Marcelo Henrique
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No espectro maior da provocação deste “despretensioso” artigo está a aferição ou medição das decisões que você toma no dia a dia: são elas, de fato, importantes e relevantes? Em que elas impactam em sua felicidade real?
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As gerações, os mitos e os meios
Cada geração parece ter os seus mitos de liberdade e conquista. Já foi o rádio, a TV, o microcomputador, a internet, os smartfones. A bola da vez parece ser a Inteligência Artificial. Que de artificial, convenhamos, não tem nada.
Ou tem? Sim, acaba tendo, diríamos. Afinal de contas, os instrumentos que vêm e vão para “facilitar” a vida individual e social têm, como tudo e todas as coisas, seus prós e seus contras. Não é?
Sim, já falamos sobre isso em outras quimeras… Quer dizer, em outras tertúlias, nos diálogos que principiam em meu cérebro e viram artigos que reparto com meus leitores. Estes, por sua vez, acredito e vejo, também provocam outras atividades cerebrais – de concordância e de dissenso (por que não?), provocando o móvel mais importante da atividade espiritual: o pensar (por si mesmo).
É este o ponto: com a Inteligência Artificial (IA), será que as pessoas estão “pensando MENOS”? Ou DEIXANDO de pensar? Ou, ainda e melhor, estão TERCEIRIZANDO o pensamento e as decisões?
Talvez… Para uns, sim ou mais frequentemente. Para outros, ocasionalmente. E há, é claro, aquele quantitativo de situações em que iremos nos autodefinir como senhores de nós mesmos e dizer (para nós e, em bom tom, para os outros – quem quiser ouvir): – Sou eu quem dirige a minha vida!
Ah, tá… Pois sim!
Cada vez menos as decisões são AUTÔNOMAS e seguem um curso de heteronomia que nem sempre é, por nós, percebido. E não é de hoje…
A geração que não tinha imagens, se contentava com os sons. Pelo rádio, era possível imaginar tudo. Minha saudosa mãe me contava das radionovelas, das transmissões de festivais de música, das entrevistas e reportagens. Havia, até, aulas de culinária pelo rádio. E ela sempre me dizia o encanto que era IMAGINAR o que havia “do outro lado”, isto é, usar a imaginação para tentar entender um sabor, um cheiro, uma aparência, um formato – para os pratos das receitas. E, também, divisar mentalmente como seria um cenário, os personagens, os atores reais, e tudo o mais, a partir daquilo que ouvia… pelo rádio!
Com a TV os sons ganharam forma, cor (ainda que em “tons” de cinza ou preto e branco, nos primeiros aparelhos). Conversava com um amigo de mais idade, que tinha visto a Copa do Mundo de 1970, em preto e branco e, quando ele viu as imagens colorizadas “por computador”, ficou abismado em ver que a grama do Estádio Azteca, no México era muito mais verde do que ele imaginava… Isto que a colorização das imagens foi algo parecido como o que a IA nos proporciona hoje, “compondo” figuras, fotos ou até vídeos…
Com o microcomputador, que deve ter sido utilizado em larga escala, para nós, como um mero redator de textos, substituindo a (velha) máquina de escrever – que também foi evoluindo da manual para a elétrica e desta para a eletrônica, que agregava muitos outros recursos – um “novo mundo” passou a estar disponível proximamente. Ao invés de caixas e caixas de documentos – ainda que fosse necessário imprimir muitos materiais – o avanço se deu no âmbito do armazenamento: estava tudo ali em “pastas”, nos “diretórios”.
Depois veio a internet e, com ela, o fim das “fronteiras físicas”. Aos poucos fomos acessando um conhecimento até então impenetrável e mágico (talvez, assustador, para muitos), e a busca pela verdadeira instantaneidade – enviar e receber respostas em frações de segundos, consequentes – foi a próxima conquista da Humanidade.
E veio o smartfone que revolucionou por completo o telefone e o tornou uma curiosa peça de museu – falo dos vetustos aparelhos conectados a fios e com custo assombroso para ligações, mesmo locais, que dirá nacionais ou internacionais. Sou do tempo do “orelhão” e as fichas, depois os cartões telefônicos eram “consumidos” em poucos minutos de prosa.
Perguntas x Respostas
Eis que chegamos à IA – e, por isso, o tópico que intitula esse artigo é a “provocação” da vez.
Porque o que são as perguntas sem as respostas? E o que são as respostas, do ponto de vista de saciar a curiosidade, eliminar o desconhecimento e encontrar saídas para inúmeras situações, considerando a origem das informações?
