Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique
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A mediunidade não é boa, nem é má. Ela é neutra. O médium é que a utilizará de acordo com seu conhecimento e sua moralização.
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A obra Kardeciana abre a todos os que por ela se interessam um leque de oportunidades para começar a entender o mundo em que se vive. Dissemos começar, porque o conhecimento é vasto e não deve haver limites para aprender.
Em “O livro dos Espíritos” (OLE), assim como nas demais obras, Kardec expõe a Lei do Progresso: “progresso regular e lento que resulta da força das coisas” (OLE, item 783). Depreende-se, então, que estamos sempre em marcha ascensional, amadurecendo nosso intelecto e nossa moralidade. Sabemos, também, que o intelecto avança primeiro e, de posse desse conhecimento, o ser desenvolve a moralidade: o progresso moral nem sempre acompanha o progresso intelectual, mas, como as Inteligências Superiores responderam a Kardec, o moral é a consequência da inteligência, “mas não o segue sempre imediatamente” (item 780, de OLE). O mais comum, portanto, é que as individualidades e as coletividades (sociedades) alcancem primeiramente o maior progresso científico e depois, pela ação inexorável do tempo, e de forma lenta, se moralizem.
Dessa forma, perguntamos o porquê do estudo e da necessidade de moralização, em especial, para o médium. A resposta pode ser simples ao se dizer que o estudo é importante para que se conheça o desconhecido, ou seja, o que acontece comigo, o que vejo, o que ouço, o que sinto. Através do estudo, nos esclarecemos e podemos eliminar a ideia do místico e do mítico, afastando o fanatismo.
Entendemos, ainda, que o mundo espiritual e o mundo material estão interligados, o que nos encoraja para os desafios diários, nas provas e nas expiações a que todos os encarnados estão submetidos para, paulatinamente, construirmos o equilíbrio necessário para o bem viver com a plena ciência de que são as dificuldades que nos fazem avançar.
O estudo regular e constante, realizado no “silêncio de nosso quarto” assim como nas discussões em grupo atua no sentido de acalmar as nossas angústias mais íntimas. Porque vão, pouco a pouco, solidificando os conceitos, fundamentos e princípios fundamentais da Filosofia Espírita, os quais nos fornecem o necessário suporte para o adequado exercício de Mediunidade.
A Mediunidade, por sua vez, se caracteriza pela condição orgânica que as pessoas possuem de entrar em contato com o mundo extrafísico. Kardec diz que a mediunidade é inerente a todos os encarnados: “Toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium” (“O livro dos Médiuns”, OLM, Cap. XIV – “Os Médiuns”, Item 159). Todavia, essa faculdade, a mediunidade, é mais caracterizada em algumas pessoas devido a uma organização orgânica mais ou menos sensível. São os chamados médiuns ostensivos, os quais possuem as mais diferentes aptidões como efeitos físicos, psicofonia, psicografia, intuição, entre outros.
A mediunidade não é boa, nem é má. Ela é neutra. O médium é que a utilizará de acordo com seu conhecimento e sua moralização. Ao se falar em moralização do médium, não se fala em “santificação”, pois este não é o vocábulo adequado. É preciso entender que o médium, também é um Espírito em evolução, estando em uma existência físico-material para se instruir, e, consequentemente, “domar as suas más inclinações” (“O evangelho segundo o Espiritismo”, OESE, Cap. XVII – “Sede Perfeitos”, Item 4). Aprender sempre é a tônica, inclusive com os desacertos cometidos em sua jornada. Por isso, lembramos a expressão que foi popularizada por Sócrates, inscrita no Oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”, a fim de detectar e corrigir as más inclinações. Acreditamos, portanto, que um dos maiores benefícios da mediunidade seja a troca de experiências entre os dois planos em incessante atuação, as quais resultam em instrução e ação.
Pouco a pouco, então, vamos entendendo tudo o que ocorre conosco e percebendo a preciosidade da oportunidade que é a amplitude de sentidos que a Mediunidade proporciona. Chamamos, então, a atenção para o Mito da Caverna (de Platão), para lembrarmos do Sol, que brilha para todos, mas não é sentido por alguns. Mediunidade é o sair da Caverna, mesmo que por pouco tempo, para ver/sentir o algo a mais existente no Universo: a vida não é só este plano, mesmo que para nós seja difícil, por ora, compreender as leis que nos regem espiritualmente e entender o sentido da vida.
Contudo, a Mediunidade não é um privilégio, no sentido de um “dom dado por Deus aos eleitos”. É, antes e acima de tudo, uma capacidade inerente ao ser humano. É orgânica e há alguns que possuem uma percepção ainda mais acurada. Em OESE, Cap. XXV, Item 7, Kardec escreve: “a mediunidade não é um privilégio, e se encontra em toda parte”.
Desde os tempos mais remotos temos relatos de processos mediúnicos: Moisés e as tábuas da Lei, as pitonisas, os oráculos. Todos eram nada mais do que a Mediunidade sendo exercida. Portanto, esse intercâmbio não nasceu no, nem é privilégio do Espiritismo, pois está em toda parte.
