e o Ser são duas categorias diferentes e implicam diferentes modos de se compreender a realidade. Não faz sentido enquadrá-las nos conceitos de certo e errado, pois apresentam modos distintos de organizar a realidade e raciocinar sobre ela, ambos com suas vantagens e desvantagens. O pensamento contemporâneo já produziu muitas sínteses entre a tese do Ser e a antítese da Mudança e hoje avançamos com novos entendimentos, embora muitas ideias ainda estejam diretamente relacionadas a tais categorias de pensar.

Reconhecendo no exemplo de Parmênides e Heráclito a necessidade de diálogo entre ideias diferentes, passemos a examinar a diferença como instrumento de progresso.

A importância da diferença no progresso social

Quando aprendemos a enxergar e compreender as diferenças entre nossos modos de ser e de pensar, ganhamos uma consciência de nós mesmos e nos damos a chance de ampliar nossa forma de compreender a vida. Adquirir um novo entendimento é ampliar nossos instrumentos de compreensão e realizar o progresso no campo intelectual. Como consequência, passamos a ter novas possibilidades de conduta, alterando-nos o procedimento ético e impactando o comportamento moral.

Diante da diferença, reconhecemos a nossa própria identidade e, ao mesmo tempo, habilitamo-nos para um mais amplo sentido de entendimento. Acrescentamos ao nosso arsenal intelectual novas formas de compreender e, ao nosso conjunto de sentimentos, adicionamos novas formas de sentir as coisas. O resultado é um novo modo de agir. Mas é preciso aprender a lidar com a diferença.

O mais comum em nossas atitudes é querermos manter nosso modo de pensar, sentir e agir. É uma manifestação de orgulho julgar que nossos modos são os melhores. Também é uma forma de egoísmo nos negarmos a ver a vida sob outros olhos.

Acostumados a pensar o amor como aspecto romântico da vida, não nos habilitamos a entendê-lo como esforço de aproximação social pelo qual o outro, com suas diferenças, nos convida ao progresso e transforma pelas diferenças às quais nos apresenta. Amar é também um instrumento epistemológico pelo qual alteramos nossa forma de compreender e conhecer pela assimilação dos valores e perspectivas alheias, após o processo natural de crítica e dialética.

Unificação e progresso: necessidade do entendimento do Espiritismo.

Hoje, que o movimento espírita avançou bastante, vede com que rapidez as ideias de justiça e de renovação, contidas nos ditados dos Espíritos, são aceitas pela metade das pessoas inteligentes. É que essas ideias correspondem ao que há de divino em vós. É que estais preparados por uma semeadura fecunda: a do último século, que implantou na sociedade as grandes ideias de progresso. E, como tudo se encadeia, sob as ordens do Altíssimo, todas as lições recebidas e aceitas resultarão nessa mudança universal do amor ao próximo. Graças a ela, os Espíritos encarnados, melhor julgando e melhor sentindo, dar-se-ão as mãos até os confins do vosso planeta. Todos se reunirão, para se entender-se e amar-se, destruindo todas as injustiças, todas as causas de desentendimento entre os povos.

Grandes pensamentos de renovação pelo Espiritismo, tão bem exposto em “O livro dos Espíritos”; tu produzirás o grande milagre do século futuro, o da reunião de todos os interesses materiais e espirituais dos homens, pela aplicação desta máxima bem compreendida: Amai muito, para serdes amados!”

Sanson, ex-membro da Sociedade Espírita de Paris, 1863.

(“O evangelho segundo o Espiritismo”, Cap. XI, item 10) [2].

Para compreender o impacto do Espiritismo em nossas vidas, precisamos incialmente reconhecer que ele nos apresenta uma nova forma de entendimento das coisas. É uma diferença em relação aos conceitos e crenças que originalmente assimilamos. E tal diferença nos lança no vendaval de reflexões que exigem um novo posicionamento diante da vida, agora tomando a existência espiritual como princípio e categoria fundamental para o entendimento das coisas.

A mensagem de Sanson nos oferece uma perspectiva bastante significativa sobre o amor ao próximo como ferramenta de conhecimento e sobre a nossa exposição aos diferentes conceitos da Doutrina Espírita.

