Criança não faz palestra espírita, por Gabriel Lopes Garcia

Tempo de leitura: 4 minutos

Gabriel Lopes Garcia

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Adultos infantilizados que passam a idolatrar uma criança… São tantos anos recebendo péssimo conteúdo doutrinário, embalado em romances superficiais, que se agarram a qualquer porcaria que lhes é ofertado como se fosse algo de valor espiritual. A criança-palestrante é um desrespeito com a fase infantil e com o público adulto.

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O meio espírita tradicional está declinante e cada vez mais conservador. Os dados do último Censo [1] mostraram a dura realidade, que implica em perda de poder político e simbólico dentro do mercado religioso. Embora os crentes espíritas se esforcem por diminuir a importância do resultado, fato é que diminuíram os adeptos dessa crença estruturada.

O movimento espírita hegemônico, federativo e institucionalizado, forma hoje uma comunidade ideologicamente envelhecida e temerosa. Face ao risco real de sumir em poucas décadas, observamos a adoção de duas estratégias para tentar reverter a queda vertiginosa de adeptos: a associação com movimentos políticos conservadores e a adoção de práticas neopentecostais.

Os divulgadores massivos do Espiritismo majoritário brasileiro, e as instituições que representavam, nunca foram conflitantes com os interesses da ditadura empresarial-militar, nem com os políticos autoritários de ocasião. Fingiam uma falsa neutralidade, mas essa máscara protetora caiu desde 2013, quando passaram explicitamente a fazer discurso político a favor de partidos e pessoas da extrema direita.

Nesse contexto de envelhecimento e desinteresse dos jovens pela Doutrina Espírita, a tática dos dirigentes é apelar a la evangélicos: sensacionalismo e uso antiético de crianças e jovens “trabalhadores” para tentar cativar os mais novos. A infância e a adolescência estão sendo instrumentalizadas para esse projeto decadente de Espiritismo que se nega a mudar.

Minipastor(a) versão espírita

O avanço neopentecostal tem impactado todas as dimensões da vida do Brasil, sociais, políticas, econômicas, culturais e comportamentais. Na esfera religiosa isso é ainda mais evidente. As táticas de marketing agressivo para expansão acelerada de fiéis provocam a reação de outras religiões que disputam esse campo, e passam a mimetizar cases de sucesso.

A exploração infantil e juvenil é uma das facetas perversas dessa disputa cristã. É fácil encontrar na internet os perfis de crianças pregadoras, com milhões de seguidores. Muitas pregam diante de grandes públicos e falam com os tiques e os truques típicos dos adultos, que lhes ensinam essa arte de manejar as palavras.

Recentemente estamos vendo a introdução dessa prática no meio espírita tradicional, que se cansou do velho discurso de “evangelização” infantil e resolveu apelar também. Afinal, se estão caminhando para a insignificância estatística, o vale-tudo entra em cena. Abandona-se o papo de proteção da criança e se apela para o “protagonismo” de crianças e jovens.

Do lugar de privacidade e aulas didáticas para cada faixa etária, assistimos a permissão para o surgimento de celebridades espíritas mirins. A apelação é evidente para atrair a atenção e aumentar o número de frequentadores. Os direitos das crianças e jovens são deixados em segundo plano em favor da causa maior…

Construindo a personagem

Todos sabemos que os olhos dos pais são excessivamente benevolentes, indulgentes e iludidos sobre a beleza, a inteligência e as habilidades dos próprios filhos. Até certo limite, isso é esperado. No entanto, no tema em discussão, a situação sai completamente do razoável. Os pais, fanatizados, acreditam que seu filho tem uma predisposição única.

Essa bizarrice pode ser vista, por exemplo, em um site [2] de divulgação destes eventos espíritas ruins que se multiplicam há décadas. Fiquei chocado com a naturalidade da exposição de uma criança, que virou um atrativo doutrinário, com direito a currículo espírita, e é tratada como se fosse um prodígio espiritual.

