Mulheres Espíritas, Avante!, por Maria Cristina Rivé

Tempo de leitura: 7 minutos

Maria Cristina Rivé

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Ser mulher é, portanto, mais um desafio: levantar o corpo, racionalizar, seguir e perseverar nessa imensa trincheira na qual estamos. Está na hora de instalar-se o matriarcado com um sinal claro de que nós, diferentemente os homens, estamos aqui para cooperar, não para disputar. A cada dia um passo, a cada passo um avanço.

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Mulheres espíritas, avante!, foi o título dado a uma das Lives do VII Fórum do Livre Pensar Espírita (LiPE), uma iniciativa do Coletivo Espíritismo Com Kardec (ECK) [1]. Ele é a inspiração maior para este artigo.

Ao começar um texto com a máxima “desde tempos imemoriais a mulher é subjugada” é o mesmo que dizer que a chuva cai.  Vivemos em constante embate com as estruturas de poder, as quais podem ser definidas, quem sabe, pelo termo “Patriarcado Estrutural”, remetendo, assim, extensivamente, à expressão “Racismo Estrutural”, do livro de título homônimo, de Sílvio Almeida [2].

No percurso da história, mitos, lendas, escrituras foram construídas com o intuito de legitimar a pretensa superioridade masculina. Medusa, com suas serpentes, era inábil para o amor, tendo sido amaldiçoada por Atena, pois ousara compartilhar o leito com Poseidon, mesmo que ele a tivesse assediado; Iara, vítima da inveja de seus irmãos, conseguiu deles defender-se, mas foi punida por seu pai, que a atirou no rio (ou, ainda, em outra versão, teria sido violentada e sequencialmente arremessada no rio e, pro meio de seu canto, seguiria atraindo homens, arrastando-os para o fundo das águas. Num claro lembrete de que, da mesma forma que Eva, leva o masculino à perdição.

Talvez sejam esses apenas exemplos de como foi construído o pensamento misógino, no qual estamos todas e todos imersos e, cada vez mais, é preciso ser entendida essa trama, a fim de que possamos estabelecer uma outra sociedade, em que os gêneros tenham, de fato, equidade.

Comecemos, então, pelo Patriarcado. Sua etimologia remonta ao grego “governo do pai” (do grego “pater” e “arkhos”), sendo uma estrutura social onde os homens detêm poder e autoridade. Ao referir-se a pai, acompanha o componente “archi/archon”, relativo a arquiteto, a figura do líder com “status” de poder. No latim vulgar e tardio (“patriarchatus”), possui o sentido de “pátria/patris”. É deste conjunto significativo que a figura do Grande Líder, o mandatário, se liga ao projeto de subjugação dentro da estrutura social em que o domínio do homem sobre a mulher se constrói. Então, na formulação de normas e de valores, fica estabelecido, “ad continuum”, a subordinação do segundo pelo primeiro em todos os campos sociais. Como o próprio substantivo denota, existe uma hierarquia nas relações sociais, as quais reforçam o sexismo e suas consequências, já que naturalizam a desigualdade e, portanto, a violência de gênero.

O papel feminino, portanto, fica restrito aos trabalhos ditos inferiores, —mesmo que não o sejam —, havendo a normalização de atitudes masculinas que estabelecem o poderio a um gênero em detrimento de outro. Vemos, a cada dia, “pessoas” em púlpitos bradarem a subserviência da mulher, para apanhar calada ou ser violada em sua intimidade, como se fossem fatos absolutamente corriqueiros e necessários para a tranquilidade da sociedade e, obviamente, da moral e dos “bons” costumes — no que demonstram estar carregados de sangue. O patriarcado religioso, então, confere à família e ao seu líder o direito de bem-viver e de ter à sua disposição criaturas que o obedecem e o respeitam sem discutir.

