Nelson Santos
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A cegueira é um mal do Espírito, para Saramago em seu romance. Que analogia podemos fazer com o meio espírita?
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Sempre que intento apreciar artigos pertinentes à religiosidade, à religião e ao arcabouço doutrinário adotado no seio do Espiritismo, sejam em seminário, palestras, semanários, periódicos ou em postagens especializadas na internet, vejo-me a recordar o escritor José Saramago (1922-2010), ateu convicto, embora bem mais religioso do que muitos que conheço.
Saramago foi sempre um crítico ácido e, muitas vezes, amargo, mas de um amargor filosófico e profundo que se confrontava com realidades deturpadas, tão bem narradas, caracterizadas e exploradas no seu “Ensaio Sobre a Cegueira”. Tal e qual sua obra, percebo a cegueira branca, luminosa e não a de trevas, a atravancar a visão de muitos espíritas, perdidos em suas convicções vazias, causando idolatria e fascinação, alicerçadas sobre a movediça areia das interpretações equivocadas.
“só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”, Allan Kardec [1].
Como Professor, egresso do Instituto de Yverdon, Denisard Hypolite Leon Rivail [2] sempre demonstrou uma metodologia, séria e coerente, em seus apontamentos. Não poderia ser, ele, diferente em relação à rotina diante da Doutrina dos Espíritos. Com a alcunha de Allan Kardec, ele sempre utilizou a razão, o bom senso e a lógica na análise das mensagens espirituais recebidas através de diversos médiuns e pôs-se a catalogá-las de forma coerente e séria, como podemos bem observar ao longo de suas trinta e duas obras. O Espiritismo configura, então, por suas mãos, uma caminhada progressiva em busca do autoconhecimento, da autonomia, do livre pensamento, assim como do aprimoramento moral e espiritual do ser, por meio da compreensão e do estudo das Leis Divinas.
Na majestosa trama de um surto epidêmico de cegueira e analisando as dificuldades e, ao mesmo tempo, o crescimento alcançados pelos cegos, após a perda da visão, de forma metafórica, Saramago retrata o adoecimento psíquico, espiritual e a recuperação da visão como cura. A obra, ficcional, tece parâmetros com a realidade dogmática presente no meio espírita. Há um narrador “onisciente”, uma mulher não cega, que justamente por ter sido agraciada, torna-se senhora das existências, que bem poderíamos comparar a eminentes figuras de liderança institucional e doutos palestrantes espíritas. Tem-se, na narrativa, o caos de um mundo de cegos, onde a dádiva de enxergar pode tornar-se um fardo. Por outro lado, em um universo que bem pode ser adjetivado como manicomial, há parcelas de cegos de caráter dualista e ambíguo, mergulhados nesse mar de leite, que os ilumina.
Há, assim, os cegos da primeira camarata, que representam o suposto bem dentro da moralidade. Por analogia, seriam estes os supostos pilares do Espiritismo ou os fundamentos de uma religião espírita? Na segunda camarata, há os cegos desamparados, abandonados, equivocados, perdidos e perturbados, que necessitam de assistência, de auxílio, de consolo. Estariam, eles, sujeitos a regras institucionais e dogmas permissivos e proibitivos para que lhes fosse ministrado o bálsamo consolador? E há a terceira camarata, a de cegos maus, perversos e violentos, que bem poderiam configurar a gama de obsessores encarnados e desencarnados que se valem da malícia, exploram a ingenuidade e se locupletam com o ilícito. Uma amálgama de catástrofes pessoais, psíquicas, espirituais, iminentes e emanantes, são anunciadas pela linguagem do autor. Aforismos entremeiam o texto e se misturam com pequenas parábolas, repletas de um moralismo contrastante e ferido, tal qual como divulgado em muitas palestras ditas espíritas e em um grande número de obras mediúnicas.
“A fé cega nada examina, aceitando sem controle o falso e o verdadeiro”, Allan Kardec [3].
No evangelho espírita, como destacado, Kardec nos expõe que deveremos ter a fé sem abandonar a razão, pois, se do ponto de vista religioso, a fé é composta por dogmas especiais de que se constituem as várias religiões, pode ela ser raciocinada ou cega. A fé cega nada examina, choca-se com a evidência e a razão e, se levada ao excesso, produz o fanatismo. Só a fé embasada na razão prevalece, pois tal não teme o progresso, sendo que o que é verdade em luz, também o é em trevas.
