Marcelo Henrique e Marcus Braga
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Para além do fenômeno e de sua aparência, é fundamental perquirir, com as balizas oferecidas pela base conceitual espírita, acerca das situações concretas, separando o “joio” do “trigo”. O Espiritismo prático é um segmento que carece de ser estudado em minúcias, para a verificação da atuação dos médiuns e do exame criterioso dos resultados (fenômenos e documentos), com a necessária ênfase na ética da realização do ato mediúnico, afim de oferecer o “porto seguro” para todos os que se interessam pelas relações entre os Espíritos.
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Preliminares: as dores humanas
Há uma expressão da cristandade ― derivada de toda uma construção dogmática da religião cristã ― que informa ser, a Terra, um “vale de lágrimas”. A afirmação está associada, logicamente, ao conjunto de sofrimentos que a condição imperfeita das Almas (para nós, Espíritos) experimentam na passagem pelo plano físico.
Sofrimentos, assim, parecem ser inerentes ao estado de encarnados, sobretudo porque a vida não é feita, apenas, daquilo que queremos que exista ou aconteça. Há situações ― muitas, até ― que escapam ao nosso domínio e vontade. Porque dependem dos outros. E, também, porque obedecem a mecanismos (para nós, Leis Universais ou Divinas) que não são do nosso pleno conhecimento e não se subordinam ao nosso arbítrio.
A privação de recursos e bens materiais, a separação conjugal, as decepções em relação aos amigos, a falência, a perda do emprego, a demissão de cargos públicos, os acidentes de trânsito, os incêndios, as tragédias, tudo isto envolve o conjunto de sofrimentos que as almas encarnadas experimentam.
Uma das dores mais agudas é, certamente, a perda dos entes queridos. E é significativa a perda, porque, aos olhos materiais, as pessoas que nos são caras desaparecem de nossa vista e de nossa convivência. Restam, apenas, as lembranças do convívio com elas, do que aprendemos, os temas que dialogamos e os momentos de alegria desfrutados.
A maneira como cada qual lida com suas próprias “dores”, isto é, os sofrimentos morais decorrente dos falecimentos, é peculiar e não se conforma a nenhum padrão. Por isto, há pessoas que “seguem suas vidas”, possuindo lembranças (geralmente boas) daqueles que se foram, e há os que se angustiam diante daquilo que não puderam fazer ― ou que equivocadamente o fizeram – em relação aos “mortos”.
O fato é que, do conjunto das dores humanas, nos mais diversificados sofrimentos cotidianos, tudo demanda uma hipotética esperança e ela, quase sempre, está sediada no futuro. Como este futuro será? Conscientemente não sabemos e são as religiões e as filosofias responsáveis por delimitar ― com base nas crenças ― aquilo que haverá do “outro lado”.
As dores e sua exploração
Historicamente, constata-se haver, aqui e ali, uma exploração comercial das fragilidades humanas, oferecendo “produtos” ou “serviços”, direta ou indiretamente.
Há, de fato, os que comercializam a “fé” no futuro e as “buscas” pessoais, de forma explicita, como: “trago a pessoa amada de volta”; “promovo a sua prosperidade financeira”; “alcance sucesso em sua carreira”; “venha experimentar uma cura miraculosa”; “curo o câncer”; “obtenha uma comunicação de um ente querido”, e tantas outras “modalidades”.
E há grupos ou instituições que, se não realizam claramente o comércio, com a paga e a recompensa, trabalham com o “imaginário” das pessoas e oferecem aquilo que elas querem ouvir ou ver. Não é à toa que muitas igrejas, templos e similares estão lotados, justamente porque a promessa atrai e muitos acreditam que “dons divinos” ou “faculdades espirituais” são capazes de resolver os problemas, substituindo o esforço e o trabalho dos indivíduos. Ledo engano!
É fato, também, que os “meios” se aperfeiçoaram e o “mercado” possui outros contornos, se comparados com as últimas décadas do século findo. E isto precisa ser levado em conta, justamente pela “lei da oferta e da procura” a isso associada.
Assim, principalmente a Internet tem potencializado e facilitado a difusão das formas dos “serviços” e a extensão dos “produtos”, ao alcance de um clique. É possível e com bastante facilidade, por exemplo no Instagram, receber anúncios de “publicidade paga” de indivíduos, grupos ou entidades civis que prometem aquilo que a pessoa deseja: uma notícia comprovada (vamos frisar esse elemento) dos entes queridos falecidos (para nós, desencarnados).
