Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique
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Em pleno século XXI, a época da informação instantânea, os indivíduos continuam sendo individualistas e com pouco discernimento acerca do que lhes chega por meio dos diversos meios de comunicação. Não há dúvidas, somente certezas. Não há debates, somente afrontas. Não há companheiros, apenas adversários.
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“Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis”.
Nicolau Maquiavel (2019:135).
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, nome marcante do Realismo russo, teve uma vida repleta de desafios. A orfandade e a prisão deram a ele a percepção de uma realidade em seus aspectos espirituais, psíquicos e filosóficos, que é retratada em suas obras de forma fiel. Seus personagens, em consequência, apresentam a densidade de uma vida eivada de privações e de dores morais.
A profundidade com que ele tratava temas inerentes às condutas humanas, ao sofrimento comum a todas as criaturas impressiona. As emoções emersas (como a raiva e o ódio) e as questões psicológicas de seus personagens atingem o leitor. Assim, a conversa e a densidade de suas observações remexem com aqueles que ousam folhear seus escritos e mergulhar na intensidade de sentimentos expostos em sua obra. Dostoiévski expõe, de forma vigorosa, os estados doentios da mente e seus prováveis comportamentos insanos.
“Gente Pobre” (1846) é uma mostra da percepção do autor relacionada à conjuntura social psicológica dos protagonistas tendo como pano de fundo a grande São Petersburgo, com seus picos de desigualdade e prosperidade. A obra retrata as humilhações dos indivíduos, a busca por trabalho, as dificuldades financeiras e o poder, mesmo que sutil, de um personagem sobre o outro. Essa é apenas uma mostra do que esse escritor legou à humanidade dentro de uma linguagem, na maioria das vezes, densa, complexa, mas um retrato fiel das dores mundanas.
Contudo, o que faz de uma obra literária alcançar o “status” de um clássico é o fato de ser presente, não importa em que tempo. Lê-se e a identificação (com fatos e personagens) é ligeira, imediata, instantânea. “O idiota” (1869) é um exemplo, talvez até contraditório em relação ao que dissemos acima. Entretanto a identificação pode ser imediata. Nele, Dostoiévski fala de um príncipe “sem cetro e sem dinheiro” – posto que o principado era um título, como o ducado, comprado – e pleno de bondade e de perdão a todo avilte que sofre. É descrito com tanta intensidade que provoca no leitor um misto de raiva e de incompreensão.
Plena incompreensão, na verdade, haja vista que, em pleno século XXI, a época da informação instantânea, os indivíduos continuam sendo individualistas e com pouco discernimento acerca do que lhes chega por diversos meios de comunicação. Não há dúvidas, somente certezas. Não há debates, apenas afrontas. Não há companheiros, tão-somente adversários.
Dois psicólogos, David Dunning e Justin Kruger, em seus estudos acerca do comportamento humano, perceberam que algumas pessoas acreditavam ser detentoras de saberes, os quais absolutamente desconheciam e suas palavras eram, nada mais, do que o fruto de uma pequena manchete ou um “lead” de uma notícia. Esses discursos nada tinham de embasamento teórico, ou seja, continham apenas o descompromisso com a verdade, com a ciência. A pseudoaltivez contida nos monólogos que tais indivíduos expressaram, conforme as pesquisas, desprezava o básico de qualquer pensador, filósofo ou cientista: a observação do ambiente em que se vive ou está, e a consideração em relação ao que fizeram/disseram aqueles que o antecederam. Isto é, a constatação de que “se pude olhar mais longe é porque apoiei-me em ombros de gigantes”.
Para chegar a essa conclusão, os estudiosos utilizaram testes de lógica, de humor e de gramática, a fim de sopesar a capacidade intelectual dos participantes. Esses superestimaram os resultados: o efeito Dunning-Kruger. De forma bem simples, seria o mesmo que dizer que quanto maior a incompetência do indivíduo, menos ele pode ter consciência disso. Não conseguem perceber determinadas incapacidades, justificando suas derrotas e apontando, aos outros, a causa, visto que, em suas mentes acreditam-se superiores aos seus pares.
