Martha Novis
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Há instituições religiosas em geral e, também, espíritas, que evocam a máxima “orai e vigiai”, como uma advertência e um desconvite para as festas e eventos carnavalescos. Entendemos que não é apenas no carnaval que tal diretriz deve ser seguida, mas, sim, ela é cabível para todos os momentos de nossas vidas. Afinal, estamos encarnados em um planeta de provas e expiações, lugar onde, em regra, o mal se sobrepõe ao bem.
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Preliminares
O tema livre arbítrio é muito controverso, filosoficamente falando. Para os gregos, por exemplo, o que existia era o determinismo; logo, não havia por que escolher, já que tudo estava previamente definido. Já para Kant, filósofo alemão iluminista, livre arbítrio significava, de forma resumida, a prerrogativa que cada indivíduo possuía de, a partir de sua lógica, fazer escolhas que o levariam a ser ou não, ético.
Foi a igreja, no entanto, a partir das ideias de Agostinho de Hipona, importante teólogo e filósofo, nos primeiros séculos do Cristianismo, introduziu o conceito da livre escolha baseado nos paradigmas de bem e mal. Afinal, como justificar a existência do Céu e do Inferno, se a ida para um ou para outro não fosse dependente das atitudes humanas? Surgiu aí, então, o referencial de livre arbítrio atrelado à punição e à recompensa (ambas futuras).
A ideia espírita de livre arbítrio
O Professor Rivail – Allan Kardec –, vivendo dentro da era iluminista, seguiu o ideário de Kant, no que se refere à importância da lógica em nossas escolhas. Estas ocorreriam não por temor, mas, como instrumentos do nosso próprio progresso individual e, consequentemente, social.
Para Rivail-Kardec, nós somos os protagonistas de nosso destino e serão nossas escolhas os meios para que o nosso caminho seja mais rápido ou se arraste por séculos, até chegarmos perto da tão sonhada “felicidade relativa”, enquanto integrantes de uma sociedade em que reinem os conceitos de solidariedade, fraternidade e igualdade. Acerca da felicidade relativa que podemos aspirar, na Terra, vide o item 921, de “O livro dos Espíritos” (OLE) e, também, o Capítulo III (“O Céu”), de “O Céu e o Inferno” (OCEOI), ambos de Kardec.
Lembremos também que, numa destas obras, ao perguntar às Inteligências Invisíveis, na questão 843, de OLE, se o homem teria livre arbítrio nos seus atos, responderam os benfeitores: “Pois que tem a liberdade de pensar, tem a de agir. Sem o livre arbítrio, o homem seria uma máquina” (Kardec, 2004:280).
O Carnaval
Eis que, novamente, estamos no período de carnaval. Uma festa popular, marcante na cultura brasileira, com destaque para as artes. Todavia, nele, quantos chamamentos há para os excessos! Poderíamos destacar a publicidade de bebidas, as coberturas das festas de rua e dos desfiles alegóricos, ao lado de campanhas institucionais alertando sobre as drogas, assim como o uso de preservativos…
Como uma marcante festa popular, o carnaval atrai turistas e gera muitos empregos, o que, consequentemente, alavanca a nossa economia e permite, durante todo o ano, considerando o trabalho das grandes sociedades e escolas de samba, empregos, prestação de serviços e comercialização de produtos.
O importante do mote carnavalesco se direciona ao não deixar de rir, se divertir ou brincar com amigos. Mesmo num bar ou numa festa, é possível o diálogo construtivo com outras pessoas e, até, a prática do bem, ouvindo alguém que precisa de acolhimento e consolo, por exemplo.
De outra sorte, não é o lugar ou o meio o mais importante. Nem o período em si. Afinal, o indivíduo pode estar em casa e se deixar levar por pensamentos ruins, nada edificantes. Ou em outros locais que nada tenham de apelos à sensualidade ou à satisfação de prazeres “mundanos”. Os lugares e os elementos materiais são “neutros” em sua natureza. O uso que deles fazemos é que determina o proveito ou a ruína, a felicidade ou a desgraça.
Há instituições religiosas em geral e, também, espíritas, que evocam a máxima “orai e vigiai”, como uma advertência e um desconvite para as festas e eventos carnavalescos. Entendemos que não é apenas no carnaval que tal diretriz deve ser seguida, mas, sim, ela é cabível para todos os momentos de nossas vidas. Afinal, estamos encarnados em um planeta de provas e expiações, lugar onde, em regra, o mal se sobrepõe ao bem. E, em termos de responsabilidade espiritual, nosso compromisso deve ser, pelo uso racional do livre arbítrio, resistir aos atrativos do mal e nos pautarmos no bem. Em todas as situações e locais, portanto.
Neste sentido, um oportuno exercício, como Espíritos de terceira ordem que somos – vide a Escala Espírita, apresentada nos itens 100 e seguintes de OLE – (Kardec, 2004), é não julgar ou demonizar aqueles que gostam do carnaval e seus festejos. Afinal, cada qual com suas escolhas e é somente a nós mesmos que prestamos contas em relação aos nossos atos.
Por fim, considerando que nossas vidas são plenas de altos e baixos, em função de nossos acertos e erros e da vigência da Lei de Causa e Efeito que, lembrando a poesia de Yeshua, compreende o “a cada um segundo suas obras” – repetida e destacada por Kardec (2021), no Código Penal da Vida Futura, nos Capítulos IV (“O inferno”) e VIII, item 25º (“As Penas Futuras Segundo o Espiritismo”), da Primeira Parte de OCEOI. Por isso, cabe-nos torná-las mais leves, cuidando efetivamente de nós mesmos.
Fontes:
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Kardec, A. (2021). “O Céu e o Inferno”. Trad. Emanuel Dutra. Guarulhos: FEAL.
Imagem de Aline Dassel por Pixabay





É isso mesmo cabe-nos a nós tomar decisões que nos ajudem no progresso individual ou enveredar por um caminho conservador e com ideias retrogradas cujo único resultado é perder a oportunidade abençoada de uma reencarnação. Exelente . Obrigada Marta.