Conselho Editorial
A desenvoltura com que Allan Kardec concebeu, estruturou e edificou, sucessivamente, a partir da análise das comunicações mediúnicas, das discussões sediadas em instituições e grupos espiritistas do seu tempo e da observação dos conceitos filosóficos e científicos que caracterizaram o tempo-espaço em que ele conviveu, demonstram a excelência de sua proposta, inclusive em termos de permanência: eficiência e eficácia.
Sim, porque ao se afastar do dogmatismo imobilista – que é característico das igrejas em geral ― caracterizado pela oposição sistemática a qualquer inovação ou progresso conceitual e prático, o Professor francês sempre sugeriu duas premissas inafastáveis para a Doutrina dos Espíritos: 1) que houvesse continuidade no intercâmbio com as Inteligências Invisíveis, para receber novos informes e os submetê-los à lógica racional e a crítica sob a fundamentação principiológica espiritista; e, 2) que os espíritas se mantivessem em permanente aproximação com os conhecimentos filosóficos e científicos produzidos pela Humanidade.
Eis o porquê de abrirmos esta edição derradeira de 2025, com “Por um Método Comunicativo Espírita: o Dialógico, o Dialético e o Contraditório ― caminhos para o real entendimento”. Nele, Marcelo Henrique propugna, para a Comunicação Espírita, “uma importante ruptura, no presente, em relação à tradição e à cultura convencional dos espíritas em geral”, valorizando a autenticidade e a franqueza dos espíritas nas interlocuções entre si e com os não-espíritas. Então, “para que o Método Comunicativo Espírita seja realmente praticado, que haja o Dialógico, o Dialético e o Contraditório”, sem o que não há (haverá) salvação (para o Espiritismo, claro!).
Na sequência, Ruy Marcelo postula acerca da “encruzilhada” em que, internamente, os espíritas se encontram, no seu “O desprezo à metodologia de Kardec: a formação mediúnica em crise”. Aponta ele que, em face de uma costumeira e (já) permanente negligência dos “operadores mediúnicos” e dos dirigentes em geral, que abandonaram os fundamentos da comunicabilidade medianímica, segundo Kardec, para “se reduzir a fenômenos desconexos ou a mensagens genéricas”, enquanto Espiritismo prático, afastando-se, assim e lamentavelmente, do “campo de experimentação lúcida, de educação espiritual e de construção moral”, a que se destinava e destina.
Na metáfora acerca do destino até Roma, Wilson Garcia exemplifica que o percurso espírita carece, para as já citadas eficiência e eficácia, de quatro vias: “a ciência, que ensina a ver; a filosofia, que ensina a compreender; o bom senso, que ensina a agir” e “a ética [que] precisa dialogar com o sentido da existência — aquilo que a filosofia interroga e a espiritualidade nomeia como finalidade. Leia-se “ Qual é a tua Roma? Todos os caminhos levam a Roma? Uma reflexão sobre escolhas, ética e maturidade espiritual”, para compreender que a cidade italiana não é um lugar (ponto fixo), mas um “estado de lucidez que se renova quando preferimos a verdade ao conforto, a responsabilidade ao hábito e o espírito ao medo”.
Ademais, visando não um lugar, nem um momento temporal, mas um estado permanente ― e progressivo, porque senão não seria espiritual ― Wilson Custódio elenca em “Livre-Arbítrio e Escolhas: Reflexão Espírita sobre Consciência e Responsabilidade” o indiscutível paradigma espiritual-espírita: “O verdadeiro progresso não nasce da imposição, mas da escolha consciente pelo bem — aquela que liberta, eleva e transforma”. E, nesta senda, “o livre-arbítrio não é um direito absoluto, mas uma oportunidade contínua de cooperar com o bem e promover a harmonia universal”, já que as decisões do Ser, individualmente falando, ecoam “na coletividade espiritual, porque o Espírito, ainda que encarnado, participa ativamente da obra divina”.
