Feminismo Inclusivo e a Liberdade de Existir, por Marcelo Henrique e Maria Cristina Rivé

Tempo de leitura: 9 minutos

Marcelo Henrique e Maria Cristina Rivé

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A dignidade humana não pode ser condicionada à conformidade com normas de gênero. A liberdade só é real quando inclui TODAS as mulheres!

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O que deseja uma mulher? De que ela precisa? Por que quase tudo (senão tudo) o que a ela se refere requer, para seu efetivo alcance, o uso de uma força descomunal para o reconhecimento de sua plena identidade, da legitimidade dos seus direitos e da comum e natural via da existência físico-espiritual?

Mulheres são Espíritos. Igualmente aos Homens. Seres humano-espirituais. A precisa definição que é, singularmente, biológica alcança a plenitude quando se avança na direção da transcendência: a Alma, que é o que preexiste e sobrevive ao envoltório físico-material, mesmo que ainda não entendida em sua completude, pelas barreiras das metodologias das ciências humanas, com a enorme dificuldade da “prova” acerca do porvir, o além-morte, mesmo quando circunscrita à realidade do contexto da existência, encontra em variados ramos científicos a sua comprovação: há um Q a mais que as meras células biológicas!

Ainda que este ensaio esteja albergado num espaço que é, por muitos, relativo ao “campo” das religiões ― o Portal ECK ―, entender o Espírito humano sob as lentes espirituais não é patrimônio de igrejas, cultos ou seitas. Muitos foram os cientistas e intelectuais dos três últimos séculos – incluso o nosso – que se debruçaram sobre a Alma ou o Espírito, para tentar compreender o que há para além da mera fisiologia. Então, a pergunta que nos cabe entabular é: O que é SER MULHER?

Em um outro artigo desta plataforma (Oliva & Henrique, 2026, grifamos), trabalhamos a simbiose entre os conceitos de gênero e identidade de gênero, afirmando:

“a Identidade de Gênero refere-se aos papéis, comportamentos, atividades e atributos socialmente construídos que uma determinada sociedade considera apropriados para homens, mulheres e, também, pessoas não binárias. Diferentemente do sexo biológico (aquele que é definido por características anatômicas), o gênero é aprendido, culturalmente específico e mutável ao longo do tempo, daí falar-se na Identidade de Gênero[1].

Assim sendo, além do SER MULHER, biológica e organicamente, como resultado da morfologia que se define na gênese do indivíduo, tem-se, forte e licitamente, o ESTAR MULHER: o RECONHECER-SE MULHER e ser RESPEITADA, VALORIZADA, AMADA e, como é o mote desta missiva, DEFENDIDA. Sempre e sem quaisquer tentativas de minimização ou anulação! [2]

Pois, então, nossos escritos são para a garantia plena e inafastável do DIREITO DE ESTAR ― e, consequentemente ― DO DIREITO DE SER MULHER de uma valorosa personagem dos nossos tempos, em nosso país e, por extensão, no planeta.

Falamos especificamente da Deputada Federal Erika Hilton (PSOL-SP) [3], que ocupou as páginas de imprensa e referências da internet, no Brasil, nos últimos dias, com grande repercussão internacional, ao assumir a presidência da Comissão (dos Direitos) da Mulher na Câmara dos Deputados [4]. Já no sufrágio da própria comissão, se viu a intransigência e a abissal dificuldade de se respeitar o outro como ele realmente é e, no caso da representação política, as atitudes de embargo representam atrasos na postura pessoal (e coletiva, dos parlamentares envolvidos e suas agremiações partidárias) de aceitar as diferenças identitárias [5].

Sim, porque a condição TRANS ao oposta da CIS foi utilizada por parlamentares, tanto os da referida comissão quanto outros que compõem a casa legislativa, com alegações de que, com Erika na presidência, as mulheres não estariam sendo representadas [6].

Em um mundo como o nosso, ainda neste terceiro milênio, em que ser mulher já é algo assaz complicado, SER uma MULHER trans configura uma luta ainda maior, para a afirmação da própria identidade em um contexto em que, muitas vezes, se tenta negar tanto sua existência quando o exercício do conjunto de direitos correlatos. Erika, assim, materializa o profundo gesto de dizer “eu sou”, não obstante as pressões e os combates, a partir dos meros olhares (de reprovação e censura), para muito além das normas (no nosso caso, brasileiro, não-escritas, nem sociais, considerando o todo, mas que configuram a ideologia presente em muitas individualidades – mulheres e homens) que tentam enquadrar corpos e vidas.

