Veríssimo não morreu, por Milton Medran Moreira

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Veríssimo não morreu

Milton Medran Moreira

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Na leveza sarcástica com que revestia seus escritos e personagens, Veríssimo abria um espaço imenso de postulação de um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais igualitário e muito, muito menos complicado.

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Há anos, quando lancei meu livro de crônicas “O Espírito de um Novo Tempo ou Um Novo Tempo para o Espírito”, na Feira do Livro de Porto Alegre, tive a sorte de compartilhar o mesmo pavilhão de autógrafos, lado a lado, com Luís Fernando Veríssimo.

Minhas filhas, fãs do grande cronista porto-alegrense, aproveitaram para levar um exemplar de meu livro para ele que, gentilmente, agradeceu e guardou, seguindo a atender a imensa fila (muito maior do que a de seu vizinho) com seus preciosos autógrafos.

Não sei se ele chegou a ler algo do que escrevi em um livro cujo foco principal era tratar das grandes questões da vida e da morte e da continuidade daquela depois desta.

Agora, com sua morte, jornais e muitos espaços virtuais vêm publicando frases que compuseram algumas de suas milhares de crônicas, estampadas em jornais e revistas de todo o Brasil, por esse meio século em que Veríssimo mantinha, neles, suas apreciadas colunas. Algumas tocam nessa importante questão da filosofia e das crenças, sempre pontuadas pela dúvida e por um certo temor experimentado pelo escritor.

Numa delas, aquele que considero o maior cronista de meu Estado diz assim: “Meu medo é que tenha outra vida após a morte, mas que seja só para debater esta”.

Nela, Veríssimo centraliza na existência terrena toda a experiência do ser humano, mas abre espaço para que, em outra dimensão, a gente fique avaliando o que aqui se viu, ouviu e se fez.

Não está tão longe, assim, daquilo que nós, espíritas, pensamos acerca do que acontece com o Espírito, pelo menos no tempo imediato ao desprendimento do corpo físico. A encarnação é um capítulo tão importante na vida do ser espiritual que deve, mesmo, acarretar uma profunda reflexão, logo que chegamos a uma outra dimensão da vida.

Fico a pensar, agora: se essa sensação está experimentando o querido escritor gaúcho, no encontro com almas afins, por certo há de sentir-se tão leve e tão gratificado como nos sentíamos nós, sempre que líamos suas crônicas.

Na leveza sarcástica com que revestia seus escritos e personagens, Veríssimo abria um espaço imenso de postulação de um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais igualitário e muito, muito menos complicado.

A vida, para ele, mesmo que se restringisse ao aqui e agora, tinha uma dimensão ética enorme, que, ao nosso ver, só cabe na perfectibilidade do Espírito imortal. E ele tinha essa intuição, muito claramente expressa, aliás, quando, certa feita, escreveu: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”.

Claro que um ser dessa sensibilidade não morre nunca. Não pode morrer. Porque, ao contrário, a vida nada seria. E a morte, nesse caso, como também escreveu, de outra feita, seria uma “grande sacanagem”.

Nota do ECK: Crônica escrita “por encomenda”, atendendo à solicitação do ECK em marcar a trajetória do escritor gaúcho, com ideias tão peculiares ao modo de pensar espírita.

Imagem de Jaro Tessloff por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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