Será tudo verdade? Há como diferenciar verdade e mentira? Realidade e mistificação? Seriedade e golpe? Isto é, como diferenciar uma mensagem autêntica de outra que, à primeira vista ou por seus “contornos” e “elementos” têm – e somente isso! – aparência de verdade?
Uma reportagem
Nos últimos tempos, mais que nos anteriores, um “nicho” da imprensa (jornalismo especializado) tem se dedicado à apuração de situações, contribuindo para a divulgação de crimes e a ação das necessárias autoridades (policiais e judiciais). Esta é uma faceta da comunicação social que merece atenção e, em muitos casos, reconhecimento, pela dedicação dos profissionais envolvidos e pela excelência no processo investigativo-apurativo.
Pois é esse o viés da publicação de “O Globo” [1], em matéria-reportagem assinada por Lívia Lemos, publicada neste 18 de janeiro de 2026, sob o título “Fraude no luto: sites vendem cartas psicografadas com prazo de entrega e são acusadas de golpe”. Destaca o texto jornalístico, uma das “chamadas” que são facilmente encontráveis nas plataformas de redes sociais.
E há publicações mais simplórias, com imagens mais simples, até “toscas” e outras publicações com recursos gráficos, que devem ter sido “encomendadas” a especialistas ou, mesmo, pagas por bons valores a empresas ou profissionais da publicidade. Todas elas têm público cativo e “competem” entre si, com tranquilidade, na “selva” que é a ambiência das redes virtuais, na contemporaneidade.
Podemos nos lembrar, rápida e analogicamente, de alguns folhetos/cartazes que eram afixados em postes de iluminação pública, pontos de ônibus ou paredes das nossas cidades, oferecendo “serviços espirituais”. Um deles, bem “célebre”, dizia: “- Trago a pessoa amada de volta!”.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena? A frase inspirada no poema de Fernando Pessoa (“Mar Português” [2]) pode muito bem enquadrar as buscas e os “achados” dos nossos tempos. Sim, porque se a alma for “pequena”, isto é, se ela estiver envolvida em “névoas” que são o desconhecimento, a crendice, a superstição e a emotividade resultante dos sofrimentos mencionados na abertura deste ensaio, serão presas fáceis para os aproveitadores de ocasião, de todas as horas… Tais almas pequenas são crentes e bem-intencionadas no sentido de não enxergarem os golpes, as astúcias, as sem-vergonhices, as prestidigitações e a sanha de arrecadar valores à custa da ignorância, da fé e da dor alheia. E há muitos neste “segmento”…
Chico Xavier e sua conduta: o exemplo
O Espiritismo foi popularizado em nosso país muito em função da vasta obra literária psicográfica de Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier) que nos legou quase 500 (quinhentas) obras, entre as autorais, as compilações, as transcrições de entrevistas e programas radiofônicos e televisivos e as cartas psicografadas.
Neste último “segmento”, não foram poucas as personalidades ― em sua imensa maioria, desconhecidas do grande público e com importância circunscrita a seus núcleos familiares ― que enviaram “notícias do além-túmulo”. Para ilustrar, o título de uma delas era: “Motoqueiros do Além”, trazendo relatos de pessoas que haviam desencarnado em acidentes automobilísticos nesses veículos de duas rodas.
Em paralelo, durante décadas, era comum a “romaria” de pessoas a Uberaba (MG), cidade onde o médium residia e atuava em uma instituição espírita, em busca de uma comunicação consoladora de seus entes queridos. Minha saudosa mãe, Maria Botticelli, chegou a ir, por três vezes, à cidade mineira, numa caravana de pessoas da Grande Florianópolis (SC), acompanhando, a convite, a presidente do Centro Espírita Tereza de Jesus, também já desencarnada e saudosa, Judith de Melo Coelho. Não tinham, elas, qualquer objetivo pessoal, isto é, não desejavam receber notícias de nenhum conhecido desencarnado, porque já tinham a informação espírita de que o Espírito sobrevive à alma, segue seu curso e percurso e, no futuro, é possível o nosso reencontro com os que se foram antes de nós. Mas havia, nas caravanas catarinenses e em muitas outras uma série de pessoas em busca de notícias de seus pais, irmãos, filhos, esposos, esposas, amigos – grande parte deles tragicamente falecidos.
