Ilusões e desilusões doutrinárias, por Carlos de Brito Imbassahy

Tempo de leitura: 6 minutos

Carlos de Brito Imbassahy (in memoriam)

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Por que não se separar os conceitos e irmanar no sentido mais do que fraterno de coexistência pacífica, cada qual adotando seus princípios filosóficos, sem um conspurcar o outro com ataques de dissidências?

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Nasci em berço espírita e desde meus primeiros entendimentos infantis aprendi a conviver com a filosofia reencarnacionista e achar normal a comunicabilidade com os desencarnados. Contudo, minha mãe, de formação católica, ex-“Filha de Maria” trazia, ainda, graves resquícios da sua formação católica que acabaram influindo em muitas decisões minhas, a respeito da vida que eu levei.

Jovem, ainda, assisti a inúmeras reuniões mediúnicas realizadas na casa paterna e, também, as que ocorriam na Federação Espírita do Rio de Janeira, sob a presidência de Dona Marocas, senhora austera e de grande domínio doutrinário. Minha mãe, por ser médium e ter vindo para a doutrina trazida por um processo obsessivo, tinha muito medo de que fosse novamente afetada pelo mesmo. Daí, julgar de suma importância participar da ditas reuniões. Falece dona Marocas e pediram a papai para assumir seu lugar. Com isso, ele optou por transferir as reuniões e elas vieram a ocorrer somente em nossa casa.

Mais para adiante, surgiram dona Alice e o Tenente Luís, médiuns psicofônicos inconscientes, os quais trouxeram para a sessão um novo ânimo, ante as identificações de pessoas falecidas que, por ambos, se manifestavam. Muitos desses casos eu os narro em livros e artigos, e isto foi a grande base para que eu não mais duvidasse da existência do fenômeno e da intercomunicabilidade mediúnica com os ditos “falecidos”.

Por essa época, ingressei na então Faculdade de Filosofia, no curso de Ciências Exatas e, de imediato, como tivesse grande facilidade de redação, além de pertencer a um grupo de “focas” da revista Manchete, ingressei no movimento estudantil, fazendo parte da bancada de nossa faculdade.

Na época, o elegante era ser revolucionário no sentido literal das idéias, ou seja, defender uma linha filosófica de reforma social, derivada de um pragmatismo altamente influenciado por William James, na busca do que seja útil ao homem. E, ao lado dessas teorias, imperava um materialismo crucial. Empolguei-me e só não saí da linha doutrinária espírita porque, vendo minha transformação, meu pai teve o esmerado cuidado de manter diálogo franco comigo, onde as indagações que me dirigiu não encontravam resposta dentro da filosofia de meus colegas.

Contudo, aquela influência mudou minha conduta: se, por um lado, eu trazia as tendências maternas da mentalidade cristã da igreja, pelo outro, minha razão falava mais alto em não aceitar aquela influência altamente perniciosa que o Catolicismo exercia sobre nossa sociedade.

Cedo, fui lecionar, convidado para dar aula em um Colégio da Campanha, com registro provisório de aluno, já no Curso de Didática. Naquela época, eu também estudava na Escola Nacional de Música, da rua do Passeio, tendo muito destaque por parte de meus professores. Se o músico tivesse um bom meio de sustentação financeira, eu não teria me enveredado pela carreira de professor, que acabei seguindo.

Fui trabalhar no “Diário do Comércio”, em Niterói (RJ) e conheci o lado bom e o lado podre da nossa Imprensa. Aprendi muito na mesa de uma redação de jornal. Havia deixado à parte meus estudos doutrinários e não fosse o doutor Lauro Schleder, então diretor do “Mundo Espírita”, insistir comigo para que mantivesse uma coluna de crônicas, no periódico mensal que ele dirigia, talvez eu ali tivesse largado as letras espíritas.

Com as bases do curso superior, foi-me fácil passar no vestibular para Engenharia. Nesta época a Escola era estadual e, daí, para me tornar estagiário do Governo do Rio de Janeiro, foi um passo. Como sempre fui aluno de Escola e Faculdade do Governo, não pesei no bolso do meu pai, que, então, não se furtou de me dar todo apoio ao estudo.

A Física mudou totalmente a minha mentalidade e comecei a ver que as religiões, em si, representavam o maior atraso possível na mentalidade do povo porque incutiam uma fé e uma crença cujo único objetivo era o de prender o fiel e crente aos vínculos dos seus respectivos tempos religiosos, ensinando erroneamente o Timor Domini [2] para que, visando a um lugar no céu hipotético religioso, o adepto ficasse preso aos princípios de sua Igreja ou templo.

No ocidente, onde vivemos, a Igreja, dita cristã, não difere das demais: segue rigorosamente os mesmos princípios religiosos de garantir que o seu Mestre – no caso, ficticiamente, Jesus Cristo – seria o único verdadeiro que “salvaria” aqueles que o aceitassem, de corpo e Espírito e em essência. Salvar de quê? Do Pecado Original, já que não havia outra culpa que pudesse ser imputada ao fiel seguidor do Cristianismo. Tudo isso, evidentemente, inaceitável para meu raciocínio. Não podia conceber privilégios para os que seguissem fielmente as determinações eclesiásticas, independentemente de sua conduta e de suas ações.

