Materializações luminosas, críticas iluminadas?, por Vladimir Alexei

Tempo de leitura: 3 minutos

Vladimir Alexei

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O legado de Chico Xavier merece uma análise que considere a complexidade dos fenômenos e a integridade de uma vida inteira dedicada ao bem.

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Houve um tempo em que as discussões em torno do que se divulgava a respeito do Espiritismo visavam, principalmente, o aprendizado sobre a Doutrina. Entre os polemistas mais conhecidos do meio espírita, citaremos dois dos mais profícuos e proeminentes: o advogado, jornalista e escritor Carlos Imbassahy (1884 – 1969) e o filósofo e professor Herculano Pires (1914 – 1979). Para além da vasta produção literária, ambos possuem traços marcantes, sendo a ética o princípio fundamental que se reflete em cada uma de suas obras.

O espírita — aquele que estuda o Espiritismo como mecanismo de transformação interior — sabe que Allan Kardec, na “Revue Spirite”, de novembro de 1858 [1], definiu as bases de uma polêmica espírita. A partir da compreensão de que é necessário esclarecer o que é e o que não é Espiritismo, Imbassahy e Herculano dedicaram décadas de estudos e pesquisas para orientar a interpretação das revelações doutrinárias.

Essa introdução abre espaço para contextualizar as críticas que surgem na internet acerca do trabalho de figuras históricas, sobretudo quando envolvem o nome de Chico Xavier. Cabe ressaltar que esta reflexão não parte de um olhar dogmático, embora reconheçamos a importância da obra e do trabalho assistencial do médium mineiro.

É inegável que o nome de “Chico Xavier” proporciona visibilidade. Por isso, ao lado de pesquisadores sérios, surgem abordagens que buscam o impacto do “desmascaramento”. É oportuno pontuar: Chico Xavier não era infalível, e a própria Doutrina Espírita não sustenta o conceito de “santidade” ou infalibilidade para seus expoentes. Eventuais divergências em uma obra de tamanha magnitude são esperadas em qualquer trajetória humana.

No entanto, quando análises se utilizam de um recorte isolado, que pode sugerir ou até induzir para generalizar conclusões, é preciso cautela. A cautela não é em relação às pessoas e, sim, como parte do processo de aprendizado.

Em um vídeo recente, um especialista analisa duas imagens de materialização do médium Peixotinho (1905 – 1966) e aponta o que considera serem evidências de produção artificial, baseando-se na semelhança facial com atrizes de revistas da época. O vídeo sugere que, por ter assinado o verso das fotos, Chico Xavier poderia ter sido conivente com uma possível fraude.

Para compreendermos essa semelhança iconográfica, é fundamental recorrer à tese de Herculano Pires, em sua obra “Mediunidade”. Herculano esclarece que o ectoplasma possui uma natureza essencialmente plástica e é moldado pelo pensamento — processo conhecido como ideoplastia. Muitas vezes, o que se manifesta não é a “face espiritual” em sua essência, mas um simulacro ou mimetismo de imagens presentes no campo mental do médium ou dos assistentes. Portanto, a coincidência entre a forma materializada e uma imagem de revista não é, sob a ótica da Ontopsicologia proposta por Herculano, em “O Espírito e o Tempo”, uma prova de fraude, mas sim a evidência da lei de plasticidade que rege o fenômeno.

Poder-se-ia alegar (em um contraponto puramente materialista) que o testemunho de Chico Xavier e dos demais presentes seria falho por não possuírem instrumentos de perícia técnica. Entretanto, tal argumento reduz a experiência fenomenológica a um mero exame visual de uma foto estática.

O que as nove assinaturas atestam não é a análise de uma fotografia, mas a vivência de um fenômeno sensorial-mediúnico. A experiência incluía a percepção de batimentos cardíacos, variações térmicas e interações diretas com as formas materializadas. Atribuir conivência a Chico Xavier por ele ter testemunhado um fato que a tecnologia de hoje correlaciona a uma imagem de revista é um anacronismo metodológico que ignora a totalidade do evento em favor de um fragmento visual.

Em suma, embora a técnica apresentada no vídeo aponte correlações visuais curiosas, a conclusão de “fraude deliberada” é uma interpretação subjetiva que ignora as leis da Ciência Espírita estudadas por Herculano Pires. O tom efusivo da denúncia parece servir mais ao espetáculo das redes sociais do que ao esclarecimento que a ética exige. Como diz o ditado: “devagar com o andor, que o Santo é de barro”. O legado de Chico Xavier merece uma análise que considere a complexidade dos fenômenos e a integridade de uma vida inteira dedicada ao bem.

Nota do ECK:

[1] Artigo “Polêmica Espírita”, encartado no citado fascículo mensal do periódico espírita fundado e dirigido, até a edição de abril de 1869, por Allan Kardec, cuja referência segue, abaixo, em “Fontes”.

Fontes:

Kardec, A. (1993). “Revue Spirite”. Trad. Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. Araras: IDE.

Pires, J. H. (1084). “Mediunidade: vida e comunicação”. Conceituação da Mediunidade e Análise Geral dos seus Problemas Atuais. 5. Ed. São Paulo: Edicel.

Pires, J. H. (1995). “O Espírito e o Tempo: introdução antropológica ao Espiritismo”. 7. Ed. Sobradinho: Edicel.

Imagem de MMT por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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