A sistemática adotada pelo Chico era simples. Ele chegava, era feita uma prece inicial, era lida uma página de ambientação (geralmente um texto de uma de suas obras de crônicas literárias) e o médium se concentrava para entrar no “transe” mediúnico. Ao cabo de uma ou duas horas, muitas páginas manuscritas a lápis se avolumavam. E, ao final, o próprio Chico fazia uma espécie de “chamada nominal”, dizendo o nome do comunicante e questionando se havia algum familiar presente, ou alguém que reconhecesse o nome lido.
E havia. Sempre! Ao ouvir o nome do ente querido desencarnado, muitos já começavam a chorar copiosamente e se identificavam. O médium lia a comunicação e, ao final, entregava, como um presente do Infinito, a carta para que os familiares levassem como recordação.
Não havia ritos. Nem formalidades. Tampouco nenhuma lista de presença, ou qualquer documento de identificação com dados pessoais, como CPF, endereço, idade, data de nascimento ou de óbito, etc.
Vale dizer, no entanto, que nem todas as pessoas que compareciam às sessões mediúnicas do Chico recebiam mensagens de seus entes queridos. Daí ter ficado célebre a frase do médium: “o telefone só toca de lá [plano espiritual] para cá [a Terra]”. E, complementando o querido divulgador das mensagens espirituais também ressaltava o merecimento daqueles familiares em receber (ou não) a comunicação, e os desígnios divinos em permitir, ou não, a notícia “do Além”.
Os procedimentos de hoje
Curioso notar a enorme disparidade entre os procedimentos adotados pelo doce Chico e os que se avolumam em ocorrências “comerciais” nos dias de hoje. Isto sem falar no verdadeiro “show” que consagra muitos “eventos de psicografia”, em salões acarpetados, com modernas estruturas, jogos de luzes, som ambiente e mesas de honra. Um verdadeiro espetáculo tem lugar, quando o (pretenso) médium adentra o recinto, acompanhado de aplausos e o conhecido ritual de senta-levanta. Às vezes, também há apresentações musicais no início ou durante as “psicografias”. Mas um elemento em particular merece destaque.
Um rito é observado em relação aos que procuram as psicografias, o chamado público-alvo. Seja previamente, por sites específicos, seja no próprio dia do evento, é necessário fornecer informações acerca do desencarnado. Dados pessoais e completos que os “organizadores” dizem ser mera formalidade e que podem, em alguns casos, conforme alegam, ajudar no caso de homônimos ou nomes abreviados ou resumidos.
Ou seja, o “interessado”, “necessitado” de uma comunicação fornece previamente informações para a organização – leia-se o “médium” – para que o telefone possa buscar a linha “devida” e “correta”. Totalmente diferente do meio tradicional, tanto o que Chico exemplificou por décadas, quanto aqueles que ocorrem em instituições espíritas sérias, formalizadas e que observam as recomendações expressas em “O livro dos Médiuns” [3] e em outras obras e exemplares da “Revue Spirite”, de autoria do professor francês Allan Kardec (1804-1869).
A observação que fazemos é, na forma de questionamento, a seguinte: ― Para que servem os dados informados pelos entes queridos acerca dos desencarnados, de quem buscam notícias e consolo?
Kardec: a bússola
A advertência inicial está relacionada a necessidade de nos prevenirmos em relação aos usos da mediunidade. Já tivemos oportunidade de escrever sobre isso, no Portal ECK [4]. Vejamos:
“São muitos médiuns fascinados, fantasiosos, iludidos, que se esquecem do principal compromisso com a tarefa mediúnica: a Verdade, não a sua, mas a da (Boa) Espiritualidade, a quem deveriam servir no oportuno e benfazejo momento da concentração e do exercício medianímico”.
É preciso buscar, sempre, em termos de Mediunidade e Comunicação Mediúnica (Psicográfica, no caso), as balizas contidas na Filosofia Espírita. Kardec cuidou de detalhar tanto o “modus procedendi” das comunicações ― estabelecendo dois tipos primários de comunicações, as espontâneas e as evocações ― quanto prescrevendo o rigor ético para a operacionalização e o entendimento público ou comum, das pessoas leigas, acerca das atividades espíritas ou mediúnicas.
No que tange à natureza dos Espíritos (comunicantes) também salientou a necessidade de muita atenção na identificação dos mesmos, a partir das assinaturas contidas nos documentos derivados da mão do médium. Não só os nomes (assinaturas) teriam validade, mas, principalmente, o conteúdo (teor) das mensagens. E é este ponto que merece muita atenção, porquanto se, na vida comum, humana, de encarnados, pessoas podem se passar por outras e fingir identidades, o mesmo procedimento pode alcançar os Espíritos, que continuam a ser os mesmos mulheres e homens de quando “vivos”, isto é, encarnados. Porque nada dá saltos!