O Espiritismo que eu conhecia negava tudo isso. Estava contido nas obras de Kardec, embora eu tivesse a ousadia de discordar de muitos pontos codificados por ele, principalmente aqueles mais intimamente ligados ao Cristianismo. Contudo, baseado nas próprias definições dadas por Kardec em sua obra “O que é o Espiritismo”, para mim, aquele que seguisse esta doutrina jamais poderia aceitar o evangelismo eclesiástico imposto pela Igreja.

Foi minha primeira e grave desilusão: com mensagens mediúnicas de Emmanuel e Joanna de Ângelis, os espíritas começaram a transformar o Espiritismo em mais uma seita evangélica, legando a segundo plano não só a prudente filosofia espírita de vida, como ainda as provas fenomênicas da existência de uma vida espiritual verdadeira. Tudo completamente diferente daquele contexto que o Cristianismo e o Espiritismo Cristão, com Emmanuel e de Ângelis estavam pregando.

Mas o que fui verificando, aos poucos, é que imperava esta mentalidade: não respeitavam mais Kardec e, para os seguidores do tal “Cristianismo Redivivo”, nada mais teria valor senão a salvação por Cristo, o exemplo de vida e o grande Mestre responsável pelo nosso planeta (o “governador”). Só não consegui entender porque Jesus seria este Cristo, negando os demais povos que não tinham ou tiveram a oportunidade de o conhecer e que, sem dúvida, é a maior parte da população planetária.

Na minha parca opinião, estes neo-espíritas deveriam constituir sua própria doutrina que nós, os verdadeiros seguidores de Kardec, respeitaríamos e que evitaria tumultuar a formação doutrinária e a linha de pensamento do verdadeiro Espiritismo.

Todavia, lembrei-me que, quando ainda bem jovem, numa das sessões mediúnicas que assisti, um Espírito muito amigo de meu pai, porque fora companheiro dele, quando encarnado, no movimento espírita do Rio de Janeiro, deu uma comunicação psicofônica dizendo ao velho companheiro que os jesuítas, maiores inimigos, na Espiritualidade, da codificação, estavam armando uma nova artimanha para desconfigurar a doutrina codificada por Kardec, numa tentativa de transformá-la em mais uma seita evangélica, o que acabaria com os fundamentos verdadeiramente espíritas.

Curioso: Emmanuel foi um padre Jesuíta. Estranho: a tendência atual do movimento espírita no Brasil é de transformá-lo numa seita cristã, adotando, até, os dogmas do Cristianismo, tendo Jesus como Salvador e único.

De fato, o Espiritismo que conheci, de berço, era um; este que tem imperado em nosso movimento, é outro. E tudo pode se harmonizar, desde que os fanáticos não se tornem tão intransigentes: basta que se considere como Espiritismo, apenas, a codificação kardequiana e que se criem novas doutrinas para os demais seguidores.

O Emmanuelismo seria muito bem-vindo se não quisesse impor seus preceitos com espíritas. O Roustainguismo, apesar da sua mediocridade de princípios docetistas, poderia coexistir pacificamente em qualquer lugar, com seus adeptos, desde que eles não se tivessem como seguidores de Kardec, tentando “evangelizar” nosso meio com estultices de um ser “fluídico”, imaterial, contrariando tudo o que a Ciência, até o presente momento, conhece.

Por que não harmonizarmos a coexistência de todos, separando os “credos”?

Espiritismo, de um lado, com Kardec, sem qualquer influência estranha.    Evangelismo,   com Emmanuel e Joana de Ângelis, separadamente, tendo como escopo o Cristianismo igrejista dos jesuítas. Roustainguismo, com o docetismo, sem qualquer vínculo com o Espiritismo. Enfim, e qualquer outra crença que queira subsistir, separadamente, sem se imiscuir com os fundamentos do Espiritismo, tal como fazem os Umbandistas.

E viva os Umbandistas!  Eles estão certíssimos. Estudam Kardec como decorrência fenomênica, mas, mantêm-se fiéis a seus princípios próprios, respeitando-nos e esperando ser por nós respeitados.

Por que não se separar os conceitos e irmanar no sentido mais do que fraterno de coexistência pacífica, cada qual adotando seus princípios filosóficos, sem um conspurcar o outro com ataques de dissidências?

O Espiritismo permanecerá com suas características próprias e os demais adotarão uma nova linha de conduta, como fez o Dr. Randolpho Penna Ribas, em tempos idos, quando quis instituir novos princípios doutrinários, para que não interferisse no movimento fiel a Kardec.

Esta é a minha grande decepção: imporem suas vontades e suas idéias como sendo as espíritas, no lugar do que Kardec tenha escrito. A isto dá-se o nome de intolerância.  E Kardec admite, até, que o Espiritismo possa ser seguido pelos que se oponham ao Cristianismo.

Notas do ECK:

[1] Artigo originalmente publicado na versão impressa da Revisa de Cultura Espírita Harmonia, Ano XX, N. 150, Março de 2007.

[2] Timor Domini é o temor do Senhor, isto é o medo de Deus, provérbio que sugere a reverência e o respeito temeroso por Deus, como fundamento para o conhecimento e a sabedoria. A fonte é a Vulgata (versão latina da Bíblia, única reconhecida como canônica pelo Concílio de Trento, em Provérbios, IX, 10. Fonte: Priberam. (2025). Initium Sapientiae, Timor Domini. “Dicionário Priberam da Língua Portuguesa”. 2008-2025. Disponível em: <https://dicionario.priberam.org/initium%20sapientiae,%20timor%20domini >. Acesso em 14. Nov. 2025.

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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