Primeiro, ele caracteriza o amor como atitude: ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros o que queira que estes lhe façam; e depois sinaliza a necessidade de uma mudança em nosso modo de pensar as coisas: é procurar em torno de si o sentido íntimo de todas as dores que acabrunham seus irmãos, para suavizá-las. E completa, convidando-nos a uma mudança de atitudes: Para todos os sofrimentos, tende, pois, sempre uma palavra de esperança e de conforto, a fim de que sejais inteiramente amor e justiça – convidando para a apresentação de diferentes atitudes até a convencional reação ao sofrimento…

O pensamento é significativo à luz de uma busca por novos modos de raciocinar e agir. E precisamos reconhecer que este é o impacto do Espiritismo em nossa vida mental, convidando-nos a uma mudança de comportamento individual.

Entretanto, resta-nos reconhecer o impacto das diferenças no modo como colaboramos coletivamente em torno da Doutrina Espírita. Devemos buscar a unidade, sem nos prendermos à uniformidade.

Quando estudamos o Espiritismo sozinhos, construímos nossos limitantes entendimentos individuais. Quando o fazemos em grupos, ampliamos nossas capacidades de aplicar os conceitos espirituais a diferenças, circunstâncias e situações, ao mesmo tempo em que temos acesso a mais amplos entendimentos do assunto. A diferença no modo de entender dos outros nos permite criticar edificantemente tanto as nossas quanto as ideias alheias.

A essência da Unificação é o trabalho colaborativo assentado no amor, conforme apresentado por Sanson. Mas é preciso reconhecer que a Unificação não é uma uniformização de entendimentos, não é uma uniformização de condutas. Trata-se de um esforço coletivo para coordenar ações, cooperar atividades e garantir por diferentes meios o estudo, a vivência e a divulgação do Espiritismo, conforme nos apresentou Allan Kardec.

Por isso, precisamos ter tolerância ante as diferenças, mas ter também suficiente solidariedade e trabalho colaborativo para superá-las!… Precisamos compreender o diálogo como a ferramenta fundamental da Unificação, que implica a união dos espíritas em torno de ideais comuns.

Então, compreenderemos a profundidade do convite expresso pelo Espírito de Verdade3, quando nos afirma (“O evangelho segundo o Espiritismo”, Cap. XX, item 5) [2]:

“Chegastes no tempo em que se cumprirão as profecias referentes à transformação da Humanidade. Felizes serão os que tiverem trabalhado o campo do Senhor com desinteresse, e movidos apenas pela caridade! Suas jornadas de trabalho serão pagas ao cêntuplo do que tenham esperado. Felizes serão os que houverem dito a seus irmãos: “Trabalhemos juntos, e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, na sua vinda, encontre a obra acabada”, porque a esses o Senhor dirá: Vinde a mim, vós que sois os bons servidores, vós que soubestes calar os vossos melindres e as vossas discórdias, para que a obra não sofresse!”

Mas infelizes os que, por suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, porque a tempestade chegará e eles serão levados no turbilhão! Nessa hora clamarão: “Graça! graça!” Mas o Senhor lhes dirá: “Por que pedis graça, se não tivestes piedade de vossos irmãos, se vos recusastes a lhes estender as mãos, e se esmagastes o fraco em vez de o socorrer? Por que pedis graça, se procurastes a recompensa nos prazeres da Terra e na satisfação do vosso orgulho? Já recebestes a vossa recompensa, de acordo com a vossa vontade. Nada mais tendes a pedir. As recompensas celestes são para aqueles que não houverem pedido as recompensas da Terra.” [3]

Notas do ECK:

[1] O ECK apresentou, em artigo de Marcelo Henrique, intitulado “Por um Método Comunicativo Espírita: o Dialógico, o Dialético e o Contraditório – caminhos para o real entendimento”, a conexão entre esses três conceitos/práticas para o avanço progressivo de individualidades e coletividades.

Henrique, M. (2025). Por um Método Comunicativo Espírita: o Dialógico, o Dialético e o Contraditório – caminhos para o real entendimento. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 20. Dez. 2025.

[2] O ECK revisou as citações feitas pelo autor, acerca de trechos de “O livro dos Espíritos” e de “O evangelho segundo o Espiritismo”, padronizando-as conforme o padrão editorial adotado (Edições LAKE, realizadas ou supervisionadas por J. Herculano Pires), por considera-las mais conformes com o pensamento e a redação original de Allan Kardec.

[3] Artigo originalmente publicado, em abril de 2024, no site do jornal “Mundo Espírita”, periódico da Federação Espírita do Paraná. Texto ligeiramente adaptado aos padrões editoriais do Portal ECK.

Fontes:

Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Imagem de Simp1e123 por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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