Em outras palavras: quem é que define (delimita) as respostas? Eu ou quem?
A essência deste questionamento – que alcança o cotidiano de muitas pessoas – é o quanto a IA está, de fato, no controle das nossas decisões pessoais. Ou, de outro modo, até que ponto nos deixamos influenciar a ponto de terceirizar nossas escolhas – e, principalmente, determinar a forma COMO pensamos, e o CARÁTER das ideias que temos, considerando as diversas ideologias vigentes e contemporaneamente disponíveis.
Terceirização do pensamento?
Essa terceirização decisória nem sempre é claramente perceptível. Ela envolve o indivíduo que passa a pensar segundo “anúncios”, “textos”, “depoimentos”, “entrevistas”. E está diretamente associada à gestão do tempo. Afinal de contas, cada vez mais, o tempo se torna escasso diante de tantas exigibilidades do cotidiano: as pessoais, as familiares, as estudantis, as profissionais e as da vida em relação com os outros, nos grupos-guetos de que participamos.
E vamos, pouco a pouco, substituindo a boa e velha INTUIÇÃO por “intuições artificiais”, as sugestões que recebemos de aplicativos, de mensagens, de publicidades pagas, e do feed de notícias da rede social ou do portal que você comumente segue. E há, ainda, o aperfeiçoamento de sistemas de indução, que conseguem “captar” até mesmo as conversas que você tenha com seu marido/esposa e filhos, ou colegas de trabalho, de modo que na próxima “busca” ou na leitura de uma nova notícia, apareça pra você uma “sugestão” de algo que você está pensando fazer, adquirir ou consumir…
E as nossas decisões vão ficando, cada vez mais, dependentes das “inocentes” e “amplas” sugestões que os instrumentos (celular e notebook ou PC) lhes dão a cada momento diário. Mas os dados e os algoritmos, assim como a própria IA não têm “sentimentos” (não como os conhecemos!), não são capazes de ler as entrelinhas ou os rodapés de nossos pensamentos. Pelo menos não, por enquanto… Mas, por vezes, acabamos nos tornando “prisioneiros” de dashboards, sem perceber.
Informação, Conhecimento, Sabedoria
Informação não é conhecimento. Tampouco sabedoria. Informações são dados que podem se converter em conhecimento aplicado e podem, com as ações (decisões) representar se somos (ou não) sábios, porque isto está relacionado à mensuração dos resultados daquilo que fazemos com as informações.
O problema maior, então, está no conceder a “outro” o poder decisório da gestão da própria existência. E, antes que você faça cara feia ou já entabule um contraponto (mental) ao que está lendo, convido-o, nas próximas horas a observar a si mesmo e a perceber o quanto de sua intuição já não é mais exclusivamente sua, e a amplitude de você estar se deixando “contagiar”. E é nesse ponto que se vislumbra um possível ilusionismo da vida contemporânea: “eu estou no controle (de mim mesmo)”. Está, realmente?
No espectro maior da provocação deste “despretensioso” artigo está a aferição ou medição das decisões que você toma no dia a dia: são elas, de fato, importantes e relevantes? Em que elas impactam em sua felicidade real?
Obviamente, como o rádio se transmudou em TV, esta em microcomputador até alcançar o smartfone (ainda que haja espaço para todos, individualmente falando, nas rotinas dos indivíduos e tais “instrumentos” convivam tranquilamente no cotidiano pessoal, para muitos ou parte do universo humano), as “coisas” seguirão avançando. A IA se especializará ainda mais. E continuará sendo um meio, não um fim em si mesma. A velocidade dos processamentos informativos alcançará níveis estratosféricos e nunca (ou quase) imaginados.
Concluindo e Reiniciando: re-“startando” o cérebro
O grande dilema continuará a ser ético, e ético pessoal: o que estamos fazendo com a IA, no sentido de “nos substituir” no poder decisório (no caso, flagrantemente, espiritual) de nossa existência (atual e contingencialmente) material.
Se a IA faz muito por você, por mim, por nós, o que é que nós podemos fazer que a IA não pode (ou nunca poderá) fazer? Pergunte a si mesmo…
Afinal, são sempre Perguntas, Respostas… Respostas ou Perguntas? Perguntas ou Respostas? A roda-viva da IA vai influenciando o nosso viver, é claro, mas não podemos, nós, abdicarmos do nosso ser (espiritual), como se estivéssemos “obsedados” por ela.