Ciúmes, inveja e raiva seriam as emoções presentes naqueles que os contrariam. Isto porque elas não aceitam qualquer argumento contrário de outrem e, menos ainda, que existam criaturas mais aptas do que elas. Não admitem, por isso, serem menos “intelectualizados” do que creem ser. Percebem-se como infalíveis e mais capacitados, estando sempre no topo de qualquer pirâmide.
Pode-se dizer, portanto, que o cuidado, a reflexão, o ócio – base grega – de se parar e deixar a alma trabalhar, estudar o ambiente, suas metas, na observação cuidadosa de seus atos, seus pensamentos, suas escolhas e suas conclusões é uma medida eficaz. Trata-se do escutar – ao invés de meramente ouvir e falar –, buscar na Filosofia a base de todo fundamento para a vivência humana dentro da racionalidade e do bem-viver, para sair da prisão em que o ser se encarcera e desvelar a beleza do aprender em conjunto, em meio ao contraditório. A verdade é uma busca e seu caminho é demasiado ardente, porquanto necessário, pois a felicidade é uma arma quente que (nos) impulsiona. Isso pode livrar as criaturas de suas crenças limitantes, as quais cegam o ser e blindam seu aprender.
Para superar esse efeito, são necessários o estudo e a reflexão – a práxis – são imprescindíveis. Lembrando Paulo Freire, estudar é um ato de coragem!
Os dias passam e as atribulações inerentes ao viver se acumulam. Há muito o que acessar nas redes sociais e o conhecimento do mundo acaba se encerrando no plano virtual. Nele, há uma gama de falsas informações que inundam o cotidiano humano: assistir a um vídeo, seguir um perfil, acreditar em uma publicação, ler um comentário em um “post”. Todavia, nesses, encerram-se malícias, deboches e ataques – muitos desses, pessoais.
As discussões sobre temas filosóficos não mais existem, ou melhor, estão reduzidas a círculos pequenos. Falta, para muitas pessoas, o conhecimento acerca de assuntos que as impilam ao seu aprimoramento intelecto-moral. Por faltar a sensatez, o respeito e o estudo necessário para se alimentarem de conhecimento, para estas pessoas só sobram ataques, palavrões e, em alguns casos, agressões físicas e psicológicas.
Resgatamos Sócrates, para quem, “quando o debate é perdido a calúnia se torna a arma do perdedor”. Nada tão atual… Os textos são publicados com minutos de leitura, certamente, com o propósito de alcançar algum desatento leitor. Nos palanques, seja os reais ou os virtuais, muitas gritarias e zombarias, o falso moralismo, a velha pauta dos costumes, convivendo tranquilamente com a misoginia, a homofobia, a xenofobia e a aporofobia. As postagens alcançam muitos “likes” e visualizações, viralizando e oportunizando o necessário engajamento para que seus protagonistas se mantenham na mídia. Pobre povo que ainda escolhe Barrabás num cenário onde o conteúdo exaltado é raso, barulhento e debochado!
As criaturas parecem haver retrocedido… Todavia, sabemos não existir retrocesso. O que ocorre é que não se quer o entendimento, enquanto se busca o mágico e a exposição desmedida, para os seus “quinze minutos de fama”. Chama a atenção o fato de que os que assim tem agido não são somente aquelas pessoas que não tiveram acesso à educação formal. São, muitos bem-nascidos que se recusam a renunciar aos seus privilégios, enquanto imergem em ostentação e em vazios existenciais. Percebe-se, neles, uma preguiça de pensar, de ler e de pesquisar. Alguns só repetem: – Vi no “face”. E acreditam, com isso, poderem debater com especialistas no assunto. Ora, são especialistas porque pesquisaram, analisaram, escreveram e provaram suas teorias.