Um outro ponto essencial, no tocante à atividade mediúnica em si, a mesma foi oficializada por Kardec como uma atividade totalmente gratuita, sem finalidade lucrativa ou sem intenção de honra, glória ou poder mundanos. Nenhuma atividade espiritual, portanto, à luz da Doutrina dos Espíritos, pode ter qualquer tipo de cobrança nem contraprestação financeira, econômica ou patrimonial de qualquer espécie.
Kardec versus espiritualismo comercial
Atravessamos um momento singular da trajetória humana sobre o planeta. Há uma série de facilidades instrumentais que a inteligência humana tem produzido, possibilitando a indivíduos e sociedades a superação de dificuldades e a resolução de inúmeros problemas de épocas anteriores. Em termos específicos, o avanço da inteligência aplicada, em termos de equipamentos cibernéticos, internet e redes sociais nos permite, hoje, alcançarmos conhecimentos que, antes, eram muito limitados e restritos a poucos.
Em paralelo, os indivíduos seguem os mesmos, havendo os honestos e os desonestos, os sérios e os aproveitadores, os devotados e os interesseiros. Por isso, é preciso estar muito atento para as atividades e seus ritos, uma vez que eles podem ocultar toda a sorte de fraudes e golpes e, no âmbito dos “serviços mediúnicos”, muitas pessoas acabam ficando reféns ou sujeitas a relações escravizantes de exploração. Porque aquele que “recebeu” uma “carta psicografada” de determinado amigo ou parente, vai querer também conhecer a realidade de outro. Ou vai divulgar para outros amigos, conhecidos ou familiares, que também vão querer buscar tais informes. Ou, ainda, de tempos em tempos, passados meses ou anos, voltará ao “alegado médium” para receber “notícias atualizadas”.
A especialização da fraude
Antes mencionamos a questão de informar dados pessoais do “morto”, além de outras informações que o familiar entenda relevantes para a “busca” via “satélite espiritual” do desencarnado para que este possa fornecer uma comunicação. É aí que mora o perigo.
Já há conhecimento, conforme outras reportagens disponíveis na internet, de pessoas que estão sendo investigadas ou sofrendo processos em face de estarem vendendo cartas psicografadas. Outras, ainda, possuem um “staff” auxiliar, com pessoas que fazem “varredura” em perfis públicos nas redes sociais – do próprio “morto” ou de seus amigos e familiares ― para a seleção de informações que possam vir a compor a “carta”. Acerca deste tema, já escrevemos um artigo intitulado “Cartas que não consolam!”, em nosso Portal ECK, que recomendamos a leitura atenta [5].
Por outro lado, também em sede de Inteligência Artificial (IA), há mecanismos capazes de simular a “forma” usual de comunicação daquele que faleceu, o seu “estilo literário” ou a maneira como falava ou escrevia, a partir das próprias fontes disponíveis na rede mundial de computadores (vídeos, “reels”, postagens, textos, diálogos escritos, mensagens de texto ou voz e vídeo encaminhadas por meros instrumentos de comunicação em rede, como o whatsapp. Não há limites para tal “criatividade”, portanto.
Espiritismo e espiritismos
Sob a alcunha espirita ou sob a guarida de Espiritismo muito pode ser concebido, estruturado e utilizado. Assim, em muitas situações, para conferir credibilidade a pessoas, grupos ou instituições, a utilização do adjetivo espírita não é requisito essencial para a validação das ações e dos resultados correlatos.
Kardec, portanto, é o antídoto para o veneno da desfaçatez, do mau-caratismo, da exploração da fé pública e da busca desenfreada por honra, fama, poder ou dinheiro. Nos textos de “O livro dos Médiuns” [3] há a indicação da prática do charlatanismo que implica no aproveitamento da confiança de terceiros em relação a produtos ou serviços tidos como mediúnicos.
Em um artigo em nosso Portal, esses critérios de aferição são bem trabalhados, por Nelson Santos ― “Cartas consoladoras: uma análise necessária”. Dele, extraímos [6]:
“perante a infinita multiplicação das “cartas da imortalidade”, os espíritas e, também, os espiritualistas, devem se valer de seguros e necessários critérios para aquilatar a veracidade das mensagens e dos próprios “transes” mediúnicos. Para isto, não conhecemos nada melhor e mais adequado do que o rito de controle estabelecido por Kardec, sobretudo em “O livro dos Médiuns”, para realizar, com bom senso, racionalidade e instrumentalidade, a análise crítica de cada mensagem em seus mínimos detalhes” (marcação do original).
