É fascinação, amor!, por Marcelo Teixeira

Tempo de leitura: 6 minutos

Marcelo Teixeira

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A fascinação me leva a deduzir que, talvez, ela seja mais comum do que se pensa. Em nossas vivências com todo tipo de pessoas, decerto já nos deparamos com gente fascinada dos mais diversos matizes.

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Certa vez, fui escalado para fazer uma palestra sobre a obsessão e seus meandros. Como não sou “expert” em mediunidade e não participo de reuniões mediúnicas, fiquei reticente quanto o caminho que iria seguir para elaborar a explanação de quase uma hora. A base literária mais óbvia seria, decerto, “O livro dos Médiuns”, publicada em 1861 por Allan Kardec e que estudei junto com os jovens no período em que fui evangelizador de mocidade. Decidi, portanto, que iria pelo caminho das informações básicas. Mesmo porque, em reuniões públicas doutrinárias, sempre há um público diverso, incluindo os que estão indo a um centro espírita pela primeira vez.

Comecei pela definição que Kardec (1998) dá à obsessão: domínio que alguns Espíritos desencarnados conseguem adquirir sobre certas pessoas. E como se dá esse domínio? Por meio de obsessão simples, fascinação e subjugação.

Vou passar rápido pela obsessão simples e pela subjugação, já que o objeto de análise deste artigo é a fascinação. Obsessão simples é quando Espíritos sofredores ou de baixo padrão moral se aproximam de nós e acabam nos perturbando, seja de forma intencional ou não. Neste quesito, me vem à mente uma estória que ouvi, há muitos anos, do expositor Rogério Coelho, de MG. Vamos a ela…

Um casal recém-casado não estava conseguindo consumar o casamento. O rapaz, que era espírita, achou estranho e colocou o nome dele e da esposa na reunião mediúnica. Quem se manifestou? Um ex-noivo dela, homem extremamente ciumento que morrera num acidente de moto semanas antes do casamento, fato ocorrido cerca de três anos antes. O ciúme e o apego eram tantos que, embora não fizesse mais parte do mundo dos vivos, o antigo noivo se interpunha espiritualmente entre marido e mulher na hora da relação sexual, o que acabava cortando o clima entre ambos. Felizmente, uma conversa repleta de cuidado e carinho durante a reunião mediúnica fez o motoqueiro compreender que havia desencarnado e que precisava seguir novos rumos – agora na vida espiritual – e deixar a outrora noiva reconstruir a vida afetiva aqui na Terra.

A subjugação, como o próprio nome diz, é quando o Espírito controla a vontade da vítima. Pode ser moral ou corporal. Muitas vezes, o subjugado é levado a agir ou tomar decisões absurdas como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Há muitos anos, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro, presenciei uma cena que me entristeceu. No cruzamento de duas movimentadas avenidas, um homem de paletó e gravata regia o vai-e-vem de veículos como se estivesse comandando uma orquestra. Compenetradíssimo e como se estivesse empunhando uma batuta, ele nem piscava. Simplesmente regia os carros, ônibus, caminhões e motocicletas. Fiquei cortado de pena. A olho nu, uma pessoa com sérios transtornos psíquicos. Mas aos olhos além da matéria, provavelmente um homem subjugado por Espíritos mal-intencionados.

Mas vamos à fascinação, que é quando, segundo “O livro dos Médiuns”, o médium – quer ele tenha ou não conhecimento das coisas do Espírito – se deixa fascinar (Kardec, 1998). Assim, Espíritos obsessores, de forma zombeteira, paralisam o raciocínio desse médium e o fazem acreditar que ele tem uma missão pra lá de grandiosa, fazem-no se vestir de forma extravagante, etc. Trata-se de um ou mais Espíritos embusteiros que inspiram confiança cega ao médium e causam uma série de estragos não só na vida dele, como também na de seus prováveis seguidores: gente crédula e carente, em geral. Quem tiver curiosidade em conhecer um caso assim em detalhes, recomendo ler sobre o pastor Jim Jones, criador de uma seita chamada Templo Popular. Em 1978, na Guiana, ele levou 918 pessoas a cometerem suicídio ou a matarem umas às outras numa comunidade por ele fundada e isolada do resto do mundo (BBC Brasil, 2018).

A fascinação, no entanto, me leva a deduzir que, talvez, ela seja mais comum do que se pensa. Em nossas vivências com todo tipo de pessoas, decerto já nos deparamos com gente fascinada dos mais diversos matizes.

Maria Lúcia (nome fictício), amiga da minha família, teve uma filha, no início da década de 1980, de um homem, então separado, que, segundo ela mesma conta, nunca deu muita atenção à menina. O tempo passou, a menina (a quem chamarei de Tatiana) virou mulher e o tempo, pelo visto, não passou para as duas. Digo isso porque, no início deste século, numa tarde de sábado, fui ao centro da cidade resolver uma série de demandas. Entre elas, cortar o cabelo. Só que tive o infortúnio de encontrar Maria Lúcia e, educadamente, lhe dar atenção.

Ela desfiou um rosário de lamentações e carências acerca da filha, da própria situação afetiva, lamentou o fato de o pai da Tatiana ser omisso… Passaram-se 10, 20, 30, 40 minutos e eu lá, em pé, vendo uma mulher fascinada pela própria carência tomando meu tempo e eu sem poder sair fora. Quando, finalmente, ela encerrou o assunto e se despediu, percebi que teria de adiar muito do que eu tinha ido fazer.

