Marcelo Henrique
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Cantou McCartney: “Quem salvará o planeta em que vivemos?”. Isto é, quem poderá alterar as rotas de colisão, transformando-as em compreensão e respeito?
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Em 1983, quando o mundo ainda vivia os tempos de “Guerra Fria” e a iminência de um novo conflito bélico mundial, a par da existência de conflitos localizados em várias partes do globo, Paul McCartney compôs a música “Cachimbos da Paz” (“Pipes of Peace”, no original). A música foi uma das mais executadas daquele álbum, inspirada em um poema do indiano Rabindranath Tagore, Prêmio Nobel de Literatura (1913), tendo a paz como mote, em contraponto à guerra.
Em uma das estrofes, a frase “com amor, todas as contradições da vida se dissolvem e desaparecem” (“in love all of life’s contraditions dissolve and disappear”) inspirou Paul a dizer “no (ou com) amor todos os nossos problemas desaparecem” (“in love our problems disappear”).
No videoclipe da canção, premiado como o melhor pela crítica especializada (em 1984), é retratada uma cena real, que ocorreu no Natal de 1914, entre soldados alemães e ingleses, num local de combate. Na iminência da celebração, os oficiais responsáveis pelas tropas, celebram um armistício, impedindo por dois dias os combates. Paul interpreta, ao mesmo tempo, ambos os comandantes militares, em cenas de trocas de cumprimentos e divisão de mantimentos para a “ceia de Natal”.
Olho para a vida atual e vejo muitos problemas de convivência e relacionamento. No trânsito, diário, vejo poucas pessoas abertas a gentilezas e ao “dar a vez”, e muitos apressados, descuidados, imprudentes. No shopping center, as cenas se repetem, seja para passar uns pelos outros no corredor, para estacionar veículos, para buscar um lugar em alguma fila no cinema, elevador, praça de alimentação. Vejo vizinhos nada interessados em respeitarem-se, com seu som alto ou festas além dos horários definidos pela lei do silêncio, carros mal estacionados ou que tratam o espaço público como fosse extensão de sua casa.
E, com o advento das redes sociais e a democratização do acesso à internet, os diálogos acabam maximizando as disputas, os embates e as contrariedades, entre pessoas que sequer se conhecem, ou o que sabem umas das outras, é a foto de perfil ou algumas publicações da linha do tempo. Inferem-se interpretações, conceitos, personalidades, de uns e de outros, a partir de uma frase mal interpretada, uma imagem que contrarie nossa filosofia, gostos ou preferências, de amplo espectro, e a agressividade ocupa grande parte dos “diálogos” de surdos que se estabelecem. Com o gravame de, por serem “frias” (escritas, publicadas) as opiniões acabam ganhando a “cor”, o “sabor” e a “temperatura” do estado psíquico e emocional do leitor.
Os exemplos negativos são muitos, mas os que listamos acima, penso, sejam suficientes. Vivemos em iminente belicosidade, prontos para saltar em cima de quem não atue conforme desejamos ou contra alguém que repreenda ou proteste contra sua má educação ou falta de ética de convivência.
Se Paul se inspirou num poema que era ambientado nos dias anteriores à primeira Grande Guerra (1914-1918), parece-nos que vivemos entre pequenas guerras, todos os dias. E uma minúscula faísca pode detonar um barril de pólvora. E os efeitos ou resultados, podem ser muito danosos para os envolvidos. Num momento de extrema emoção, de destempero, de reação impulsiva, quantos podem ser prejudicados?
A letra da poesia musical do eterno Beatle, “Sir Macca”, é recheada de expressões que têm muito a ver com a atualidade, em que a Humanidade ainda engatinha nas expressões de tolerância e fraternidade. Ele lembra ser necessário que nos preocupemos com as crianças (educação) para dar a elas informação, conhecimento, orientações, mas, sobretudo, exemplos de boa e fraterna convivência, para que elas possam realmente aprender.
McCartney acentua que a Humanidade não é obra “de um dia”, e é necessário igualar as pessoas, quando ele diz que as pessoas são umas iguais às outras, como eu e você (que me lê). E finaliza: “Quem salvará o planeta em que vivemos?”, isto é, quem poderá alterar as rotas de colisão, transformando-as em compreensão e respeito?
É a pergunta que me faço.
E, também, faço a você, leitor. Cada um de nós é chamado, onde e com quem estiver, a “fumar” os cachimbos da paz!
Imagem de Turiano L P Neto por Pixabay