E, como o “ser espírita” não pode estar alheio ao conjunto social planetário do quadrante temporal em que todos nos encontramos, é preciso, no exercício ― já caracterizado, de início, dialógico, dialético e contraditório ― buscar a “conciliação entre a visão espírita e as teorias econômicas”, com seus pontos de convergência e de tensão, numa “compreensão ampliada da realidade”. Porque o sentido teleológico do Espiritismo – a transformação moral, individual e coletiva (social) ― é essencial para erradicar as causas profundas da desigualdade ― o egoísmo, o orgulho e a indiferença, mas não dispensa, pelo contrário, complementa e fortalece os instrumentos sociais, políticos e econômicos que buscam corrigir injustiças e promover o bem-estar coletivo”. É o que advoga Leonardo Paixão, em seu “Desigualdade das Riquezas: Uma Leitura Espírita à Luz das Teorias Econômicas Contemporâneas”. Finaliza o articulista com uma provocação ético-finalística do Espiritismo, que “não é uma doutrina de conformismo social, mas de responsabilidade. Enquanto convoca à transformação íntima, também conclama à construção de uma sociedade mais justa, solidária e fraterna, onde a lei de caridade se manifeste não apenas nas relações pessoais, mas também nas estruturas econômicas, políticas e sociais”.
Na esteira do resgate da real proposta espiritista-kardeciana, João Afonso G. Filho, em “A Morte das Religiões e o Desafio do Meio Espírita Contemporâneo”, seguindo Allan Kardec e, mais especificamente, Herculano Pires, pontua que as religiões em geral seguem agonizando ― e isto não é diferente com a “religião espírita” ou o Espiritismo encarado como religião, porque se dissociaram completamente da proposta de elevação moral dos indivíduos e coletividades para abraçarem, com entusiasmo, a condição de detentores de um poder, ao mesmo tempo, econômico, político e social. Daí, mesmo em espectro reduzido, tendo como referência o pequeno número de espíritas no Brasil e no planeta, apresentarem-se, as instituições espíritas “como um poder centralizador que neutraliza a ação criativa”, totalmente dissociadas da diretriz kardequiana de serem “propostas de renovação moral e cultural”.
Concluindo esta edição, Marco Milani realiza, na prática, a Comunicação Espírita por excelência, diante do conhecimento científico expresso por expoentes das ciências da atualidade, confrontando-os com a mesma metodologia de Kardec ― expressa em “O que é o Espiritismo” ― isto é, dentro das balizas do Dialógico, do Dialético e do Contraditório. No seu “A refutação espírita à falácia de Dawkins”, apresenta elementos kardecianos de contestação das ideias de distintos pesquisadores do empirismo científico, para apresentar provas e razões de sua invalidade, falsidade ou inconsistência. Isto de forma elementar: “O Espiritismo, ao restituir a dimensão racional do princípio criador, evita tanto o fideísmo quanto o materialismo, afirmando que a ciência explica os meios, mas não a origem dos fins. A ideia de Deus como causa primária não nega as descobertas científicas; apenas recorda que nenhuma lei se explica a si mesma”.
Esta edição, portanto, sugere, reafirma e nos endereça a uma renovada práxis espiritista, que contempla os seguintes passos, conciliados entre si: 1) estudar o Espiritismo a partir de suas bases fundantes e principiológicas; 2) valorizar o debate (dialógico, dialético e contraditório) das ideias que sejam do interesse do Espiritismo; 3) acompanhar, o mais proximamente possível, o que os conhecimentos das ciências e filosofias da atualidade estejam apresentando; 4) aproximar-se dos núcleos acadêmicos e de pesquisa científica, para o necessário colóquio horizontal e sem subserviências; e, 5) contribuir, nestes foros e na sociedade em geral, com o conhecimento espiritual-espírita para o deslinde de qualquer temática de interesse espiritual-planetário.
E que o sabor da leitura ― inclusive com as necessárias críticas derivadas da consciência e da lógica raciona de cada leitor ― contribuam para um meio espírita, com seus grupos e instituições, mais aberto à prática do intercâmbio dialógico, dialético e contraditório, distante de qualquer argumento de autoridade ou pretensa superioridade que uma ideia de mera “revelação divina” possa indicar. Porque a obra espírita, considerados os elementos naturais e os transcendentes, é humana, ainda que o divino esteja em tudo!
Imagem de Kohji Asakawa por Pixabay

Dezembro de 2025

ACESSE: Harmonia – Dezembro 2025