Supostamente o(a) pastor(a) mirim espírita já seria inclinado(a) desde a tenra idade para as tarefas doutrinárias. Essas crianças fazem coisas como entrevistar “renomados” expositores adultos (!) e apresentariam uma “desenvoltura” e “interesse” em “aprofundar” os conhecimentos doutrinários (!!). Daqui a pouco vão entrar nos templos espíritas e confrontar os doutores da lei…

Como se não bastasse isso, essas crianças, aspirantes a celebridade espírita, com atributos espirituais inventados sob medida para serem exploradas por pais e dirigentes, apresentam programas na internet e fazem palestras públicas. Essa situação absurda e ridícula é de responsabilidade compartilhada de vários atores, por ação ou omissão, que examino no tópico seguinte.

A rede de proteção inoperante

O primeiro e principal fator para que essa coisa aconteça é a atuação de pais completamente perdidos no papel de adultos. Quando iludidos apoiam a adultização infantil [3], acreditando que seu rebento é espiritualmente diferenciado, ou são mesmo omissos contra as investidas de outros adultos irresponsáveis, agenciadores inescrupulosos de “talentos espíritas”.

O segundo fator são os trabalhadores de centros, federativas e eventos espíritas. Se não são eles mesmos os instigadores da exploração infantil, são no mínimo cúmplices da situação. Interessados em alimentar uma fé fanatizada e em angariar público, abrem espaço para o “tarefeiro mirim” e divulgam a novidade de forma espetaculosa.

O terceiro fator são os palestrantes convidados para estes mega eventos, que considero coniventes com a situação inadequada. No meu entendimento, eles deveriam se posicionar contrariamente a este abuso das crianças e se negar a participar; deveriam condicionar o seu aceite à retirada da criança como palestrante ou convidada para qualquer trabalho.

O quarto fator é o público espírita infantilizado, sempre em busca de gurus, que acha fofo uma criança prodígio, e começa a tietagem. Adultos infantilizados que passam a idolatrar uma criança… São tantos anos recebendo péssimo conteúdo doutrinário, embalado em romances superficiais, que se agarram a qualquer porcaria que lhes é ofertado como se fosse algo de valor espiritual.

Respeito às crianças e aos adultos

Este é o nível de mediocridade a que se rebaixou o meio espírita tradicional. Usar da apelação tipicamente neopentecostal para tentar sobreviver à extinção iminente e agradar aos novos grupos que dominam o cenário religioso nacional. A criança-palestrante é um desrespeito com a fase infantil e com o público adulto.

O Ministério do Trabalho tem acompanhado mais de perto nos últimos tempos os abusos das igrejas que exploram os pastores mirins, buscando resguardar os direitos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Será que precisaremos fazer denúncias de casos semelhantes no meio espírita, para o poder público tomar as devidas providências de proteção da infância?

Até onde chegarão pais e dirigentes nessa distorção da realidade? O trabalho da criança é brincar e estudar. Criança não faz palestra espírita. Não é fase da vida pra mexer com esse tipo de atividade e nem tem condição cognitiva, emocional, social de fazer isso. Não existe essa criança espiritualmente diferenciada, isso é delírio.

E os adultos espíritas, por favor, se deem o mínimo de respeito. Não bastasse a devoção irrefletida a médiuns, Espíritos e palestrantes, vão idolatrar crianças? Vocês estão tão carentes e ignorantes que vão atribuir autoridade doutrinária a crianças-palestrantes? Gente adulta protege, educa e orienta a infância, e não o contrário. Teoricamente é isso o que se espera.

Referências:

[1] Censo 2022 revela diminuição dos espíritas. Disponível em: <LINK>. Acesso em 30. Nov. 2025.

[2] Conecta Espiritismo. Disponível em: <LINK>. Acesso em 30. Nov. 2025.

 [3] Adultização infantil na internet. Disponível em: <LINK/>. Acesso em 30. Nov. 2025.

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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