Ciência, Filosofia e Espiritismo, por Ernesto Moog (in memoriam)

Tempo de leitura: 7 minutos

Ernesto Moog (in memoriam)

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Só o Espiritismo pode trazer o equilíbrio, a harmonia, o refinamento e a purificação de que os atuais conhecimentos científicos e filosóficos necessitam, para completar nova ideia do Universo onde caiba sem esforço a mais completa, transcendente e exata realidade do Ser, que já se vislumbra nas ciências físicas, psicológicas e metapsíquicas.

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Quem seguir atentamente as prodigiosas evoluções do pensamento científico e filosófico do atual momento histórico não deixará de observar que todos os aspectos do conhecimento experimentaram mudanças e renovações enormes nos últimos decênios.

Pode dizer-se, sem receio de errar, que se estão a construir as mais extensas e sólidas bases que ainda se conheceram, para sobre elas erguer uma verdadeira teoria moderna do conhecimento, de incalculável valor para o Espírito e que ao homem fornecerá a chave dos mais enigmáticos problemas do Universo, do Ser e da Vida. Uma nova visão filosófica, cientifico-espiritualista, está prestes a plasmar-se na mente humana, visão de consequências imprevistas e para cuja direção, em futuro próximo, o homem orientará a cultura, o procedimento e a ação.

De modo fundamental e ao mesmo tempo que os outros mais modernos ramos da investigação e do saber, dois avançados aspectos da ciência e da filosofia, completam essa nova visão do cosmos.

Um é a ciência metapsíquica, com seus profundos e rigorosos dados acerca da psicologia e fisiologia supranormal e das faculdades parapsíquicas do indivíduo, que demonstram testemunhalmente a existência e ação de um dínamo-psíquico essencial, real e permanente (Espírito), que organiza e repara o corpo físico, e sobrevive à sua desintegração material, susceptível de produzir, depois da morte: manifestações metapsíquicas escrupulosamente verificadas e classificadas ,por muitos investigadores, entre eles Dr. Geley, Prof. Ernesto Bozzano, Sir. Oliver Lodge, Prof. Crawford, Dr. Hodgson, Prof. Hyslop, F. W. M. Myers, etc.

O outro ramo é a filosofia espírita, a qual, como resultado da observação e da lógica e baseando-se no estudo experimental dos fatos metapsíquicos e espiritas, fornece valiosas noções acerca das leis naturais que condicionam o progresso espiritual dos seres e a evolução moral e intelectual que o indivíduo e a coletividade devem desenvolver, mediante seus próprios esforços de superação, para se libertarem da ignorância e dos instintos inferiores originais.

Mas além destes aspectos da ciência e da filosofia – os mais avançados que se conhecem – repetimos outros aspectos notabilíssimos provenientes do esforço investigador e do pensamento de sábios e filósofos que, sem o mínimo contato com a Metapsíquica e o Espiritismo, se aproximam deles, irresistível e naturalmente impulsionados pelos próprios estudos e trabalhos que encurtam cada vez mais o espaço que os separa entre si.

Quando esta distância for diminuída – e terá de ser mais tarde ou mais cedo – Ciência e Filosofia, Metapsíquica e Espiritismo serão um só, constituindo um espiritualismo científico e uma ciência espiritualista, de superior influência moral na humanidade, para realizar a fusão de termos e princípios aparentemente contraditórios, mas que irão se identificar numa fase superior do seu desenvolvimento.

Para demonstrar sintética e superficialmente a exatidão destas afirmações, basta considerar alguns dos surpreendentes descobrimentos e ideias que se sucedem em constante progressão e valorizá-los de acordo com a nossa tese.

Em Física, por exemplo, uma das ciências fundamentais desta época, notamos que se têm produzido verificações e descobertas que contribuem decisivamente para variar não só a imagem natural da realidade em função da qual vivemos, mas também para alterar o esquema conceitual da realidade, que até há pouco era o de atender o campo das ciências positivas.