Tempos depois, durante uma enchente (algo típico aqui da Região Serrana do RJ), Joana, uma amiga em comum, ficou ilhada justamente na rua onde Maria Lúcia mora. Como nossa triste personagem havia descido para comprar pão, encontrou Joana e a convidou para passar a noite lá, já que as águas não baixariam tão cedo. Joana foi obrigada a ouvir a mesma ladainha de lamúrias, acrescidas de choro. Quando o dia amanheceu, deu graças a Deus por voltar para casa. Faço ideia como deve ter sido essa noite regada a lamentos e chororôs de uma mulher fascinada pela própria carência e que, decerto, ninguém deve ter mais condições de aguentar. Afinal – e isso eu soube por amigos em comum – Maria Lúcia continua do mesmo jeito.

Depois desse episódio, passei a prestar atenção nas estórias sobre pessoas que adoram falar sobre doenças, do quanto fulano ou sicrana sofreu no pós-operatório, de quantos pontos levou, de como os efeitos colaterais de um medicamento afetaram o metabolismo, blábláblá. Tudo com riqueza de detalhes e requintes de masoquismo que ninguém aguenta ouvir. E também daquelas pessoas que perderam um ente querido há anos e, até hoje, choram a perda e contam à exaustão como foram os momentos antes do desenlace. Pode ser que eu esteja sendo descaridoso, mas acredito que esse tipo de comportamento tem traços sérios de fascinação. São pessoas fascinadas por luto, dor, doença, carência e que acabam cansando a beleza de quem está à volta.

Nesses casos, recomendo agir com tato e, com carinho e caridade, fazer a pessoa perceber que ela está se tornando chata e que precisa mudar. Como diz Cezar Said no livro “Conversando com você”, todos temos carências e é saudável repartirmos o que sentimos com alguém de confiança, mas sempre com o cuidado de não alugarmos o próximo e criarmos nocivas dependências (Said, 1999).

E se a pessoa ficar ofendida com o nosso “toque”? Problema dela! O que não podemos é deixar que as Marias Lúcias da vida perturbem incessantemente a nós e aos outros. Senão, corremos o risco de nos tornarmos algozes de nós mesmos. E isso não é ser bom. Cuidado para não confundirmos falta de energia com bondade. Idem em relação a ser enérgico com ser grosseiro. Podemos usar de energia com doçura, mas sem perdermos a firmeza. É um aprendizado que pode, inclusive, tirar muita gente inconveniente de transes fascinantes, ou seja, de Espíritos a quem se vinculam por insistirem em se fixarem em assuntos negativos.

Indo para o campo coletivo, encontramos a turma que insiste em achar que a Terra é plana, que estamos prestes a ser invadidos por hordas de comunistas, que banheiros unissex serão instalados em escolas, que um lamentável ex-presidente preso por tentativa de golpe de estado é o messias enviado por Deus, que a Lei Rouanet é uma mamata para artistas vagabundos… E para dar vazão ao que acreditam, entopem as redes sociais com toda sorte de sandices, rezam para pneus, gritam e marcham pelas ruas…

Esse tipo de comportamento, o psicanalista Hélio Pelegrino chamou de burrice do demônio. Diz ele, que a burrice do demônio não seria a ausência de inteligência, mas representaria uma recusa ativa acerca da realidade, numa atitude de escolha de justificação do injustificável (Pelegrino, 1988). Por mais que apresentemos provas e argumentos sólidos que desmintam crenças e temores infundados, as pessoas se negam a aceitá-los. Talvez por medo de verem ruir o castelo de cartas e o grupo ao qual se filiaram, o que pode significar perda da identidade coletiva e da sensação de pertencimento. Por isso, preferem ficar atreladas ao mundo que criaram para si próprias. Isso, convenhamos, é um prato cheio para espíritos galhofeiros e inimigos do progresso, que se locupletam em fazer esse povo de gato e sapato.

Por tudo isso é que acredito ser a fascinação mais comum do que se imagina. Da próxima vez que nos depararmos com gente que só fala em doença, morte, solidão, carência ou que se deixa utilizar como massa de manobra de gente mal-intencionada, fiquemos atentos. No caso do Brasil, vários fatores influem: baixa escolaridade, falta de consciência de classe e de memória histórica, por exemplo. No entanto, parafraseando aquela bela canção eternizada na voz de Elis Regina, acrescento: “és fascinação, amor!”.

Fontes:

BBC Brasil. (2018). Jonestown, 40 anos: o que levou ao maior suicídio coletivo da história. 19. Nov. 20218. “BBC News Brasil”. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/geral-46258859>. Acesso em 23. Jan. 2025.

Kardec, A. (1998). “O livro dos Médiuns”. Trad. J. Herculano Pires. 20. Ed. São Paulo: LAKE.

Marchetti, F.; Feraudy, M. (1905). “Fascinação”. Trad. Armando Louzada. Disponível em <https://www.letras.mus.br/elis-regina/45673/>. Acesso em 23. Jan. 2025.

Pelegrino, H. (1988). “A burrice do demônio”. Rio de Janeiro: Rocco.

Said, C. B. (1999). “Conversando com você”. Rio de Janeiro: CELD.

 

Imagem de Alexa por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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