Distante desse referencial, pode-se dizer que a opinião pública fica sujeita a todo o tipo de enganos e ilusões. Afinal, não valem as definições espirituais-espíritas acerca da Mediunidade, do fenômeno mediúnico, e do rito de verificação da autenticidade da mensagem e da idoneidade do médium. Vale, tão-somente, a indicação “ad hominem”, o fugidio prestígio que deriva da “confiabilidade pessoal”, isto é, os efeitos do próprio ilusionismo.
Explicando, na prática: há tantas pessoas sofredoras, desesperadas e ansiosas por uma comunicação do ente querido desencarnado, que “precisam” acreditar naquilo que lhes chega às mãos, como uma espécie de “tábua de salvação”. Em outras palavras, o indivíduo “quer porque quer” acreditar que ali, em suas mãos, está uma carta autêntica do seu “queridão” ou “queridona”, que ele/ela está bem e que, então, o destinatário da “carta” pode seguir a sua vida, consolado, mais confiante e crente de que, se tudo está bem, pela crença religiosa que tiver, um dia, lá à frente, haverá um reencontro. E quem não experimenta uma paz de espírito diante disso?
Só que de premissas falsas, a conclusão só poderá ser falsa. Ou o “efeito placebo” pode até ocorrer, mas será doloroso para o destinatário da mensagem se ele souber que o “médium” não era médium e que em situações similares, fraudou outras comunicações, por intereses escusos diversos.
A realidade, o porvir e o dever do espírita sensato
Diante dessa embaraçosa situação, sem fazer qualquer prejulgamento em relação aos médiuns e, também, sem colocar todos num mesmo “balaio” dizendo que todos são charlatães e falsários, é preciso reiterar o uso consciente das ferramentas de aferição da própria Mediunidade, assim como submeter a exame TODAS as comunicações recebidas.
Em caráter especial e particular, recomenda-se às pessoas em geral evitarem procurar aqueles que “oferecem” tais serviços, sobretudo os que estão disseminados, hoje, pela internet. A Mediunidade é um instrumento e ocorre independente de lugar ou de pessoa. O interesse pelo estado de um ente querido desencarnado e a busca de informações sobre tal realidade deve resultar do estudo sincero dos conteúdos da Filosofia Espírita e da frequência a grupos (presenciais ou virtuais) sérios, devotados ao Espiritismo. Com tal constância e regularidade, é possível que ocorra alguma comunicação ou seja veiculada informação acerca do desencarnado. Mas isto não depende nem da nossa vontade pessoal nem da “capacidade” deste ou daquele médium ou “médium”.
As comunicações espirituais se produzem visando finalidades propositivas e auxiliadoras do progresso individual e/ou social, não sendo direcionadas à satisfação da curiosidade individual acerca de situações que lhe dizem respeito.
Alguns pontos importantes acerca da temática de vida-morte, podem assim ser resumidos, à luz do ensinamento espírita:
1) TODOS somos imortais. Os Espíritos nascem, vivem e morrem e retornam “n” vezes à ambiência terrena, na forma de encarnados, para realizarem o seu progresso espiritual;
2) A morte não transforma ninguém em algo superior nem inferior ao que se foi, enquanto “vivo”;
3) Os laços de afinidade entre os Espíritos não são relaxados (afrouxados) nem desaparecem com a morte. Eles se fortalecem, com a perspectiva de novos reencontros, seja em outras existências físico-materiais seja na “espiritualidade” (condição desencarnada);
4) Os entes queridos que desencarnaram constantemente nos acompanham em nossas atividades cotidianas e a recordação positiva que deles temos, assim como a sensação de proximidade indica que eles estão “mais vivos do que nunca” e que se alegram com nossas alegrias.
Por isso, espera-se do espírita sensato que reaja naturalmente – evidentemente com a saudade e a relativa tristeza que a separação por meio da morte pode provocar em nós – acreditando que nossos entes queridos que fizeram a “passagem”, seguem vivos e continuam suas trajetórias de progresso, como nós outros.