Vale dizer que a mulher trans não nasce de uma ideia pronta de feminilidade: ela constrói, reinventa e reivindica sua mulheridade [7] todos os dias, com coragem, sensibilidade e resistência.

Historicamente marginalizadas, muitas mulheres trans enfrentam violência, exclusão social e dificuldades de acesso a direitos básicos. Ainda assim, suas trajetórias revelam uma potência transformadora: ampliam o entendimento do que é SER MULHER e desafiam estruturas rígidas de gênero. Reconhecer e respeitar as mulheres trans é um passo fundamental para uma sociedade mais justa. Significa compreender que a identidade de gênero é uma experiência humana legítima e que dignidade, afeto e cidadania não podem ser negados a ninguém.

Ser feminista é lutar por liberdade — e liberdade não admite fronteiras dentro do próprio corpo das mulheres. Mulheres trans são mulheres, e sua existência amplia, desafia e fortalece a luta feminista. Não aceitamos um feminismo que exclui. O patriarcado sempre tentou controlar quem pode ou não SER MULHER, quem merece voz e quem merece dignidade. Nossa resposta é coletiva: toda mulher tem direito a existir com segurança, respeito e autonomia.

Defendemos um feminismo que reconhece as múltiplas experiências de SER MULHER: cis, trans, negras, indígenas, periféricas, com deficiência, jovens e idosas. A libertação só é verdadeira quando ninguém fica para trás. Porque, quando uma mulher trans se levanta, todo o feminismo avança: porque a identidade de uma trans é a mesma de uma mulher biológica: novamente o SER MULHER.

Diante deste contexto, torna-se fundamental, para este Brasil de 2026, observar também, e de forma destacada, com uma lupa, o papel da mídia. A transfobia (tal qual a homofobia, a misoginia, a xenofobia, a aporofobia), em numerosas situações do nosso cotidiano, aparece disfarçada de “opinião” ou “debate”. Todavia, na prática, ela reforça alguns estigmas e nega, inclusive de forma violenta, ― no falar e no agir ―, a legitimidade da identidade de pessoas trans.

Vamos, pois, aos fatos. Quando figuras públicas com grande alcance social, em face do “poder televisivo”, como o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, fazem declarações em que se questiona a identidade de mulheres trans [8] ― exatamente o caso em tela, envolvendo a deputada Erika Hilton ― o impacto ultrapassa o “status” de mero (!) (?) comentário individual. Ele reforça, estrutura, normaliza e amplifica os discursos de exclusão, tradicionalmente repetidos entre aqueles que não admitem, pela influência das religiões, da rígida formação familiar, da ausência de cultura especializada, ou de outros elementos moralistas presentes em nossa sociedade.

Deste modo, as emissoras de grande alcance, como o SBT, assim como os grandes portais de notícias que são acessados da palma da mão, têm um papel formador de opinião e, por conseguinte, de responsabilidade social. Como não há, em regra, censura prévia, a jornalistas, blogueiros, youtubers ou apresentadores de programas ― porque, em regra, só há alguma admoestação ou recomendação depois do “leite derramado” ― o cenário é o da libertinagem travestida de liberdade de expressão. Ou seja, o que o indivíduo pensa, do alto de sua “autoridade midiática” é seguido às cegas por milhões de pessoas. E o alcance de uma afirmação desta natureza é incomensurável.

Para utilizar uma parábola que se aplica ao caso em questão, consideremos a seguinte situação. Num dia de vento forte, na cidade onde você reside, imaginemos que você tenha em mãos um daqueles travesseiros da sua avó (ou bisavó) com penas de ganso. Pois bem, você sobe no prédio mais alto de sua cidade e, abrindo o travesseiro, o sacode na direção em que o vento esteja soprando. As penas, uma a uma, vão se espalhar no ar, alcançando locais impossíveis de ser mapeados. Aí, então, você se dispõe, descendo até o térreo, a tentar recolher, uma a uma, as penas. Ao final de minutos, horas ou até dias, é de se perguntar: ― Quantas penas você conseguiu recolher de volta?

