O método de Kardec e a antecipação científica da pesquisa contemporânea, por Wilson Garcia

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Por Wilson Garcia

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O Espiritismo, fiel à sua proposta original, não se coloca contra a ciência, mas se mantém como projeto de investigação aberta da realidade espiritual, fundamentado na observação, na comparação empírica e na revisão permanente de suas próprias formulações — exatamente nos moldes do melhor espírito científico.

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O percurso histórico da lenta incorporação da espiritualidade ao debate acadêmico brasileiro ganha novo significado quando confrontado com o método inaugurado por Allan Kardec em meados do século XIX — procedimento investigativo que, sob muitos aspectos, se antecipou em quase um século às atuais exigências de validação empírica no estudo da consciência.

Ao organizar a Codificação Espírita entre 1855 e 1869, Kardec estruturou uma metodologia inspirada no rigor científico de seu tempo, porém aplicada a um domínio até então submetido apenas à fé religiosa, ao magnetismo especulativo ou à curiosidade folclórica. Diversamente da atitude mística convencional, Kardec recusou comunicações isoladas como prova e estabeleceu critérios objetivos para a aceitação de qualquer ensino espiritual, baseados na multiplicidade de médiuns independentes, comparação sistemática de relatos e controle crítico permanente.

O princípio metodológico conhecido como “controle universal do ensino dos Espíritos” constitui o núcleo dessa prática científica. Kardec o formulou de maneira explícita:

“Uma só opinião pode ser verdadeira ou falsa; a concordância obtida fora de qualquer influência suspeita é que constitui a garantia da verdade.” (KARDEC, 2012, p. 212).

Tal princípio corresponde, de modo surpreendentemente preciso, ao que hoje se denomina replicabilidade intersubjetiva, fundamento básico de qualquer investigação científica contemporânea. Kardec aceitava um dado mediúnico apenas quando a mesma ideia surgia em mensagens independentes, obtidas por médiuns desconhecidos entre si, em localidades distintas, afastando as hipóteses de sugestão coletiva, influência pessoal ou fabricação consciente do conteúdo.

Esse procedimento aproxima-se diretamente do modelo atual de verificação cruzada de dados, prática comum em estudos multicêntricos nas áreas da psicologia e da medicina. A lógica utilizada por Kardec é a mesma adotada, atualmente, por investigações sobre experiências de quase-morte e consciência não local: acumular relatos independentes, submetê-los a análise comparativa e verificar a presença de padrões recorrentes, capazes de indicar um fenômeno objetivo para além da experiência subjetiva individual (VAN LOMMEL, 2010, p. 224–228; GREYSON, 2021, p. 91–110).

Kardec foi igualmente rigoroso ao rejeitar qualquer forma de dogmatização precoce da doutrina. Em A Gênese, defendeu a natureza progressiva e autocorretiva do Espiritismo, declarando:

“Se a ciência provar que o Espiritismo está errado em algum ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (KARDEC, 2018, p. 66).

Esse enunciado expressa uma concepção genuinamente científica de conhecimento: saber aberto à revisão, em permanente diálogo com novos fatos observáveis — modelo compatível com a definição contemporânea de ciência como sistema teórico provisório, suscetível de ampliação ou correção (CHALMERS, 1996, p. 34–37).

Diálogo entre o método kardeciano e a ciência moderna da consciência

As pesquisas modernas sobre espiritualidade e consciência — em especial as relativas às experiências de quase-morte (EQMs) e à lucidez terminal — retomam exatamente o procedimento metodológico desenvolvido por Kardec. Estudos conduzidos por Pim van Lommel, Bruce Greyson, Sam Parnia e Alexander Batthyány seguem o mesmo padrão: coleta de grandes amostras independentes, utilização de instrumentos padronizados e análise transcultural dos relatos para identificação de padrões consistentes (VAN LOMMEL, 2010; GREYSON, 2021; PARNIA, 2014; BATTHYÁNY, 2023).

No campo brasileiro, esse esforço encontra expressão nos trabalhos do psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, cuja produção científica examina experiências mediúnicas sob parâmetros clínicos rigorosos, distinguindo religiosidade saudável de estados dissociativos patológicos (MOREIRA-ALMEIDA, 2008, p. 21–26). Em parceria com Koenig e Lotufo Neto, Moreira-Almeida demonstrou, mediante análises empíricas, que a vivência religiosa, longe de ser indício de transtorno mental, frequentemente se associa a maior estabilidade emocional e menor incidência de depressão (MOREIRA-ALMEIDA; LOTUFO NETO; KOENIG, 2006, p. 246–248).

A institucionalização desse campo no Brasil se consolida com a criação do NUPES – Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, sediado na Universidade Federal de Juiz de Fora, que atualmente atua como referência nacional na aplicação de protocolos clínicos e psicométricos ao estudo de fenômenos espirituais e suas relações com saúde mental (UFJF, 2014).

Kardec como precursor epistemológico

À luz desse desenvolvimento, torna-se impossível afastar a conclusão de que Allan Kardec deve ser compreendido não apenas como codificador de uma doutrina espiritualista, mas como precursor epistemológico da ciência moderna da consciência.

Sua metodologia baseava-se na:

  • validação por observações independentes;
  • rejeição de argumentos de autoridade;
  • crítica permanente aos próprios resultados;
  • abertura à revisão teórica.

Esses critérios coincidem com os princípios defendidos por epistemólogos contemporâneos, especialmente na abordagem de fenômenos que escapam à explicação estritamente materialista da mente humana (NAGEL, 2012, p. 15–21).

Nesse sentido, a resistência institucional verificada em episódios históricos brasileiros — como a recusa de uma tese sobre mediunidade pela Faculdade de Medicina da UFPR na década de 1940 — não revela fragilidade metodológica do Espiritismo, mas antes o atraso da academia em reconhecer objetos legítimos de pesquisa para além do paradigma neurobiológico exclusivo.

A ciência da consciência, em sua vertente mais recente, começa a alcançar o ponto epistemológico em que Kardec já se situava no século XIX: a compreensão de que a mente não se esgota na atividade cerebral, e de que o estudo legítimo da consciência exige não apenas mecanismos explicativos materiais, mas também análise fenomenológica, comparativa e experiencial (CHALMERS, 1996; NAGEL, 2012).

Conclusão

Ao conectar o histórico acadêmico brasileiro com o método de Kardec, emerge uma síntese incontornável:

A ciência contemporânea da consciência não avança para além do método kardeciano — ela começa, finalmente, a reencontrá-lo.

O Espiritismo, fiel à sua proposta original, não se coloca contra a ciência, mas se mantém como projeto de investigação aberta da realidade espiritual, fundamentado na observação, na comparação empírica e na revisão permanente de suas próprias formulações — exatamente nos moldes do melhor espírito científico.

Referências

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Imagem de JayMantri por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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