Hoje não, que eu tô pregado!: Uma homenagem poética e de essência espiritual ao cartunista brasileiro Jaguar, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 8 minutos

Marcelo Henrique

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Tudo progride. O planeta progride, materialmente. As sociedades alcançam outros patamares de progresso, a partir, necessariamente, das progressões individuais. É preciso acelerar a marcha no sentido da reinterpretação do homem, de sua trajetória (vida) e de sua missão!

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Preliminares

A linha tênue que divide o sacro e o profano – para lembrar da dicotomia inventada pela Igreja (Romana), que definiu, para boa parte do planeta um padrão de moralidade, estabelecendo um maniqueísmo absoluto e anatematizando um dos extremos – segue como o desafio deste século XXI: como entender que nada é intocável e, portanto, permite discussão, análise e contrapontos?

Como a vaca que é animal sagrado, mas também é profana na célebre canção de Caetano Veloso…

Falamos, sim, de símbolos religiosos – invenções humanas para representar os arquétipos e as aspirações dos seres inferiores, inclusive com a subserviência a outros seres, igualmente inferiores: os humanos de todos os tempos. Mesmo que, aqui ou ali, a representação do poder, da sacralidade, da obediência, do respeito e dos dogmas possam estar direcionados a seres transcendentais. Como a própria divindade (não a absoluta, mas a imagem que as próprias religiões estabeleceram para o Deus ou os deuses).

O poeta do humor e sua charge

Esse introito é para lembrar e saudar – com efusividade, alegria e, agora, também, um pouco de saudosismo – Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, ou, simplesmente, Jaguar (1932-2025), que acaba de falecer (24 de agosto). É dele o “cartoon” ou charge que estampa esse nosso ensaio. A notoriedade do artista e intelectual, um filósofo das imagens, veio com a fundação de “O Pasquim” (1969), um periódico satírico alternativo (vide uma de suas capas).

Tratemos, então, da charge. Nela está um dos símbolos – para mim, o maior (superior até a Deus, por sua natureza material-humana e sua relativa proximidade conosco – do Cristianismo: Jesus, o Cristo. O Cristo filho unigênito da Divindade, o Verbo que se fez carne, o segundo personagem da “Santíssima Trindade”. O que nasceu pobre e humilde numa manjedoura e morreu, pós o martírio de sua paixão, na cruz. Esta, também, é destacado simbolismo da cristandade, inclusive a referência de grande parte dos templos que adotam os ensinos do carpinteiro de Nazaré – ainda que “interpretados” à luz das retóricas de cada Igreja.

Pasquim, jocosamente, usa uma expressão de duplo sentido. E, com isso, “afronta” um conjunto de silogismos religiosos, contestando, portanto, a construção retórica que o próprio Cristianismo consagra em relação a tão importante personagem. E, neste contexto, são muitos os elementos tradicionais e dogmáticos que sucumbem: daí a ojeriza que a imagem representou quando de sua publicação inicial e – tenho certeza – ainda irá provocar nos dias de hoje, em face da ilustração escolhida para este texto que ora figura em nosso Portal.

Vamos a eles.

Entre dogmas e verdades

Primeiro: a “santidade” de Cristo. Jesus se tornou homem, pela homilia cristã, APENAS (grifei!) para uma missão de exemplo à Humanidade. Encarnou (ainda que as igrejas em geral não costumem usar este termo – que para nós, espíritas, é tão caro!) mas teve uma natureza corporal distinta, desde a concepção (por “obra” do Espírito Santo – uma gestação “diferente”, numa “biologia transcendental”) e, após morrer e ser sepultado, teve também uma condição distinta daquela peculiar aos humanos – posto que “ascendeu aos Céus” com alma e corpo – no que constitui, por isso, mais um dogma.

Segundo: não “padeceu” o Nazareno, das circunstâncias que caracterizam a existência (físico-material) de todos os que habitam neste planeta, a Terra. Não esteve, ele, sujeito às (comezinhas) paixões humanísticas e, portanto, não sentia os extremos ódio e amor (carnal, material) por quem quer que seja. Por extensão, não se deitou jamais com qualquer mulher, nem teve qualquer romance com quem quer que seja, mulher ou homem, porque amava a TODOS (um sentimento pleno de fraternidade universal).

Terceiro: em virtude de sua “excelsa” missão, não ria, não gargalhava, não fazia piadas. Isto é da vulgata. Pertence ao universo profano e simboliza a inferioridade daqueles que se encontram a anos-luz de distância do Filho de Deus – ainda que seus pais tivessem sido Myriam e Josef.

Quarto: a ambiência e a contextura de sua paixão e morte não permitem qualquer “tergiversação” sobre assuntos outros que não sejam o ensino-aprendizagem das “Leis de Deus”. Portanto, ali, no madeiro infame e infamante, não caberia qualquer outra ideia que não o simbolismo da cruz, a sua relação com o dogma do Pecado Original e a lição de Salvação da Humanidade (todas as criaturas de Deus).