Para expressar opiniões é preciso promover o diálogo, o contraditório; mas, em pleno século XXI, discute-se se a terra é plana, se vacinas são necessárias, se o aborto deve ser (mais) criminalizado, se as mulheres devem ser (mais) submissas, entre tantas outras insanidades… Faz adoecer ouvir os tolos, os quais acreditam ter muito o que dizer, enquanto os sábios se calam, justamente por muito saberem – parafraseando Sócrates. Neste cenário, não é preciso ter profundidade no debate, é necessário parecer ter moralidade.
O saber se desenvolve pela dúvida que leva à busca de respostas, que muitas vezes, não chegam. O entendimento da vida, de seu porquê, e de seu compromisso com o social é deveras complexo. Mas, para o tolo, essas respostas chegam a roldão na sua imersão num chorume inacabável, com um misto de ceticismo e de desprezo à sabedoria.
Há uma busca por posição e por coragem: rasas e sem suporte intelectual. Mente-se com a empáfia de quem tudo sabe e tudo conhece. Conhecer é transformar-se e transformar-se é mudar a si mesmo e, depois, a sociedade, tornando-a mais justa e humana. Mas, não! O crescimento é embalado pelo desleixo com as necessidades alheias, com o embuste, com a falsidade, com a desmoralização da vida em seu sentido mais amplo. Paga-se para ser o alfa, e o alfa se torna quem é pago, nunca quem paga! A dopamina é a mais nova droga a inundar os lares daqueles que não possuem tempo de olhar seus filhos, se encantar com as flores, ou perceber a luminosidade das estrelas e da lua.
O fio do bigode caiu faz tempo… Hoje o que vale é o implante dentário para um sorriso tacanho, o cabelo alisado, o preenchimento labial, o “botox” na face, o silicone, a harmonização facial, os “cliques” na academia para os “stories” de redes sociais, num conjunto inútil (e fútil) de necessidades incompletas. O tempo se esvai no desconforto é a incompletude que faz falta. Dostoiévski, nos anos 1800, previu, como um mago que observa a vida e traça o curso, que os valores morais como a bondade, a verdade e a amabilidade são para os tolos, os idiotas. Exatamente, como vivemos hoje…
Tudo, então, deve ser monetizado, embelezado e arranjado de forma a encantar os tolos e ridicularizar os bravos. Aqueles são movidos a medo, a ódio e a violência, procurando mostrar seus músculos e sua verborragia insana. Do outro lado, estão outros pensamentos, outros olhares que se encantam com a vida e abraçam a criação, porquanto seduzidos pelo Bem que haverá de sobrepujar essa miséria que se instalou em nosso tempo.
Que possamos ter, portanto, o cérebro que entende por si próprio, sendo os personagens principais, os protagonistas de nossas próprias vidas. Com nossas escolhas conscientes. E não pelo que os outros pensam, dizem, ou fazem! Sem sermos, portanto, os idiotas…
Fontes:
Dostoiéviski, F. M. (2009). “Gente pobre”. Tradução Fatima Bianchi. São Paulo: Editora 34.
Dostoiéviski, F. M. (2002). “O Idiota”. Trad. de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34.
Machiavel, N. (2019). “O Príncipe”. Trad. Mário e Celestino da Silva, Brasília: Senado Federal.
Imagem de Rebecca Plett por Pixabay





Para o idiota, basta ler um comentario mal estruturado e bem mal analisado no que está se divulgando para sair pavoneando por aí. São pseudos profundos conhecedores de economia, relações afetivas, meio ambiente que acabam gerando uma desinformação completa da realidade dos acontecimentos. O pior é que estas criaturas acumulam uma quantidade imensa de seguidores que menos ainda analisam o que está sendo proposto por estes pseudos sábios. Já ouvi muitas coisas em palestras espíritas até que Kardec era um ex-alcoólatra redimido. Assim o melhor antídoto é procurar estudar e analisar os assuntos que fogem do seu conhecimento e não dar vazão a informações duvidosas.
Sholllll ❤️