Como percebemos no cotidiano social, o patriarcado ao excluir as mulheres dos principais postos de poder, tanto sociais como econômicos, produz a dependência feminina, visto essa ficar à mercê de seu proprietário e de seus consequentes abusos físicos, psicológicos e morais. Na esfera pública ele também exclui as mulheres do poder político e econômico, enquanto a privada regula as relações familiares, consolidando o controle masculino, tanto no espaço doméstico quanto nas instituições sociais.

Ao estabelecer essa dependência, o patriarcado se une ao capitalismo ao explorar a mão de obra feminina com o intuito de sustentar o acúmulo de riquezas. Dentro desse espectro, a negação dos direitos básicos à mulher tira dela o poder de decisão de sua vida e a expõe a violências, ferindo intensamente sua capacidade de vislumbrar a sua condição particular como criatura/indivíduo — que possui e necessita de crescimento intelectual e também moral, o que afeta seu lado psicológico. Como consequência desses nefastos pensamentos e práticas está a perpetuação das desigualdades, segregando o feminino dos espaços sociais e ocasionando, portanto, a violência de gênero, pelo claro desprezo ao á mulher. Incrível, portanto, como a maioria da população brasileira, feminina, é tratada como minoria identitária, como os pretos.

Todavia, por mais que haja tentativas de silenciamento, o Movimento Feminista — tão frequentemente mal visto — propõe o debate. Onde está a justeza desse desprezo? De que forma nós, mulheres, não temos alma? Por que não querem nos deixar decidir sobre nossos corpos, ofertando-nos o lugar de, pura e simplesmente, meras reprodutoras?

É esse pensamento o que molda as estruturas sociais mantendo, dessa forma, o “status quo”. A menina que ganha bonecas e panelas para brincar de casinha está sendo moldada a repetir o sistema: parece que, ao segurar a boneca, eclode o sentimento de maternidade, visto a mulher ter nascido com esse instinto. Assim, diz-se: todas as mulheres devem ser mães e as que não o são estão incompletas, mesmo que não sintam a menor aptidão para tal. É essa imposição social que nos coloca em situação delicada, pois temos jornadas exaustivas de trabalho e de compromisso; quanto mais pobres e com menor escolaridade, esta dificuldade se agiganta.

Quanto ao parir, devemos enfatizar que a vida que se gera decorre de um ato de amor e, somente, assim queremos; não por imposição de uma sociedade cruel que mata a vida ao invés de soprá-la, que é o levar pelo vento, pelas nuvens e pelas flores a amorosidade necessária ao sentir. Já disse o poeta Altino Caixeta [3]: “Aperfeiçoa-te na arte de escutar, só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”. É preciso, pois, escutar com o bom ouvido, aquele que está na presença magnânima de Deus, em toda a nossa trajetória.

Somos, então, meras cuidadoras em um mundo que teima em não reconhecer nossas aptidões. Mulheres com filhos têm mais dificuldades em conseguir emprego e a maioria é demitida em até dois anos após o período de licença-maternidade. Mesmo com igual (ou maior) escolaridade seu salário, provavelmente, será menor — e, concorrendo à vaga com um homem, certamente perderá. Assim, dizemos que nós, mulheres, lutamos com dificuldades para ascender em nossas carreiras. Dizem até que somos sensíveis, mas não racionais; e, como frágeis, somos necessitadas de um braço forte (de homem) para sustentar a nossa vida.

Mas há muitas mulheres que lutam e rompem tais cenários. Quantas de nós revolveram estruturas, moldaram caminhos, espalharam a paz dentro de suas buscas. Minha vó sempre, Maria Paulina Kenebres, dizia: “trabalhei para vocês crescerem”. Nós, espíritas, temos uma mulher desse quilate: Amélie-Gabrielle Boudet. No percurso espírita, na construção da Filosofia Espírita, Kardec teve junto a si o amparo do braço amigo de sua esposa, a qual não deve ter medido esforços para que, juntos, conseguissem vencer as adversidades. Tudo com o propósito de desvendar, tirar o véu, de forma simples e consequente [4].

