Wilson Custodio
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O tempo da neutralidade já passou — é hora de escolher entre a indiferença e a dignidade, entre o comodismo e o compromisso com a vida.
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Nota introdutória
Este texto é uma resposta inspirada no artigo “Pilhas, pilhados e pilhérias em um mundo maltrapilho e cheio de contradições”, de Marcelo Henrique e Marcus Braga, publicado no Portal ECK – Espiritismo COM Kardec, cuja referência está ao final.
A partir da análise lúcida e provocadora apresentada pelos autores, proponho aqui um desdobramento que dialoga com os mesmos dilemas éticos e espirituais, especialmente no que diz respeito ao silêncio cúmplice de muitos espíritas diante da violência institucionalizada. Que esta reflexão sirva como um convite à coerência entre discurso e prática, fé e ação.
Tempos sombrios e o desalinho com o ideal espírita
Vivemos tempos sombrios, amigos. A frase, embora recorrente, não perdeu sua atualidade — de Gaza ao Rio, a faixa é negra e corpos jazem esquecidos. A análise de Marcelo Henrique e Marcus Braga, no artigo que inspira esta reflexão, é precisa e necessária. Com lucidez e coragem, os autores escancaram o grave desalinhamento entre o ideal espírita — fundamentado na fraternidade, na justiça e na valorização da vida — e as reações de muitos espíritas diante da violência institucionalizada que assola nossa sociedade.
A ética espírita e a defesa incondicional da vida
O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, não é apenas uma doutrina filosófica e científica, mas também profundamente ética. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV, encontramos a máxima: “Fora da caridade não há salvação” — um chamado à ação compassiva e universal, que não admite seletividade na defesa da vida. A caridade, nesse contexto, não é mero assistencialismo, mas a expressão prática do amor ao próximo, inclusive àqueles que o sistema insiste em marginalizar ou eliminar.
Fraternidade, justiça e coerência moral
Léon Denis, em “Depois da Morte”, não usa essas palavras exatamente, mas suas reflexões apontam para a ideia de que a fraternidade é o alicerce da verdadeira justiça. Reconhecer o princípio divino em cada ser humano, segundo ele, é o primeiro passo para uma sociedade verdadeiramente espiritualizada. Não podemos, portanto, nos calar diante de carnificinas travestidas de “ordem pública”, que muitas vezes recebem o aplauso de quem deveria estar comprometido com a regeneração moral do mundo.
A fé raciocinada como prática viva
Defender a vida não é escolher quais vidas merecem compaixão, mas reconhecer em todas elas o mesmo sopro divino que nos irmana. A fé raciocinada, que Kardec tanto valorizou, não pode se perder em discursos vazios ou justificativas ideológicas. Ela deve se traduzir em empatia, ação e coerência com os ensinamentos do Mestre Jesus, que jamais compactuou com a violência, mesmo diante da injustiça que o levou à cruz.
Conclusão: Nem Cruz, Nem Espada — A Consciência como Resposta
Que o movimento espírita reencontre sua essência. Que cada espírita, diante da dor alheia, se pergunte: de que lado estou? Porque a fé que não se traduz em compaixão ativa é apenas discurso. E o silêncio diante da injustiça é sempre uma forma de consentimento. O tempo da neutralidade já passou — é hora de escolher entre a indiferença e a dignidade, entre o comodismo e o compromisso com a vida.
Fontes:
Denis, L. (2025). “Depois da Morte”. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB. Disponível em: <https://www.oconsolador.com.br/linkfixo/bibliotecavirtual/diversosautores/depoisdamorte.pdf>. Acesso em 31. Out. 2025.
Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE. Capítulo XV – Fora da caridade não há salvação.
Henrique, M.; Braga, M. Pilhas, pilhados e pilhérias em um mundo maltrapilho e cheio de contradições. “ECK”. Disponível em: <https://www.comkardec.net.br/pilhas-pilhados-e-pilherias-em-um-mundo-maltrapilho-e-cheio-de-contradicoes-por-marcelo-henrique-e-marcus-braga>. Acesso em 31. Out. 2025.
Foto de capa – Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Protesto contra a operação policial que deixou mais de 119 pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil





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