HOMENAGEM: “Pontos”, por Luiz Fernando Veríssimo

Tempo de leitura: 2 minutos

Luiz Fernando Veríssimo (in memoriam)

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Pontos. Tiveram muitos pontos em comum.

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No início era um ponto. Ponto de partida. O ponto onde a tangente toca a circunferência, e fez-se a vida. Ponto pacífico.

O círculo é a timidez do ponto. A linha é o ponto desvairado. O travessão é o ponto-ante ponto, a primeira exploração embevecida, a infância. Ligando as palavras.

Nasceu num ponto qualquer do mapa. Sua mãe levou pontos depois do parto. A linha reta é o caminho mais chato entre o parto e o ponto final, preferiu o ziguezague. Teve uma vida pontilhada, os pontos que caíam nos exames, os pontos que subiam na Bolsa, os pontos de macumba, os pontapés. Mas sempre foi pontual.

O ponto é uma vírgula sem rabo. A vírgula não é como o ponto e vírgula ponto e vírgula, a vírgula qualquer um usa mas o ponto e vírgula requer prática e discernimento vírgula modéstia à parte ponto Nova linha. Fez ponto em frente à casa da namorada, uma circunferência com vários pontos positivos, com a sua mãe apontada acima. Não dormiu no ponto, acabou convidado para entrar quando estava a ponto de desistir, pontificou sobre vários pontos, não demora já era apontado como íntimo da casa, jogava cartas (pontinho) com a família, parecia um pontífice, não desapontou. Casaram. Tinham muitos pontos em comum.

O sexo! Ponto de exclamação. Querida, estou a ponto de… não! Cuidado. Ponto fraco. A tangente toca a circunferência. Outro ponto no mapa. Parto. Pontos. Tiveram muitos pontos em comum. Os outros caçoavam: que pontaria. Discordavam num ponto: a pílula.

Zig-zag-zig-zag. Os ponteiros andando. Um dia no futebol – jogava na ponta – sentiu umas pontadas. Coração. O ponto-chave. O médico insistiu num ponto: pára. Mas como? Chegara a um ponto que não podia parar, era um ponto projetado no espaço, a vida é um ponto com raiva, parar como? A que ponto? Saiu encurvado. Como um ponto de interrogação.

Só uma solução, dois pontos: os treze pontos da loteria. Senão era um ponto morto. A linha era no eletro, outro ponto pacífico, o ponto no infinito, onde as paralelas, a distância mais curta entre, cheguei a um ponto em que, meu Deus… três pontinhos.

Jogou o que tinha num ponto de bicho e o que não tinha num ponto lotérico. Não deu ponto.

Em casa a circunferência e os sete pontinhos. Resolveu pingar os pontos nos “is”. Melhor deixar uma viúva no ponto.

De um ponto de ônibus mergulhou, de ponta-cabeça, na ponta de um táxi, ou de um ponto de táxi na ponta de um ônibus, é um ponto discutível. Entregou os pontos.

Fonte:

Veríssimo, L. F. (1973). Pontos. “O popular”. Rio de Janeiro: José Olympio.

Nota do ECK: Com esta bem-humorada crônica, que mescla matemática e português e fala da(s) vida(s) de todos nós, o ECK homenageia o escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo, romancista, publicitário, revisor de jornal e também músico (saxofonista) brasileiro, nascido em 26 de setembro de 1936 e falecido em 30 de agosto de 2025.

Imagem: Marcello Casal Jr./Agência Brasil  (Wikipedia)

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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2 thoughts on “HOMENAGEM: “Pontos”, por Luiz Fernando Veríssimo

  1. Luiz Fernando Veríssimo, de cuja mente brilhante jorraram contos maravilhosos, personagens inesquecíveis. O Analista de Bagé, que resolvia os problemas de neuroses dos pacientes com uma joelhada psicanalítica na boca do estômago. E a Velhinha de Taubaté, ingênua, mas boa senhorinha, sempre pronta a compreender e desculpar as fraquezas morais das pessoas, a avozinha que todo neto queria ter. Isso numa época de poesia, de ternura e candura em que as velhinhas eram veneráveis; mas o que ele não contava era que, numa noite de Sabá ao estilo de Edgard Allan Poe ou de Modest Mussorgsky, apareceu Bolsonaro acompanhado de uma legião de bruxas, velhinhas belicosas, raivosas instilando ódio, numa mão portavam a bíblia e na outra mão uma pistola para exterminar adversários. Esta seria uma crônica que Luiz Fernando certamente faria, mas não seria uma crônica bem humorada e sim uma crônica sombria, de terror.