As dimensões incomensuráveis do universo estudadas pela física cósmica (galáxias) e as dimensões infinitesimais investigadas pela microfísica ou física atômica (elétrons, prótons, etc.), resolvem-se à luz dos novos conhecimentos da Física, em conceitos para a compreensão de temas em que os nossos meios de percepção mais rigorosos, completos e seguros começam a se debilitar, em virtude de sua insuficiência. O átomo é essencialmente imaterial. Após os descobrimentos dos grandes físicos contemporâneos, Bohr, Heisenberg, de Broglie, Schroedinger, etc., o átomo foi despojado de toda a substância: não existe matéria, não existe espaço, não existe tempo, não existe causa, no sentido que a Ciência Natural tem dado a estes conceitos até há pouco. Só existem ondas de probabilidade no contínuo espaço-tempo determinado pela relatividade einsteiniana.

Mas agora os processos a serem cientificamente investigados, tornam-se tão sutis, delicados, imateriais, e penetram tão decididamente em tal plano de abstração, que os instrumentos usados não conseguem ir mais adiante. Chega-se assim a um campo em que ciência e filosofia convergem mais estreitamente do que nunca e as concepções espirituais se erguem já com nitidez e potência, como corolário das próximas investigações.

Se dos descobrimentos da Física passarmos aos da Psicologia, isto é, se do Universo passarmos ao Ser, veremos que os progressos realizados por este ramo cientifico contribuem igualmente para cimentar essa nova visão filosófica-espiritualista-científica de que falamos. No vasto setor desbravado pela Psicologia se encontram as concepções do Inconsciente Individual ou Coletivo (Jung) que enquadram problemas cuja interpretação conduz insensivelmente à convergência e interação entre ciência, filosofia e Espírito. As grandes imagens primordiais ou “arquétipos” que a psicologia do inconsciente encontra nos processos mentais normais e anormais do indivíduo revivem não só a história psíquica da humanidade, como também a sua história espiritual, suas expressões e aspirações e as mais profundas e sentidas experiências expressas em símbolos e imagens – através de sonhos, miragens, visões, fantasias e outros aspectos da atividade anímica do homem.

Tais imagens primordiais, corroborando os dados da Física moderna, denunciam a existência – por detrás do nosso mundo de representações físicas – de um indelimitável universo mental, um pensamento inespacial e atemporal, o que obriga a desconcertantes reflexões científico-filosóficas acerca desses desconhecidos aspectos da psique individual unida a uma Consciência Cósmica e desse desdobramento em faculdades e processos subconscientes, afastados por completo das categorias vulgares de nossas representações relativas de tempo, espaço e matéria.

Deste modo, num e noutro setor dos nossos conhecimentos atuais, observamos transformações profundas que a própria razão humana, ligada à antiga lógica aristotélica, não pôde captar, impotente, como é, para seguir a ciência e a filosofia de hoje. A investigação progride vertiginosamente e o pensamento não lhe vai na pegada. Ambos destroem obstáculos que pareciam insuperáveis, criam novas formas de pensar e, ultrapassando o materialismo e o positivismo, já tão limitados e simplórios, colocam-se, como dissemos, em níveis de abstração tão inesperados que o cientista e o filósofo são forçados a pensar para além do tangível e do ponderável, dilatando-se nos vastos planos do espiritual que, paradoxalmente, se transforma no mais real e no mais exato.

Assim, temos de exprimir simbolicamente os novos descobrimentos. por meio de fórmulas que mais participam do intuitivo, que do lógico. Temos de considerar abstratamente os elétrons, corno cargas incorpóreas de energia; o contínuo espaço-tempo einsteiniano tem de ser perseguido mentalmente, sem fixá-lo em qualquer representação concreta; quanto às imagens primordiais ou “arquétipos” da psicologia do inconsciente temos de considerá-las figurações inadequadas do universo mental e não como descrições diretas da verdadeira realidade inacessível. Não podemos encontrar realidade objetiva, declara filosoficamente a ciência, na sua linguagem mais espiritual. E todo o conhecimento moderno, em suas mais recentes noções e mais amplos e avançados pontos de vista – fora da Metapsíquica e do Espiritismo – se vai situando melhor na profundidade intrínseca das coisas (onde se encontrará, inevitavelmente, com a ciência e filosofia do Espírito), do que na sua extensão extrínseca, onde se radicava até há poucos anos.

Chegamos, assim, ao ponto em que ciência e filosofia incidem, sob os auspícios do Espírito, e em que suas linguagens, imagens e conceitos se fundem, à medida que se aproximam da realidade espiritual e intima, que se encontram em cada “processus” da vida e da natureza, do Ser e do Universo.

