A espiritualidade do comum, por Valdemar Figueredo (Dema)

Tempo de leitura: 2 minutos

A espiritualidade do comum [1]

Valdemar Figueredo (Dema) [2]

Por uma espiritualidade que chama para perto, seja no caminhar de Jesus ou no olhar do ateu Eduardo Galeano

***

As pessoas dizem que é milagre

andar sobre a água;

mas para mim o verdadeiro milagre

está em andar

pacificamente sobre a terra.

A terra é um milagre.

Cada passo é um milagre.

Thich Nhat Hanh

 

Eu ando pelo mundo

Prestando atenção em cores

Que eu não sei o nome.

Adriana Calcanhotto

 

[Jesus] caminhando junto ao mar da Galileia,

viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro,

e André, que lançavam as redes ao mar,

porque eram pescadores

Jesus de Nazaré (Mateus; 4:18).

 

Por uma espiritualidade que caminha e na caminhada vê o outro no seu ambiente natural.

Pedro e André eram pescadores e por isso lançavam as redes ao mar. Jesus os viu à beira mar porque não era profeta de gabinete.

Maestria em caminhar leve. Viver leve para seguir adiante.

Jesus estava sempre a caminho. Sempre de fora. Indo.

Andando na beira.

Não tinha a responsabilidade de abrir ou fechar a porta do templo, por isso não precisava carregar chaveiros.  A religião costuma ter endereço fixo. Jesus era um caminhante em êxodo permanente.

Ele não era guardião de livros, por isso não carregava o peso da lei.

Também não era um cacheiro viajante, por isso não carregava tralhas para vender nem vivia com medo de ser assaltado na estrada.

Seguia leve aprendendo com o que via.

Revigorados com o ar puro, somos capazes de fazer as melhores escolhas.

Caminhar como estilo de vida é a coragem para romper e seguir adiante.

Quem não consegue soltar as amarras fica preso com as chaves nas mãos, ocupado vigiando para que as letras não pulem as pautas, sobrecarregado com o peso do vil metal.

Quem diz seguir a Jesus deve lembrar que ele era um andarilho. Seu ensino geralmente ocorria em cenários do cotidiano, pessoas e paisagens estavam diante dos seus olhos.

Jesus era profeta ao falar e poeta ao olhar.

Sobre o olhar que consegue se maravilhar com o comum, o ateu Eduardo Galeano escreveu um conto curto em que o gesto poético é notado. Atento não ao Deus anuviado no céu, mas ao guri das dunas (Galeano, 2016:15).

O menino ficou mudo de beleza. Era a primeira vez que via o mar.

O pai o levou para ver o mar. Venceram distâncias, depois subiram e desceram dunas altas.

Na areia da praia, defronte para o mar, perdeu a voz. Quando conseguiu finalmente falar, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar!

Espantado com a grandiosidade do oceano. Encantado com a memória afetiva da longa caminhada com o pai.

Mesmo quando adulto, o menino do conto devia lembrar das coisas miúdas e simples que aconteceram no caminho, ao lado do pai. Antes do deslumbramento do olhar, o toque de uma mão enrugada com unhas por cortar.

Fonte:

Galeano, E. (2016). “O livro dos abraços”. Porto Alegre: L&PM.

Notas do ECK:

[1] Artigo originalmente publicado pelo autor no Portal ICL Notícias e cedido ao ECK, para republicação.

[2] O autor é idealizador e coordenador, desde 2017, do Observatório da Cena Política Evangélica pelo Instituto Mosaico (www.institutomosaico.com.br). Pós-doutorando em Sociologia, pela USP. Doutor em Ciência Política (antigo IUPERJ, atual IESP-UERJ) e em Teologia (PUC-RJ). Pastor da Igreja Batista do Leme e da Igreja Batista da Esperança, ambas na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Imagem de Quang Nguyen vinh por Pixabay

 

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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