A Morte das Religiões e o Desafio do Meio Espírita Contemporâneo, por João Afonso G. Filho

Tempo de leitura: 5 minutos

João Afonso G. Filho

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As religiões e grande parte do meio espírita agonizam; porém, a leitura de Herculano Pires, apoiada nas reflexões de Allan Kardec, ajuda a ressignificar as propostas universais de transformação moral, intelectual e espiritual de encarnados e desencarnados. É um chamado à renovação e à consciência pessoal e coletiva.

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Fazendo uma leitura de “Agonia das Religiões”, do professor Herculano Pires, passei a ver o problema do chamado “espiritismo religioso” de forma mais abrangente e preocupante. No Brasil, a ideia do tríplice aspecto ganhou força e — de certa forma — tentou ou tenta suprimir a definição dada por Allan Kardec em “O que é o Espiritismo” – em seu Preâmbulo. 

Neste último, encontramos: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.”

Neste artigo, desenvolvo reflexões sobre o momento que vivenciamos, destacando a frase incisiva, contida no capítulo I, da obra de Herculano: “O poder das religiões não é mais religioso, mas simplesmente econômico, político e social”. 

Apesar de escrita no século XX, as causas apontadas, continuam atuantes: há um “esvaziamento espiritual” das instituições. Estariam incluídos aqui os centros, as federativas e outras instituições espíritas?

É preciso analisar criticamente os desafios contemporâneos. No pós-pandemia, muitas coisas mudaram; porém, os problemas apontados no meio espírita como efeitos da covid-19 já existiam nas casas espíritas. Com raras exceções, não havia planejamento estratégico, mas a continuidade da mesmice, de movimentos improvisados e repetitivos, obsoletos. Essa falta de planejamento é fatal para instituições e movimentos, levando-os, em alguns casos, a ficarem arcaicos e, consequentemente, perderem seus objetivos.

Quando se lê Herculano Pires, percebe-se nas entrelinhas o esvaziamento da essência da doutrina espírita: a fé racional que eleva homens, mulheres — e Espíritos — é substituída pelo mecanismo do poder, do prestígio e do interesse pessoal.

Ao longo de toda a obra de Allan Kardec, há um destaque para a necessidade de o Espiritismo não se fundamentar na fé cega ou no “Religiosismo”; porque cedo ou tarde, com as luzes da razão, essa fé desmorona. Temos assistido algumas experiências efetivas de retomada de diretrizes — como os projetos do “Espiritismo COM Kardec (ECK)” e outras iniciativas — que mostram a necessidade das instituições espíritas de não se apresentarem como um poder centralizador que neutraliza a ação criativa, mas como propostas de renovação moral e cultural.

Uma premissa importante está em “O que é o Espiritismo”, no diálogo de Kardec com um padre: “A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância”. Entendo essa passagem como advertência: Kardec conclama que a Doutrina Espírita não veio para competir com outras religiões, mas para oferecer à fé um fundamento racional, ético e experimental.

No meio espírita (instituições e grupos) enfraquecido, observa-se o surgimento de falsos guias e de personalismos. Médiuns, palestrantes e conferencistas carismáticos são por vezes erguidos e, com discursos emocionalistas — que remetem a razão a plano secundário — acabam por ofuscar ou eliminar o espírito crítico.

Nas redes sociais, também encontramos argumentações distorcidas que utilizam os nomes de médiuns já desencarnados para propagar ideias sem fundamentação científica, filosófica ou racional — por exemplo, teorias sobre “data limite” ou “transição planetária”. 

Desta forma, algumas “instituições espíritas” (e não são poucas), acabam por abraçar tais aberrações e até usam pretensos guias para “confirmar” práticas que, na realidade, são inconsistentes. Como diz Herculano Pires, novamente na obra referenciada, há “asfixia das liberdades humanas, utilizada como arma poderosa nas mais desumanas guerras ideológicas, responsabilizada pelas mais cruéis deformações da criatura humana, a Religião se constituiu em barreira de todo o progresso cultural”.

Importante reforçar a advertência de Herculano: quando a religião — ou o meio espírita — se afasta do espírito libertador dos ensinamentos de Jesus e das instruções de Kardec, ela sufoca o próprio homem que pretendia redimir, limitando a liberdade e a autonomia.

O maior desafio do meio espírita, assim, não vem de fora, mas de dentro. Quando o ideal espírita é substituído pela busca de prestígio institucional, quando a retórica não se traduz em prática e quando a aparência de religiosidade toma o lugar da transformação íntima, o meio e as instituições se fragilizam…

Observando o Espiritismo no Brasil, vemos avanços; contudo, é preciso analisar as contradições. Kardec, ao longo de suas obras, já destacava os desafios que a Doutrina enfrentaria diante das imperfeições humanas. Em algumas instituições, observam-se sinais de cristalização institucional e dependência de lideranças com perfil messiânico.

Um exemplo concreto dessa fragilidade institucional ocorreu recentemente na zona litorânea pessoense, onde um centro espírita encerrou suas atividades após a desencarnação de seus diretores. A ausência de processos de preparação, participação e renovação de quadros impossibilitou a continuidade da obra, demonstrando, de forma dolorosa, como estruturas excessivamente personalistas — centradas em poucos indivíduos — tornam-se vulneráveis. A instituição, que deveria estar assentada na cooperação e na sucessão responsável, acabou ruindo por falta de novos colaboradores capacitados e envolvidos. Esse caso, embora singular, é emblemático e consagra os riscos que Kardec e Herculano já advertiam: quando a vitalidade do movimento depende de pessoas, e não de princípios, a obra se fragiliza diante do tempo e das circunstâncias.

A proposta espírita é clara, conforme vemos em “A Gênese” (Cap. XVIII, Item 20): “Nesse grande movimento regenerador, o Espiritismo tem um papel considerável; não o Espiritismo ridículo, inventado por uma crítica zombeteira, mas o Espiritismo filosófico, como o compreende qualquer um que se dê ao trabalho de buscar a amêndoa em sua casca”.

As religiões e grande parte do meio espírita agonizam; porém, a leitura de Herculano Pires, apoiada nas reflexões de Allan Kardec, ajuda a ressignificar as propostas universais de transformação moral, intelectual e espiritual de encarnados e desencarnados. É um chamado à renovação e à consciência pessoal e coletiva.

Diante do dilema — renovar-se pelo aprofundamento autêntico dos estudos espíritas ou repetir erros de institucionalização e personalismo — a escolha é clara. Não cabe concessões à ignorância: é hora da verdade, de proposições claras e precisas, de vigilância e ação. Os conflitos explodem; devemos enfrentá-los de frente.

Fontes:

Kardec, A. (2018). “A Gênese”. Trad. Carlos de Brito Imbassahy. São Paulo: FEAL.

Kardec, A. (2011). “O que é Espiritismo”. Trad. Wallace Leal V. Rodrigues. Introd. J. Herculano Pires. 28. Ed. São Paulo: LAKE. 

Pires, J. H. (1984). “Agonia das Religiões”. 2. Ed. São Paulo: Paideia.

 

Imagem free Pixabay Aldarami

 


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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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