No meio Espírita, há aqueles que se revestem de boas intenções, mas, verdadeiramente, vivem do orgulho e do egoísmo, imersos em vaidades e personalismos. Mentem sobre si mesmos, não praticando o que apregoam, julgam-se mestres e, nessa maestria, levam o engodo e a visão luminosa que ofusca e impede de ver a verdade, de vez que apregoam, em realidade, uma verdade dogmática, que não pode ser contestada.
Será que a mulher não cega, descrita na obra de Saramago, não é a testemunha do que estava se transformando a realidade humana, sem o véu hipócrita da visão? Todas essas referências subversivas à nova realidade têm o seu ápice em um episódio, quase ao final do livro, no momento imediatamente anterior ao em que todos os cegos recuperam a visão. Nesse episódio, após terem saído do manicômio, os cegos repousam em uma loja abandonada. Junto com aquela mulher, a única que vê, o médico sai em busca de comida. Tendo se deparado com cenas mórbidas, a mulher do médico começa a não se sentir bem e resolve repousar em uma capela. Nesse momento se depara com uma cena chocante: as imagens dos santos todas estão com vendas brancas nos olhos, ou seja, ninguém escapou daquela iniquidade.
“A verdade é como a luz: é preciso que nos habituemos a ela pouco a pouco, pois, de outra maneira nos ofuscaria”, Allan Kardec [4].
Complementarmente, o Mestre Lionês assevera, na “Revue Spirite”, de Maio de 1865, que a verdade é como o tempo: o presente em que estão contidos o passado e futuro. Assim, pois, existem duas verdades: a verdade relativa e a verdade absoluta. A verdade relativa é o que é, e a verdade absoluta é o que poderia ser. Seguimos, quase sempre, a verdade relativa, na rota ascensional ao progresso.
Deste modo, como a humanidade é coletiva, ela coletivamente progredirá, sempre procurando verdades novas, descerrando o véu da ignorância e revelando a face oculta que nos é imposta pelas condições vivenciadas, ou, ainda, por ilusões espirituais que nos são transmitidas em um longo processo de evangelização, e não de educação. Mas, ao descerrarmos a verdade, devemos procurar tornar-nos indivíduos melhores e, libertos, escolhermos o momento transacional, sem jamais esmorecer quando uma verdade for exposta, sob o risco de ficarmos imersos em nossa iniquidade, tal qual a protagonista de Saramago.
Ao final da obra, com a volta dos cegos à visão, a Nova Jerusalém não funciona totalmente como um final feliz, como mais tarde descobriu Emmanuel Swedenborg [5]. O grand finale é dúbio: de um lado, a felicidade dos que voltam a enxergar, apesar das ilusões materiais e espirituais; do outro, a reflexão da protagonista acerca de quão cegos ainda estavam aqueles homens e mulheres que voltaram a ver. Pois a cegueira é um mal do Espírito, o qual continuava, na obra literária, a prejudicar os psiquismos daqueles seres, vivendo e revivendo suas limitações, e deixando-os cada vez mais distantes do progresso espiritual.
Notas do ECK:
[1] A afirmação peremptória do Professor francês consta do Cap. XIX, Item 7, de “O evangelho segundo o Espiritismo”, quando Kardec estabelece a distinção entre a mera fé religiosa e a fé considerada inabalável.
[2] Esta é a grafia correta do nome de batismo de Allan Kardec, conforme já destacado em texto no nosso Portal (Editorial ECK, 2025).
[3] Trata-se de outra declaração de Kardec, na distinção entre a mera fé religiosa e a fé considerada inabalável, no item antecedente (6), do mesmo Cap. XIX, de “O evangelho segundo o Espiritismo”.
[4] Resposta das Inteligências Invisíveis a Kardec, em “O livro dos Espíritos”, Item 628.
[5] Nos escritos de Swedenborg, a Nova Jerusalém representaria o “final feliz” da história espiritual da Humanidade, representando, não um local físico no futuro, mas uma nova era de iluminação espiritual e, para ele, uma Nova Igreja, que teria começado a se formar no plano espiritual, em 1757.
Fontes:
Editorial ECK. (2025). Kardec, ainda esse desconhecido. “Espiritismo COM Kardec”. 28. Ago. 2025. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/kardec-ainda-esse-desconhecido/>. Acesso em 10. Mar. 2026.
Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Kardec, A. (1964). “Revue Spirite”. Trad. Julio Abreu Filho. Supervisão de J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel.
Swedenborg, E. (1964). “A Verdadeira Religião Cristã”. Trad. J. M. Lima. Rio de Janeiro: Freitas Bastos.
Imagem de Manfred Loell por Pixabay