Mas, como ela, quantas mulheres, do ontem e do hoje, tiveram/têm sua trajetória apagada, pouco valorizada ou, simplesmente, negada?

A Filosofia Espírita, assim, foi fruto de muito trabalho do Senhor Rivail, que se tornou Kardec, e não só Amélie o auxiliou, mas muitas médiuns — veja-se, aqui, que a palavra só possui o gênero masculino. Eram elas: Sra. Japhet, Ermance Dufaux, Madame Plainemaison. Houve homens, também, é claro. Todavia, neste artigo queremos mostrar a presença feminina dentro da Obra Kardeciana.

De lá para cá, como em toda a história humana, nas casas espíritas a presença da mulher também foi eclipsada, quando não o deveria, porque o corpo é, apenas, o instrumento transitório do Espírito. Ser mulher e espírita, então,  é uma prova a mais, porque não somos valorizadas conforme nosso trabalho e todo nosso potencial. Os Presidentes de Sociedades Espíritas e seus amigos detêm um vasto poder e vasta vitrina sem importarem-se com a atuação feminina. Esta está, sempre, um passo atrás do masculino, o qual se locupleta em seu poder e sombra vazios. Não é por acaso que muitas casas estão a envelhecer, em termos de dirigentes e frequentadores, sem se dar conta de que “Narciso acha feio o que não é espelho”, como cantou Caetano Veloso [5].

Infelizmente, Kardec não foi entendido por seus continuadores — incluindo muitos de nós —, pois permanecemos a exacerbar a vaidade e a exclusão verificada na sociedade de todos os tempos. Seguimos sem nos darmos conta de que a verdadeira missão está em servir, não em abafar personalidades. Mesmo que os Espíritos Superiores tenham deixado claro que o Espírito não possui sexo como nós o entendemos — e, portanto, a inferioridade que supostamente a mulher teria nada mais é do que crueldade do homem em relação a ela, devido ao pouco crescimento moral — seguimos exercendo o poder da força, em detrimento do Direito.

Há muito que caminhar e crescer, para superar esta continuada onda de atraso em que estamos imersos. Ser mulher é, portanto, mais um desafio: levantar o corpo, racionalizar, seguir e perseverar nessa imensa trincheira na qual estamos. Se o patriarcado moldou pensamentos e ofertou-nos somente a exclusão e a submissão, está na hora de instalar-se o matriarcado com um sinal claro de que nós, diferentemente os homens, estamos aqui para cooperar, não para disputar. A cada dia um passo, a cada passo um avanço. Isto porque, como disse a filósofa [6], não nascemos mulher; nos tornamos! [7]

Por isso, repito para mim mesma, buscando a ressonância em cada mulher espírita a que este artigo chegar: Mulheres espíritas, avante!

Notas do ECK:

[1] O debate foi conduzido, em 15 de dezembro de 2025, no canal do ECK no Youtube, por Marcelo Henrique, com a participação de Sandra Fiore e Maria Cristina Rivé. A gravação pode ser vista em: <LINK>. Acesso em 20. Dez. 2025.

[2] Almeida, S. L. (2019). “Racismo estrutural”. São Paulo: Pólen.

[3] Altino Caixeta de Castro (1916-1996), poeta e escritor mineiro, conhecido como “O Leão de Formosa”.

[4] Recomendamos a leitura do artigo “A Grande Dama ao lado de um Grande Homem”, de Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique, publicado no Portal ECK. Disponível em: <LINK>. Acesso em 20. Dez. 2025.

[5] Poema-canção de Caetano Veloso, intitulado “Sampa”, lançado em 1978.

[6] Simone de Beauvoir, ou Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, intelectual, escritora, filósofa existencialista, teórica social francesa ativista política e feminista.

[7] Em outro texto de nossa lavra, “Por favor, nos deixem falar!”, abordamos a importância dessa afirmação. Publicado no Portal ECK. Disponível em: <LINK>. Acesso em 20. Dez. 2025.

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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