Jamais todas as penas estarão, de novo, acondicionadas na fronha do travesseiro. Muitas delas terão sido perdidas, inexoravelmente.

É exatamente assim em relação ao que é dito ou escrito sobre determinadas pessoas. O que foi lido ou escutado por milhares ou milhões de pessoas ficará (quase) eternizado como a “opinião verdadeira ou certa” sobre ela. Se for dito algo infame, depreciativo, vergonhoso ou tiver sido imputada a responsabilidade acerca de um crime, quando desmentido ou retificado, nunca as mesmas pessoas que ouviram/leram a inverdade terão acesso ao “direito de resposta” ou à retratação ― inclusive por determinação judicial ― acerca da “opinião” de alguém sobre outrem.

No caso em tela, o apresentador Ratinho expôs a sua mísera opinião individual ― que deveria, por senso de justiça e responsabilidade ― ter ficado restrita aos “seus (próprios) botões”, ou no recôndito de sua consciência ou tela mental. A partir do momento em que ele se arvora no direito de ser juiz de terceiro e de ditar como regra ou norma, para a sociedade, a sua análise sobre determinado personagem, não há comunicação social, imprensa ou direito à livre expressão. Há uma série de crimes, a começar pelo desrespeito à identidade de outro ser humano, independentemente do que ele seja ou do que faça, licitamente.

Neste caso, é imperioso ir além da denúncia pontual! O que está em jogo não é apenas uma fala infeliz ou um episódio midiático isolado: trata-se de uma disputa profunda sobre quem tem o direito de existir plenamente na esfera pública. A transfobia, assim como o racismo e o sexismo, por exemplo, opera como um mecanismo de controle social. Ela tenta, a todo preço, reduzir vidas complexas a caricaturas, silenciar identidades, definir padrões de comportamento, limitar o exercício dos direitos fundamentais da pessoa humana e, como corolário disto tudo, impor uma ordem moral baseada intrínseca e hediondamente no medo da diferença.

A trajetória das mulheres e a construção da chamada filosofia feminista nos fazem recordar que as identidades humanas NÃO são prisões biológicas, mas, do contrário e verdadeiramente, a riqueza das experiências vividas, construídas, todas, na relação entre corpo, cultura e liberdade e, também, entre indivíduos, grupos identitários e coletividades sociais. Negar a identidade de uma mulher trans não é um “debate conceitual”: é um gesto político de exclusão! É uma tentativa de retirar humanidade de quem ousa existir fora das normas impostas! E, toda vez que a humanidade de alguém é negada, vilipendiada ou subtraída, toda a sociedade se torna mais pobre moralmente!

Disse, certa feita, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986): “Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância” [9]. Essa frase ecoa com imponderável força no presente. Porque a luta das mulheres trans também é uma luta pela própria definição da liberdade humana. Quando uma pessoa precisa justificar a própria existência, não é apenas ela que está sendo julgada, é a própria ideia e noção de humanidade que está em julgamento.

Ser feminista, portanto, é escolher um dos lado nessa verdadeira disputa moral. É afirmar, pois, que a dignidade humana não pode ser condicionada à conformidade com normas de gênero. E é, neste contexto e como uma realidade macro que a tudo inclui, reconhecer que a liberdade só é real quando inclui TODAS as mulheres!

Porque nenhuma identidade humana precisa de autorização para existir. E toda vez que uma mulher trans afirma “eu sou”, ela não está apenas reivindicando seu lugar no mundo, mas ela está ampliando as fronteiras da liberdade para TODAS as mulheres. E é por isso que os verdadeiros homens também subscrevem essa luta como a que pertence a TODA A HUMANIDADE!

Erika Hilton, SIM!

Notas dos Autores:

[1] Neste mesmo artigo, a Deputada Érika Hilton é citada: “Uma MULHER TRANS, por sua vez, pode ter um relacionamento HÉTERO com um HOMEM TRANS – como é o caso da Deputada Federal Érika Hilton. Ambos são TRANSGÊNEROS, mas sentem ATRAÇÃO SEXUAL pelo gênero OPOSTO. Então, SÃO UM CASAL TRANS HÉTERO” (Oliva & Henrique, 2026).