O estudo sério e devotado do Espiritismo nos afasta de qualquer situação de falsa mediunidade, bem como nos protege contra situações de exploração da fé alheia. Diante de notícias sobre as “cartas do além”, deve este espírita esclarecer os possíveis interessados quanto às cautelas necessárias diante de tais circunstâncias, para não serem vítimas de golpes ou fraudes.
Neste sentido, diante de situações que pareçam estranhas, indevidas ou que possam estar levando outras pessoas ao engano, comunicar às instituições espíritas e às autoridades constituídas (polícia civil e ministério público) para a realização de competentes e necessárias investigações.
O Coletivo “Espiritismo COM Kardec – ECK” a esse respeito, já se pronunciou, nestes termos [7]:
“É preciso punir aqueles que se locupletam com o sofrimento humano, dos parentes de pessoas falecidas, posto que buscam fama, honrarias, destaques e até valores materiais, direta ou indiretamente arrecadados. Que as autoridades policiais, ministeriais e judiciais do Brasil possam realizar investigações e punir exemplarmente os envolvidos nestas fraudes. Fraudes que, inclusive, comprometem a honra, a ética e as atividades dos milhões de espíritas sérios que atuam em nosso país, em favor da busca pelo Espírito e pela Espiritualidade.”
E das instituições espíritas em geral, sobretudo as que organizam o chamado “meio espírita” como grandes associações ou federações, espera-se o zelo para com a Doutrina dos Espíritos, seja por meio do constante esclarecimento acerca das referências kardecianas relacionadas à Mediunidade seja, em casos concretos, se posicionando em relação a pretensos médiuns e suas atividades, orientando adequadamente os adeptos do Espiritismo em termos de comportamento.
Concluindo…
Diante, então, deste verdadeiro cardápio de mediunidade “self service”, em que há produtos e serviços para “todos os gostos”, é imperioso que os espíritas sensatos e estudiosos se distanciem de práticas indevidas e de atividades que consagram o ânimo comercial fraudulento.
Por fim e derradeiramente, como destacamos no artigo já mencionado [4]:
“Estas fraudes, portanto, comprometedoras da ética, da honra e da lisura que estão presentes nas atividades dos milhões de espíritas sérios que atuam em nosso país, tratando de temas acerca do Espírito e da Espiritualidade, assim como atentatórias ao direito individual de cada um dos prejudicados, merecem ter um basta!”
Para além do fenômeno e de sua aparência, é fundamental perquirir, com as balizas oferecidas pela base conceitual espírita, acerca das situações concretas, separando o “joio” do “trigo”. O Espiritismo prático é um segmento que carece de ser estudado em minúcias, para a verificação da atuação dos médiuns e do exame criterioso dos resultados (fenômenos e documentos), com a necessária ênfase na ética da realização do ato mediúnico, a fim de oferecer o “porto seguro” para todos os que se interessam pelas relações entre os Espíritos: vivos e “mortos” (que continuam mais vivos do que nunca!).
Assim, estarão sendo protegidos os hipossuficientes da fenomenologia mediúnica: aqueles que, movidos pela fragilidade do desespero e da saudade não devem entrar pela porta aberta que leva à crendice e às fraudes.
Nota dos Autores:
[1] Mendes, L. (2026). Fraude no luto: sites vendem cartas psicografadas com prazo de entrega e são acusadas de golpe. “O Globo”. 18. Jan. 2026. Disponível em <LINK. Acesso em 18. Jan. 2026.
[2] Pessoa, F. (1922) Mar Português. “Nova Acrópole”. Disponível em <LINK>. Acesso em 18. Jan. 2026.
[3] Kardec, A. (1998). “O livro dos Médiuns”. Trad. J. Herculano Pires. 20. Ed. São Paulo: LAKE.
[4] Henrique, M. (2025). Médiuns Impressionáveis: quando o fenômeno vira fantasia e a mediunidade passa a ser banalizada pelo médium. “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 28. Mai. 2025. Disponível em <LINK>. Acesso em 18. Jan. 2026.
[5] Henrique, M. (2025). Cartas que não consolam! “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 28. Mai. 2025. Disponível em <LINK>. Acesso em 18. Jan. 2026.
[6] Santos, N. (2024). Cartas consoladoras: uma análise necessária. “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 19. Dez. 2024. Disponível em <LINK >. Acesso em 18. Jan. 2026.
[7] Editorial ECK. (2024). Quando a mediunidade é falsidade. “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 17. Out. 2024. Disponível em <LINK>. Acesso em 18. Jan. 2026.
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