 Quinto: e, por último, qualquer uso da simbologia cristã para outra finalidade, seria uma blasfêmia e – considerando-se os que professam distintas religiões, a pena seria severa em face da gravidade do ato (criminoso).

 A condenação sumária do artista

Jaguar, assim, estaria solenemente condenado à pena capital da Cristandade, que é representada pela permanência eterna no lugar de suplícios, o Inferno. Sem apelação nem defesa no Tribunal Divino, que não prevê tais possibilidades ou ritos.

 Quanta pobreza de espírito! Quanta dependência de uma fé cega ou distorcida! Quanta necessidade de, ao invés da prédica do próprio Yeshua, o nosso Magrão – “não julgueis, para não serdes julgados” – a concepção de um sistema judiciário divino que passa pela construção da legislação e da jurisprudência pelo próprio homem, ainda que poética e liturgicamente intitulado como “à imagem e semelhança de Deus”.

 Em termos de Direito Humano, a “especialidade” do Direito Canônico só se aplica aos crentes e àqueles que se submetem à estrutura formal e eclesiástica – a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), ainda que outras religiões também se utilizem parcialmente das prescrições do Cristianismo Oficial. E, mesmo assim, não há que se cogitar de outra aplicabilidade que não seja a do âmbito moral – e, mesmo assim, circunscrita aos parâmetros derivados da fé religiosa. Em outras palavras: eu creio (ou não) que estarei livre (salvo) ou condenado, de acordo com o entendimento religioso do crente.

 Um outro Jesus, a partir de Jaguar

Para nós, o homem Jesus foi – e é – em essência e realidade:

1) um Espírito similar ao nosso. Foi criado de idêntica maneira, por obra do Universo (e seu “responsável”), podendo denominá-lo de Deus (ou Deusa) – já que a identidade masculina foi determinada por seus pares, outros masculinos e assim ficou, da Antiguidade para o presente (e para o futuro, conforme a dinâmica e a retórica da atualidade).;

2) ao ter sua experiência física, corporal, humana – para os espíritas, (mais) uma encarnação – ficou sujeito às leis aplicáveis à matéria: uma gestação biológica, uma existência (precária, à época) condicionada às questões da materialidade e uma morte (incluindo-se, aí, o “destino” de seus despojos orgânico-corporais) sujeita à perecibilidade da condição existencial na matéria: isto é, a destruição dos órgãos e tecidos e a mantença da estrutura óssea – ainda que não para “a eternidade”;

3) ele, na vivência humana, Jesus se relacionou de forma similar a nós, em relação aos seus pares – com amizades e inimizades, proximidades e distanciamentos (como, aliás, transparece da leitura dos atos que constam dos evangelhos canônicos – os oficializados pela própria ICAR);

4) seria natural pensar que – na similaridade de outros homens daquele tempo (e do nosso) – ele se interessasse por se consorciar com outro humano, optando por fazê-lo já na idade mais madura, após a juventude, com uma de suas seguidoras, Myriam de Migdal – presente nos seus anos de “missão” (evangélica), até os últimos dias e, conforme relatam os evangelhos – fosse ela a pessoa a quem o Mestre tivesse “aparecido” (para nós espíritas, num fenômeno mediúnico de materialização de seu Espírito), por deferência do próprio Jesus, em primazia em relação a qualquer outra pessoa. Jesus e Madalena, assim, se consorciaram, viveram como um casal e – conforme se especula – teriam tido uma filha; e,

5) distante da imagem sisuda, taciturna e pesarosa que a Igreja esculpiu do “Senhor”, Yeshua – para nós, novamente, o Magrão – foi um homem relativamente comum do seu tempo, com prazeres e decepções, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Depois da infância e adolescência de aprendizados vários, na família e – muito provavelmente – entre indivíduos mais intelectualizados e que dominavam algumas das ciências humanas e espirituais (cogita-se dos Essênios, que detinham essa envergadura) – assumiu sua pedagogia e ministério, atuando na conscientização (pregação por parábolas), na exemplificação (do “reino” de Deus) e na prática mediúnica (os “milagres” que constam da retórica religiosa, aí incluídas prodigiosas curas e alguns fenômenos materiais).

 E por que não?

Diante deste quadro, nos perguntamos: – E por que não? Não seria lícito ponderar a esse respeito? Qual o crime que praticamos ao considerar essa “humanidade” de Yeshua? Cometemos, em assim pensando, qualquer indignidade ou desrespeito em relação ao “maior entre os homens” que já pisou – e marcou com as pegadas de suas sandálias – a superfície terrena? Claro que não!

 O “pecado” só existe – para além da homilia cristã – nas mentes e nos corações humanos. Para nós, espíritas, no Espírito daquele que age contra o seu semelhante. Quando aproximamos Jesus de nós, a partir da percepção de que ele “passou” por experiências congêneres às nossas, ao cogitarmos que o Mestre dos Mestres era um ser que reagia naturalmente às situações da existência e, principalmente, por ter alguma “estrada a mais”, uma bagagem espiritual (reencarnatória, para os espíritas) mais robusta, um aprendizado (progresso na Lei Divina ou Natural que está na terceira parte de “O livro dos Espíritos”, a primeira obra de Allan Kardec) relevante e que lhe permitia pensar “à frente” e projetar um “mundo melhor”, adiante, com certeza, nós também dele nos aproximamos.

