Sobre Oxóssi e São Sebastião, por Márcio Sales Saraiva

Tempo de leitura: 4 minutos

Márcio Sales Saraiva

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A Umbanda, ao contrário, nasce da mistura. E isso faz dela uma religião antifundamentalista por excelência: ela não precisa destruir o outro para afirmar sua verdade. Mas, nem eu nem você precisamos ser de Umbanda, nem sequer ter uma fé religiosa, para reconhecer o valor humano e democrático desse legado. Basta enxergar que uma sociedade justa, plural e emancipada depende da capacidade de conviver com o diferente sem transformá-lo em inimigo.

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A Umbanda tem muitas formas de contar sua origem. E isso já diz muito sobre ela. Para muitos umbandistas, a religião nasce oficialmente em 1908, com Zélio Fernandino de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. É uma narrativa forte, que dá identidade, memória e sentido a um povo. Mas há também um olhar histórico: para pesquisadores, a Umbanda foi surgindo aos poucos, especialmente no começo do século XX, no Rio e em outras cidades, reorganizando práticas populares de cura e mediunidade. Ela costura influências diversas e transforma isso em força.

Essa religião se forma no encontro de tradições. É uma espiritualidade híbrida. E aqui é importante dizer com clareza: essa hibridez não é bagunça nem falta de fé. É beleza. É uma forma de inteligência cultural. A Umbanda consegue juntar catolicismo popular, religiosidades afro-indígenas, kardecismo e até elementos de esoterismo. Ela canta, reza, incorpora, benze, defuma, usa folhas, vela, pontos riscados e atabaques. Ela tem estética, corpo, palavra e símbolo. Ela é, no melhor sentido, uma religião brasileira: complexa como o próprio Brasil.

Por isso, a Umbanda pode ser vista como uma religião “pós-moderna”: ela não precisa de pureza para existir. Não precisa dizer “só eu salvo”. Não precisa decretar que o diferente é inimigo. Ela consegue reconhecer que a vida tem muitas linguagens e que há várias formas de se conectar ao sagrado. Num mundo cada vez mais dividido por ódios, isso é um valor moral e civilizatório.

Hoje cresce no Brasil e no mundo uma religiosidade autoritária. Ela costuma andar de mãos dadas com a extrema-direita, com o nacionalismo religioso e com ideias rígidas de pureza. O problema desse tipo de religião não é ter fé, pois fé é coisa legítima e importante pra muita gente. O problema é quando a fé vira arma. Quando vira projeto de poder econômico-político. Quando transforma o diferente em ameaça. Quando usa Deus para humilhar, perseguir ou calar os outros.

Ideias de pureza quase sempre escondem violência. Foi em nome da “pureza” que se justificaram racismo, colonização, escravidão e nazifascismo. Foi em nome da “pureza” que se tentou apagar línguas, tambores e ancestralidades. Foi em nome da “pureza” que muitos terreiros foram atacados. A Umbanda, ao contrário, nasce da mistura. E isso faz dela uma religião antifundamentalista por excelência: ela não precisa destruir o outro para afirmar sua verdade.

No Rio de Janeiro, a festa de São Sebastião é um bom exemplo de convivência espiritual. Para muitos, São Sebastião se confunde com Oxóssi, o senhor das matas, da fartura e do sustento. Na cidade, a devoção atravessa fronteiras e cria pontes. Mas é preciso falar a verdade: o sincretismo tem beleza, sim, mas tem ferida também. Durante a escravidão e após ela, o catolicismo foi imposto a africanos e descendentes. Misturar santos e orixás foi, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência. Foi resistência. Foi a malandragem contra a violência do catolicismo do colonizador.

Na minha clínica, vejo algo parecido em outro plano. Maturidade não é virar “puro” nem “sem contradições”. Maturidade é suportar a diferença. É tolerar alteridade. É aceitar que o outro existe, pensa diferente, acredita diferente. Já o exclusivismo religioso costuma nascer de uma onipotência narcísica: “só eu estou certo”, “só minha fé presta”, “tudo que é diferente é do mal”. Essa lógica é regressivamente infantil. Ela protege o sujeito do medo e da angústia, mas cobra um preço: apaga a empatia, destrói o diálogo e alimenta a violência contra o laço social.

A Umbanda, quando se mantém em suas raízes, ensina exatamente o contrário. Ela é uma pedagogia do cuidado. Ela acolhe quem sofre. Ela sustenta quem caiu. Ela dá lugar a quem não tem lugar. E ela lembra algo que deveria ser óbvio, mas anda raro: o sagrado não é propriedade de ninguém. O sagrado é encontro. E num tempo em que o ódio cresce e a democracia se fragiliza, defender a convivência é também uma forma de fé, de aposta na vida, em Eros.

E vale sublinhar uma coisa simples: nem eu nem você precisamos ser de Umbanda, nem sequer ter uma fé religiosa, para reconhecer o valor humano e democrático desse legado. Basta enxergar que uma sociedade justa, plural e emancipada depende da capacidade de conviver com o diferente sem transformá-lo em inimigo. Quando uma religião consegue ensinar isso, na prática, ela está, de algum modo, prestando um serviço público à vida e fortalecendo a construção de uma democracia em que o bem comum valha mais do que o capital.

Nota do ECK: Neste 20 de janeiro se comemora o “Dia de S. Sebastião”. O santo católico e a efeméride umbandista dão nome a uma das capitais do Brasil, em sua história como nação autônoma e independente: o Rio de Janeiro (RJ). No Catolicismo, é um mártir do século III, soldado romano, capitão do Império que consolava, de maneira secreta, os cristãos que eram perseguidos. Na Umbanda, ele é Oxóssi, o orixá da caça, da fartura, da sabedoria e guardião das matas.

Imagem – Rio de Janeiro (RJ), 20/01/2026 – Fieis comparecem à missa para São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, presidida pelo cardeal Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, no Santuário Basílica de São Sebastião, na Tijuca, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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2 thoughts on “Sobre Oxóssi e São Sebastião, por Márcio Sales Saraiva

  1. Que texto bom de ler. Essa beleza que a Umbanda traz de ancestralidade e história é preciso falar, resgatar. O aprendizado de convivência,das diferenças , tolerância, essa mistura boa que é tão nossa.

  2. Excelente texto!
    Conheço muito pouco da Umbanda, mas já tive “encontros” interessantes com algumas entidades, sempre cheio de amor e cuidado.
    São Sebastião também é o padroeiro da comunidade LGBT.
    A Umbanda acolhe de forma muito bonita essa comunidade, um exemplo de amor.