Maria Cristina Rivé
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Vive-se, assim, uma imersão quase claustrofóbica, na qual os indivíduos convivem com práticas racistas e, ao mesmo tempo, as reproduzem, muitas vezes sem percebê-las.
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Aprendeu-se, por muito tempo, nas salas de aula, que não existia racismo no Brasil. O país era, então, e sempre, apresentado como formado/integrado por pessoas boas e honradas, onde as diferentes “raças” conviviam em (plena) harmonia. Essa narrativa, entretanto, sempre funcionou como um conveniente véu: ao negar o conflito, apagou-se a violência constitutiva da formação social brasileira.
Na Universidade, no curso de Letras, no estudo de Filologia Românica [1], aprende-se que, nas conquistas do Império Romano, um dos primeiros atos dos colonizadores era a retirada da identidade dos povos dominados. Portanto, não se tratava apenas de submeter territórios, mas de dilapidar culturas e vidas: apagar histórias, individualidades, amores, crenças e formas de existir e conceber os temas da existência humana.
Esse método voraz, que desumanizava povos considerados inferiores, infelizmente não pertence somente ao passado. Ele permanece inscrito nas estruturas da sociedade contemporânea e, muitas vezes, segue operando de forma silenciosa e naturalizada.
Vive-se, assim, uma imersão quase claustrofóbica, na qual os indivíduos convivem com práticas racistas e, ao mesmo tempo, as reproduzem, muitas vezes sem percebê-las. É nesse ponto que Silvio Almeida, em “Racismo Estrutural”, é categórico: ninguém acorda e decide conscientemente qual pessoa preta irá excluir naquele dia! O racismo não se apresenta então, majoritariamente, como uma escolha individual, mas como uma estrutura que organiza a sociedade, definindo padrões de valor, de pertencimento e de humanidade. Nesse contexto, a ideia de beleza, por exemplo, permanece intrinsecamente ligada à imagem europeia.
A análise histórica de Lilia Schwarcz, em “Imagens da Branquitude”, dialoga diretamente com essa perspectiva. Ao investigar a construção social da branquitude no Brasil, a autora demonstra como o ser branco foi historicamente associado ao normal, ao positivo, ao belo, ao progresso e ao poder. A branquitude, longe de ser um dado natural, constitui-se como uma construção simbólica que legitima privilégios e hierarquias raciais. Assim, o que Almeida conceitua como estrutura encontra, em Schwarcz, sua materialidade histórica e imagética [2].
Segundo a historiadora, as imagens de pessoas pretas são, assim, bem raras e, quando aparecem, carregam forte carga simbólica. Elas revelam, neste sentido, uma condição contraditória: um meio termo entre a subserviência imposta e a força que resiste.
Ela traz o caso de Mônica, fotografada duas vezes. Sua imagem, analisada por Schwarcz (2024:207), escapa parcialmente ao enquadramento racial esperado: “Ela aparece de forma digna, altiva, com um olhar firme […]. Não era para ser assim, mas sua expressão forte inundou todo o retrato”.
Essa exceção, no entanto, confirma a regra: o sistema foi construído para negar a dignidade plena aos corpos negros; e, quando essa dignidade emerge, ela causa estranhamento.
Essa tensão evidencia, mais uma vez, o racismo estrutural descrito por Almeida. Mesmo quando não há a intenção explícita da exclusão, a estrutura opera para manter pessoas negras em lugares sociais subalternizados, seja por meio das instituições, das imagens, dos discursos ou da linguagem cotidiana.
Portanto, o mundo segue negando suas raízes e seus contrassensos, sustentando uma ideia de harmonia racial que nunca existiu de fato.
Algumas expressões correntes revelam essa herança: “coisa de preto”, “lista negra”, “denegrir”, “a coisa ficou preta”. Às sinhás do século XXI restam, então, o criado-mudo [3] e a doméstica, desde que não sejam boçais, para não comprometer a imagem da branquitude.
Nada, absolutamente, pode ser feito “nas coxas” [3], para que a reputação não fique manchada; afinal, não se é “tua nega”, nem se tem “a cor do pecado”.
A linguagem, assim, torna-se mais uma prova de como o racismo estrutural atravessa o cotidiano, reafirmando hierarquias e naturalizando desigualdades. Tudo sob a “cândida” [4] aparência da normalidade.
Notas:
[1] Filologia Românica é o estudo histórico e, ao mesmo tempo, comparativo e diacrônico (porque realiza a avaliação de um fato ou um conjunto de fatos na esteira do tempo) das línguas e literaturas derivadas do latim vulgar (neolatinas). Abrange, pois, a sua evolução desde as origens até o estado atual. Com foco na estrutura, fonética e léxico, visa analisar documentos escritos, com a finalidade de entender o desenvolvimento de línguas como português, espanhol, francês, italiano, romeno, entre outras.
[2] Imagética é o que se exprime por meio de imagens. Termo utilizado comumente por psicólogos, serve para a descrição de estratégias relacionadas à capacidade de imaginação, aumentando a motivação para a execução de ações dentro de objetivos predefinidos. Ela simboliza o uso de imagens (visuais ou mentais) com o escopo de estimular ou simular experiências, emoções e movimentos, representando-os.
[3] As expressões “nas coxas” e “o criado-mudo” são tema de debate de diferentes gramáticos acerca do uso/significado/aplicação das mesmas. Pra alguns elas não se referem a negros. Para outros, sim. Abaixo, em “Fontes”, algumas matérias da mídia tratam dessa dicotomia (SEDH, 2020; BBC, 2021; Rodrigues, 2021; Gonçalves; Franco, 2022).
[4] A expressão cândida, aqui, significa ingenuidade, pureza ou inocência, e seu uso é feito por ironia. Lembrar, ainda, que “cândido” também pode ser traduzido por aquilo que é alvo, ou seja, muito branco. Guarda, assim, relação com a temática do artigo.
Fontes:
Almeida, S. L; (2018) “O que é racismo estrutural?”. Belo Horizonte: Letramento.
BBC. (2021). Dia da Consciência Negra: 10 expressões do português que geram controvérsia sobre racismo. “BBC News Brasil”. 21. Nov. 2021. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Fev. 2026.
Gonçalves, C. M. L. F.; Franco, C. C. S. (2022). A necessidade de adaptação da linguagem verbal corrente em respeito à dignidade dos negros no Brasil. “Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento”. A. 7. N. 1. V. 2. Janeiro de 2022, pp. 132-146. ISSN: 2448-0959.
Rodrigues, S. (2021). Patrulha linguística é a pior inimiga de sua própria causa ao embarcar em fake news. “Folha de S. Paulo”. Opinião. 27. Nov. 2021. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Fev. 2026.
Schwarcz, L. M. (2024). “Imagens da Branquitude: a presença da ausência”. Vencedor Jabuti Acadêmico 2025. São Paulo: Companhia das Letras.
SEDH. Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Espírito Santo. (2020). Novembro Negro: conheça algumas expressões racistas e seus significados. “Notícias”. 17. Nov. 2020. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Fev. 2026.
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