 Em outras palavras, aquele Cristo inacessível, particular à retórica cristã, como “a encarnação divina”, o ser mais augusto que habitou a Terra, o “pastor” das ovelhas (perdidas) que somos nós, passa a ser um “ser de carne e osso”, uma individualidade formada duplamente de matéria e Espírito: um ser adiantado moralmente, portador de uma ética diferenciada e progredida, mas, ainda, condicionado, sob o envoltório de uma estrutura física (corpo), às vicissitudes, dificuldades, limitações e precariedades de uma existência material.

 Vem Jesus, Divino Amigo

Este Jesus – o nosso Magrão – é aquele amigo “para todas as horas”, que ri e chora, que se zanga e nos felicita, que abraça, beija e – com certeza – “se deita” com aquele que escolheu. Que fica encantado com o sol poente, que se anima com uma manhã ensolarada, que se rejubila ao reencontrar um amigo que já dava como morto, que se encanta com as brincadeiras das crianças, que encontra paz de Espírito numa canção, numa poesia, num gesto de fraternidade.

Falando em canção e lembrando do cancioneiro espírita, sob a pena lítero-musical de um dos (nossos) maiores compositores, João Cabete: “Vem Jesus, Divino Amigo, vem trazer a tua paz; só tu és o nosso abrigo, que venturas mil nos traz”. E como o próprio compositor proclamasse a perspectiva da humanização de Yeshua, ele complementa: “Vem senhor! Vem reflorir os caminhos […] Vem perfumar corações!”. E, em assim fazendo, sendo humano como nós “Com teu amor tão profundo, iluminar consciências e fazer feliz o mundo!”.

Reprodução de charge de Jaguar.

É este, também, o Jesus de Jaguar, ainda que sob outra conjuntura, a do riso. A brincadeira – e toda brincadeira carrega, em si, um conteúdo de seriedade, de veracidade e de transcendência – foi o recurso que o artista escolheu para desafiar a ditadura do pensamento e da religiosidade, entregando a cada um de nós o poder de construir a própria leitura e interpretação da realidade. Não aquela (im)posta por quem quer que seja, ou predeterminada segundo precárias convenções temporais – inclusive as que, pela ação do tempo, do progresso, pelo despertar das consciências e pela (em suma) maturidade espiritual condenam ao desaparecimento, ao esquecimento e à inutilidade. Como se deu com as inúmeras prescrições morais (para a moralidade daquele tempo) do Antigo Testamento; como se aplicou às cruéis medidas jurídicas praticadas pela Igreja Romana nas Cruzadas, nas Inquisições, nas Colonizações de outras terras e na Idade Média. 

Tudo progride. O planeta progride, materialmente. As sociedades alcançam outros patamares de progresso, a partir, necessariamente, das progressões individuais. É preciso acelerar a marcha no sentido da reinterpretação do homem, de sua trajetória (vida) e de sua missão! 

Jaguar antecipa, jocosamente, o progresso do futuro: aquele em que estaremos rindo de Jesus – ou com Jesus – ao descobrir que ele também cometia alguns equívocos, como balbuciar palavras erradas, como se enganar em relação a algum objeto, como trocar o nome de uma pessoa por outra, como rolar pelo chão na grama, em brincadeiras com os infantes, em cantar suas músicas preferidas e esquecer algum refrão… 

A imagem – e a afetuosa lembrança – que podemos ter do Homem de Nazaré, o Rabi, o Mestre, o Magrão, há de ser, um dia, à frente, muito mais agradável, serena, alegre, compassiva, inclusiva, poderosamente influente e transformadora, a partir da ideia (natural e consciencial) de que ele, Jesus, está muito mais próximo de nós do que a distância que as religiões nos impuseram em relação a ele! 

Quanto à Madalena, ela teve de esperar outra oportunidade para fazer amor com esse Jesus… Porque naquele momento, ele estava… pregado! 

Notas do Autor:

[1] A canção de João Cabete, em sua letra completa está disponível em <https://www.letras.mus.br/joao-cabete/1299042/>. Acesso em 26. Ago. 2025.

[2] Outros textos que falam deste Jesus humano, carnal, um Espírito como nós, podem ser encontrados no Portal “Espiritismo COM Kardec”, na busca pelo verbete “Magrão”. Disponível em: <https://www.comkardec.net.br/>. Acesso em 26. Ago. 2025.

Imagem: O catunista Jaguar, e o humorista Marcelo Madureira, participam de ato em repúdio ao atentado contra o jornal de humor francês Charlie Hebdo em 14 janeiro de 2015  (Fernando Frazão/Agência Brasil)

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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