O médium precisa estudar e se educar moralmente, a fim de entender o fenômeno que consigo ocorre e para utilizá-lo em fins sérios, visto que os Espíritos Superiores ocupam-se de trabalhos construtivos de amparo, de esperança e, dentro das possibilidades, de ajuda às nossas dúvidas, sejam elas quais forem. Neste sentido, tais dúvidas devem ser, sempre, marcadas por bons propósitos, como por exemplo, dúvidas surgidas em reuniões de estudo onde haja compromisso com o saber, mas não com a curiosidade inútil sobre futilidades e despreocupada com o bem coletivo ou social.
Muitas vezes, da parte dos próprios espíritas, o médium é laureado ou aclamado como um portador de “mensagens do Alto”, tido inclusive como um ser especial, como se tudo o que dele viesse fosse inquestionável. Ledo engano, todo conteúdo que nos chega pela mediunidade deve ser muito bem analisado, a fim de que se possa utilizar como instrumento de melhoria comum.
Uma outra situação diz respeito aos procedimentos usuais e comuns, do dia a dia daquele que é médium. Nas diversas situações em que ele não esteja “mediunizado”, isto é, transmitindo mensagens dos Seres Invisíveis, tudo o que ele diz ou faz é considerado “perfeito” ou “superior”, confundindo-se o médium com sua atuação, a sua personalidade com a dos aludidos “mentores”. E, não raro, atribuindo-lhe “santidade” ou elevação espiritual plena.
Exaltar, portanto, o médium é um procedimento que somente serve para inflar seu orgulho e sua vaidade, as quais são caminhos certos para sua falência moral, constituindo, assim uma difícil prova para ele. Porque é bastante difícil ver, ouvir, constatar e não efetuar julgamentos. Tarefa árdua àqueles que detêm essa faculdade, convenhamos. Por isso, o estudo das Obras Kardecianas – em especial, neste caso, OLM – traz a força, o esclarecimento e as chaves para bem utilizar essa faculdade.
A Mediunidade pressupõe, ainda, dois lados: um, o ser que deseja transmitir seu pensamento; e, outro, aquele que a receberá e, provavelmente, influirá naquilo que transmite. A isso se dá o nome de Animismo. O Animismo é a (maior ou menor) influência do médium sobre a mensagem que lhe é transmitida, resgatando, muitas vezes, conhecimentos das vivências sucessivas do encarnado. Isto não é, por si só, negativo. Todavia, deve o médium esforçar-se para compreender e separar aquilo que, de fato, lhe pertence, do que lhe é transmitido de outra(s) fonte(s) espiritual(is).
Uma sugestão importante que fazemos, neste contexto, é o procedimento que temos feito em nossas incursões mediúnicas (psicografia): quando se tem certeza da autoria como sendo APENAS do Espírito (desencarnado), identificar como “mensagem mediúnica recebida” e colocar a data e a identificação do comunicante (se ele se afirmar como tal). Caso contrário, utilizar “um Espírito” ou “Espírito sem identificação”. E, no caso de haver a simbiose entre as ideias do comunicante e as do médium, utilizar, sugestivamente, a expressão “mensagem recebida por inspiração”.
Também a elevação do pensamento (prece) é um valioso recurso para bem entender e praticar a mediunidade. Na “Revue Spirite”, de Novembro de 1861, Kardec apresenta a seguinte afirmativa:
“A prece é uma aspiração sublime, à qual Deus deu um poder tão mágico que os Espíritos a reclamam para si constantemente. Orvalho delicado, que é como um refresco para o pobre exilado sobre a Terra e um arranjo (sic.) frutífero para a alma sentir. A prece age diretamente sobre o Espírito que lhe é o objetivo; ela não muda seus espinhos por rosas, ela modifica sua vida de sofrimento, – nada podendo sobre a vontade imutável de Deus, – imprimindo-lhe esse voo de vontade que revela a sua coragem, dando-lhe a força para lutar contra as provas e dominá-las. Por esse meio, o caminho que conduz a Deus é abreviado e nada pode, como efeito maravilhoso, ser comparado à prece”.
Reafirmamos, assim, o teor de neutralidade da Mediunidade, enquanto faculdade humano-espiritual, peculiar da condição de indivíduos materialmente encarnados em mundos físicos e a distinção do seu uso, para o benefício ou o malefício dos semelhantes.
Podemos, portanto, concluir que o estudo sério, o compromisso com a verdade, a disposição de ajudar e a prece são os aliados de todos os Espíritos e, em especial, dos médiuns. Numa expressão poética, traduzida pelo compositor Renato (Russo) Manfredini, vigora a máxima de que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Porque, junto à capacidade mediúnica, podem alavancar o progresso deste Planeta e, consequentemente, o de todos os que possuem o compromisso de se melhorarem, encontrando o percurso que se dirige à verdade. E, com isso, o intento permanente de serem felizes.





Excelente artigo. Simples e profundo.
Óptimo texto de quem sabe do que fala. Eu de mediunidade pouco ou nada sei. Mas de prece já constatei que o Mundo Espiritual existe e que a prece que sai da profundeza da nossa alma, tem eco e não raras vezes a senti. Só sei que o nosso primeiro pensamento é de gratidão profunda e de louvor aos nossos guias e à Espiritualidade bondosa que nos acompanha, principalmente em momentos de grande complexidade.