Livre-Arbítrio e Escolhas: Reflexão Espírita sobre Consciência e Responsabilidade, por Wilson Custódio Filho

Tempo de leitura: 4 minutos

Wilson Custódio Filho

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O verdadeiro progresso não nasce da imposição, mas da escolha consciente pelo bem — aquela que liberta, eleva e transforma.

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Introdução

Pode-se dizer que a Doutrina Espírita ensina que o livre-arbítrio é a ferramenta pela qual o Espírito progride, aprendendo a distinguir, sem dúvida, o bem do mal e assumindo as consequências de suas próprias decisões. Trata-se de uma lei natural de cunho moral que garante a cada ser a possibilidade de crescer por si mesmo, sem imposições divinas, mas também sem eximir-se. Contudo, esse princípio nem sempre é corretamente compreendido, e tais distorções de entendimento têm gerado prejuízos significativos ao progresso espiritual.

Escolha e livre-arbítrio: a distorção

Entre essas distorções, talvez a mais comum seja a confusão entre escolha e livre-arbítrio. Muitos dirão: “Que importa? É um detalhe terminológico, sem maior consequência…”. Mas o que nos chama a atenção vai além de desvios conceituais. No discurso cotidiano doutrinário, o termo escolha passou a ocupar o lugar do livre-arbítrio, como se ambos fossem equivalentes. Mas não o são.

A escolha é ato momentâneo, movido por preferências, emoções ou conveniências. O livre-arbítrio, ao contrário, é expressão da consciência moral, construída ao longo das experiências do Espírito. Enquanto a escolha nasce do impulso, o livre-arbítrio amadurece no discernimento.

Notem que, na essência, essa inversão de sentidos não é inofensiva; ela molda percepções, desloca responsabilidades e, muitas vezes, sustenta interpretações injustas da dor humana.

À luz do que foi exposto, inquieta-nos observar como certos espíritas, diante dos recentes episódios de barbárie social, recorrem à velha máxima “a vida é feita de escolhas”, transferindo à vítima o peso da tragédia e à consciência coletiva, o alívio da omissão.

Com a Codificação Espírita

Vejamos com cuidado: o contraste entre escolha e livre-arbítrio encontra pleno amparo na Codificação. Kardec mostra que o livre-arbítrio surge e se fortalece à medida que o Espírito adquire consciência de si (“O livro dos Espíritos”, Item 122). Em outra passagem, afirma que a liberdade verdadeira exige responsabilidade e reflexão, ao passo que os atos movidos pelo instinto pertencem ao domínio das paixões (“O livro dos Espíritos”, Itens 843–845).

É também na Codificação que encontramos a afirmação de que o senso moral é fruto das experiências acumuladas (“O livro dos Espíritos”, Itens 358 e 361). Assim, quando distinguimos entre escolhas imediatas e o livre-arbítrio amadurecido, reafirmamos simplesmente o entendimento espírita de que a liberdade responsável nasce da consciência — e não do impulso.

Se a escolha é expressão da vontade, o livre-arbítrio é manifestação da consciência. A primeira pode agir por impulso, crença ou conveniência; o segundo exige discernimento moral, lucidez e responsabilidade diante das leis divinas. Confundir ambos é reduzir a liberdade espiritual a mero capricho humano.

O contexto planetário

Falar em “escolhas”, como fazem certos espíritas, diante de crianças órfãs da Covid-19, que aprenderam cedo demais a caminhar sozinhas, mulheres e idosos dilacerados por guerras que jamais escolheram e jovens que atravessam ruas onde a morte faz morada em cada esquina, é deturpar o sentido moral da Doutrina.

Impossível ignorar que a responsabilidade é maior justamente para os que mais possuem — sejam bens, saber ou influência — não para estabelecer castas espíritas, mas para reconhecer que a desigualdade impõe deveres éticos e morais àqueles que têm condições de minorar a dor alheia. Essa dicotomia, entre a escolha imediata e o arbítrio consciente, revela o contraste entre o que se proclama compreender da Doutrina e o que, de fato, se vivencia.

O espírita e as dores

O Espiritismo, que convida ao amor e à solidariedade, não pode ser instrumento de justificativa para o ódio, tampouco abrigo para leituras frias e desumanizadas da dor. O verdadeiro exercício do livre-arbítrio não é o de escolher o que convém, mas o de agir conforme a consciência desperta, em harmonia com as leis eternas.

Embora atributo individual, o livre-arbítrio não se isola das consequências coletivas. Cada decisão humana repercute na malha moral da sociedade, e é nesse entrelaçamento de responsabilidades que se define o rumo evolutivo dos povos.

Quando a consciência se omite diante da dor alheia — ainda que em silêncio — contribui para a manutenção das estruturas de violência que condena. A neutralidade, nesses casos, é apenas outra forma de consentimento.

Livre-arbítrio e responsabilidade na direção do progresso

Maduros o suficiente, todos entendemos que a responsabilidade do Espírito se mede não apenas pelos atos cometidos, mas também pelas omissões voluntárias. Assim, o livre-arbítrio não é um direito absoluto, mas uma oportunidade contínua de cooperar com o bem e promover a harmonia universal. O que se decide em pensamento e em atitude ecoa na coletividade espiritual, porque o Espírito, ainda que encarnado, participa ativamente da obra divina.

Compreender o livre-arbítrio em sua dimensão moral é reconhecer que as escolhas humanas transcendem o indivíduo. Cada gesto, por menor que pareça, reflete o nível de consciência da humanidade e revela se caminhamos rumo à fraternidade ou se ainda nos deixamos conduzir pelos instintos primários do egoísmo e da indiferença.

O verdadeiro progresso não nasce da imposição, mas da escolha consciente pelo bem — aquela que liberta, eleva e transforma.

No fim, “a vida é feita de escolhas”, mas não das que servem para explicar tragédias; são as que fazemos quando a dor do outro nos interpela. A liberdade do Espírito se revela justamente aí: no instante em que decide não desviar o olhar. É essa escolha — simples, concreta e moral — que nos aproxima da fraternidade verdadeira. 

Fontes:

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE. Especialmente os itens citados no texto: 122, 358, 361, 843, 844, 845.

Foto free Pixanay Mohamed_hassan

 


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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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