Maria Cristina Rivé
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Resgatar Amélie Boudet é um ato de justiça histórica — e, também, um gesto político e espiritual. E é o que fazemos, uma vez mais, neste que é o dia em que se registra o seu (re)nascimento em corpo físico-material, na Terra. E é, principalmente, reconhecer que o Espiritismo, desde sua origem, não se constrói sem mulheres pensantes. Isto para registrar que não há revolução ética verdadeira quando (mais da) metade da humanidade (isto é o conjunto de mulheres) é silenciada.
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A história, na maioria das vezes, é marcadamente injusta com as mulheres, as quais sustentam veras revoluções silenciosas. No Espiritismo, esse apagamento tem nome: Amélie-Gabrielle Boudet. Quando se pronuncia “Allan Kardec”, raramente se diz, com a mesma ênfase, que “por detrás” do Professor francês, o inventor e organizador do Espiritismo, havia uma intelectual, educadora rigorosa, artista sensível e consciência ética vigilante. Amélie não foi apêndice, ornamento, nem sombra, muito menos ficou atrás de Rivail-Kardec. Foi a base, a crítica e a sustentação de um homem e de seu trabalho espiritual.
Formada em Belas-Artes e profundamente comprometida com a educação, Amélie Boudet pertenceu a um grupo raro de mulheres do século XIX que ousaram pensar, escrever e ensinar num mundo que lhes reservava apenas o silêncio doméstico. Autora de obras pedagógicas, defensora da instrução feminina e da formação moral, ela compreendia que a emancipação do Espírito passa, necessariamente, pela emancipação do pensamento — sobretudo o das mulheres.
Reduzir Amélie ao papel de “esposa de Kardec” é repetir o velho expediente patriarcal de transformar mulheres em notas de rodapé da história. Na realidade, ela foi interlocutora intelectual, revisora atenta, primeira leitora e crítica severa dos textos que dariam origem às obras fundamentais do Espiritismo. Nada era publicado por Rivail sem seu crivo. Sua formação filosófica e estética contribuiu para o rigor, a clareza e a sobriedade que marcam a linguagem kardeciana.
“Ma Cher Amélie” foi mais do que colaboradora intelectual: foi a guardiã moral e material da doutrina que desabrochava. Após a morte de Kardec, em março de 1869, foi ela quem assumiu a responsabilidade de preservar a integridade do Espiritismo frente às disputas internas, às tentativas de personalismo e às distorções místicas. Num ambiente dominado por homens, manteve-se firme, discreta e ética, recusando títulos, protagonismos e qualquer forma de poder simbólico. Sua autoridade não vinha do cargo, mas da coerência. Mesmo assim, estes mesmos homens, muitos dos quais interessados em honras, glória e recursos financeiros, afastaram a professora da gestão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), o primeiro centro espírita do mundo.
Há algo profundamente filosófico em sua postura: Amélie encarnou o princípio espírita da humildade ativa. Não se ausentou da história; de outra sorte, escolheu conscientemente não se colocar acima dela. Sua presença foi estrutural, não espetacular. Enquanto muitos buscavam notoriedade, ela escolheu a fidelidade a quatro princípios basilares: razão, ética, responsabilidade e serviço.
Chamá-la de “dama do Espiritismo”, portanto, não deve significar delicadeza passiva ou idealização romântica. Amélie foi dama no sentido clássico: senhora de si, dona de sua inteligência, de sua ética e de seu tempo. Num século que confinava mulheres à obediência, ela exerceu autoridade sem autoritarismo e influência sem dominação.
Resgatar Amélie Boudet é um ato de justiça histórica — e, também, um gesto político e espiritual. E é o que fazemos, uma vez mais, neste que é o dia em que se registra o seu (re)nascimento em corpo físico-material, na Terra. E é, principalmente, reconhecer que o Espiritismo, desde sua origem, não se constrói sem mulheres pensantes. Isto para registrar que não há revolução ética verdadeira quando (mais da) metade da humanidade (isto é o conjunto de mulheres) é silenciada.
Amélie Boudet e Allan Kardec são protagonistas; são cúmplices; são os alicerces da Filosofia que emergiu de suas forças, física e espiritual, da coragem de doarem-se ao que acreditam. Por fim, a filosofia e a prática espírita (dos espíritas) nos direcionam a uma importante constatação: todo edifício que se sustenta na razão e na ética carrega e traz a marca silenciosa da lucidez não é temporário ou passageiro. É algo que perdura para sempre!
Foto: Filme “Kardec: A história por trás do nome”, de Wagner de Assis.





O ECK tem um diferencial e nesse texto vem demonstrar sua visão ampliada. As mulheres sempre apagadas e reduzidas a coadjuvantes nunca protagonistas numa sociedade até hoje, patriarcal. Lembrar Amélie é trazer uma face do Espiritismo que poucos conhecem e a história precisa ser contada e recontada. Obrigada Rivé, sua sensibilidade nos trouxe o espírito de Amélie