[2] O Coletivo “Espiritismo COM Kardec” tem pautado o SER MULHER desde a sua fundação, em 2017, de modo único e permanente, no segmento espiritista, no Brasil e no Mundo. Caso você, utilizando o recurso “Pesquisar” (“lupa”) em nosso Portal ECK, irá encontrar (atualmente), 16 (dezesseis) artigos e ensaios sobre esta temática. Alguns deles, pela correlação direta com o mote deste ensaio, são descritas, abaixo.

[3] A biografia oficial da Deputada Erika, no Portal da Câmara dos Deputados, assim consigna: “Erika Hilton é a primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. Em SP, teve 256.903 votos. Vereadora mais votada do país em 2020, por 2 anos foi a presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo” (Câmara dos Deputados, 2023).

[4] A eleição ocorreu em 11 de março de 2026, por onze votos a zero (dez votos brancos). Conforme a Agência de Notícias do Legislativo Federal, “No discurso de posse, ela lembrou que é a primeira mulher trans a presidir a comissão. Ela disse que pretende conduzir a gestão com diálogo e defesa dos direitos das mulheres” (Câmara dos Deputados, 2026).

[5] A matéria de “Veja” destaca isso com nítidas cores: “O resultado contrariou parlamentares identificados com a direita, que, além de terem votado em branco como forma de protesto, argumentaram que a psolista, por não ser uma mulher cisgênero, não pode representar os anseios do público feminino no Brasil” (Dall’Agnol, 2026).

[6] Ilustra esse posicionamento parlamentar a fala de uma deputada (Congresso em Foco, 2026): “A deputada Clarissa Tércio (PP-PE) também se opôs à eleição ao afirmar que Erika “não sabe como é SER MULHER”, porque nunca gerou um bebê, amamentou ou menstruou. Segundo a parlamentar, sem essa experiência, a presidente não pode representar os direitos femininos”.

[7] A mulheridade é um conceito correlacionado à construção cultural, vivencial e social daquilo que significa SER MULHER, superando as definições pura e meramente biológicas. Compreende, assim, um rico mosaico das experiências humanas, abrangendo raça, classe, orientação sexual e identidade trans, no âmbito da diversidade, da pluralidade e da resistência das vivências femininas (Nugen, 2022).

[8] A fala, ao vivo, no “Programa do Ratinho”, foi reproduzida por vários canais e sites, como “O Antagonista”, que consta em “Fontes”.

[9] Atribuída a Beauvoir, a fala compõe, dentre outras, uma entrevista hipotética em “Conversas com Escritores Mortos” (Nogueira, 2017).

[10] S

 

Fontes:

Câmara dos Deputados. (2023). “Erika Hilton”. Deputados. Disponível em <LINK>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Câmara dos Deputados. (2026). Erika Hilton é eleita presidente da Comissão dos Direitos da Mulher em votação polêmica. Direitos Humanos. “Notícias”. 11. Mar. 2026. Disponível em <LINKa>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Congresso em Foco. (2026). Em meio a críticas, Comissão da Mulher elege Erika Hilton presidente. “Notícia”. 12. Mar. 2026. Disponível em <LINK>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Dall’Agnol, L. (2026). A reação da direita à vitória de Erika Hilton na Comissão dos Direitos da Mulher. “Veja”. Brasil. 11. Mar. 2026. Disponível em <LINK>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Nogueira, C. “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância”. “DCM”. 25. Set. 2017. Disponível em <LINKa/>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Nugen. (2022). Mulheridades não hegemônicas. “Núcleo de Gênero e Diversidade”. Universidade Federal de Pelotas. 18. Abr. 2022. Disponível em <https://wp.ufpel.edu.br/nugen/2022/04/18/mulheridades-nao-hegemonicas/>. Acesso em 15. Mar. 2026.

O Antagonista. (2026). “O que aconteceu entre Ratinho e Erika Hilton? Entenda a polêmica que parou a Brasil”. 12. Mar. 2026. Disponível em <LINK>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Oliva, E.; Henrique, M. Falando de Gênero e Sexualidade! Mas, com o conteúdo e a empatia da Filosofia Espírita. “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 2. Mar. 2026. Disponível em <LINK>. Acesso em 15. Mar. 2026.

Brasília (DF), 25/02//2025 – Deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), parlamentares aliados e signatários, juntamente com representantes do Movimento Vida Além do Trabalho, durante coletiva à imprensa após protocolarem a PEC contra a Escala 6×1 . Foto: Lula Marques/Agência Brasil

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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