O desequilíbrio, que todos apontam, entre as potências morais e espirituais da humanidade e suas forças exteriores, materiais, é devido a não ter chegado ainda o momento em que Ciência e Filosofia, Metapsíquica e Espiritismo, se fundam no seu encontro e dele resulte aquela nova visão filosófica e moral, científico-espiritualista, de que falámos no princípio deste artigo e que, ao plasmar-se indelevelmente na consciência humana, dê origem a uma cultura inteiramente espiritual.

Só o Espiritismo pode trazer o equilíbrio, a harmonia, o refinamento e a purificação de que os atuais conhecimentos científicos e filosóficos necessitam, para completar nova ideia do Universo onde caiba sem esforço a mais completa, transcendente e exata realidade do Ser, que já se vislumbra nas ciências físicas, psicológicas e metapsíquicas.

Só a filosofia espírita pode englobar todos os conceitos filosóficos parciais que surgem das ciências modernas (que já entrevimos superficialmente), completando-os e tornando-os mais coerentes e grandiosos. ao estruturá-los mediante seus próprios ensinamentos, que compreendem a afirmação da natureza espiritual do homem, a sua evolução palingenésica, e a sua realidade dínamo-psíquica essencial e permanente que condiciona a matéria em representações orgânicas das quais recolhe experiência e sabedoria (que lhe permitirão ascender aos mais excelsos e inimagináveis graus de consciência).

Ciência, Filosofia e Espírito, no mundo atual, não são termos que juntamos por capricho ou em um desejo impossível de realizar. Através do Espiritismo e da Metapsíquica, Ciência, Filosofia e Espírito serão as bases de um mundo melhor, cujo único objetivo está na conquista da Suprema Consciência, da Suprema Justiça, do Supremo Bem e do Amor Supremo.

Nota do ECK: Artigo originalmente publicado na revista “Estudos Psíquicos – Mensário de Estudos Psíquicos e Neo-Espiritualismo Experimental”, Ano 8, n. 3, de março de 1947.

Imagem de Jean-Louis SERVAIS por Pixabay

 

Saiba mais sobre Ernesto Moog,

Ernesto Moog, espírita chileno, kardecista crítico e progressista, fundou e dirigiu a Sociedad de Estudios Metapsíquicos de Chile, e editava a revista “Cuadernos de Estudios Metapsíquicos de Chile”, além de ser correspondente das revistas “La Idea”, órgão da Confederación Espiritista Argentina; Constancia, órgão da Asociación Espiritista Constancia; e, “Estudos Psíquicos – Mensário de Estudos Psíquicos e Neo-Espiritualismo Experimental”.

Publicou o livro “Nueva visión del Universo. Nueva imagen del Hombre”, uma excelente obra na qual examinava a sobrevivência espiritual, reencarnação e os fenômenos mediúnicos, dentro de um contínuo, como pode ser apreciada no artigo, chegando a relacionar a física einsteiniana e a mecânica quântica, obra quase desconhecida do meio espírita brasileiro.

Pouco se conhece dele, tomamos conhecimento do mesmo em um discurso de Jon Aizpúrua proferido em outubro de 2000 no XVIII Congresso Espírita Pan-Americano, onde foi colocado lado a lado dos grandes pensadores como Léon Denis, Gabriel Delanne, Gustavo Geley, Ernesto Bozzano, Amalia Domingo Soler, Quintín López Gómez, Antonio Freire, Oliver Lodge, Cosme Mariño, Manuel Porteiro, Humberto Mariotti, Angelo Torteroli, Carlos Imbassahy, Herculano Pires, Deolindo Amorim, Soto Paz Basulto, Rosendo Matienzo Cintrón, Luis Zea Uribe, Ernesto Moog, Pedro Alvarez y Gasca, David Grossvater, Manuel Matos Romero.

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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One thought on “Ciência, Filosofia e Espiritismo, por Ernesto Moog (in memoriam)

  1. Publicado em 1947, 78 anos se passaram e ainda estamos descortinando o mundo invisível.
    Temos ainda muito a caminhar, os espiritas ainda se debatem sobre diversas visões trazidas das religiões em que cada um se originou… Estes conceitos trazidos se desvincula totalmente da religião e coloca o espiritismo como ciência de observação e uma nova postura filosófica. Quiçá os viventes no planeta Terra um dia desfrute desta compreensão da eternidade