Marcus Braga e Marcelo Henrique
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Se o que foi trazido por médiuns, na forma de livros, artigos, entrevistas ou reportagens está posto aí e tem uma importância histórica, devemos ponderar que há muito a se produzir, seja por meio dos diálogos mediúnicos, demandando (ainda) mais debates e estudos, captando as vozes dos “mortos” de diversas maneiras – inclusive, como se projeta e imagina hoje, com o uso de ferramentas tecnológicas e instrumentos de Inteligência Artificial, como elementos acessórios.
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Duas músicas nos vêm à mente, nesse momento de meados da terceira década do Século XXI, no “Brasil Espírita”. Elas são saudosistas, por um lado e provocativas, por outro. E é possível associá-las à nossa conjuntura “político-doutrinária”, para tirar importantes lições.
Senão, vejamos…
A primeira delas foi gravada por Francisco Alves (1949) e regravada por Elis Regina (1980) e se chama “Cadeira vazia”. Ela traz em seus versos (destacamos):
“Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar este dia
Mas de uma coisa pode ter certeza
Que em teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia”.
Como o cancioneiro popular é pródigo e riquíssimo, há uma outra canção, homônima, gravada pela dupla caipira João Mulato & Douradinho (1998), cujos versos também podem ser mencionados (sublinhamos):
“Tem muitos querendo o trono de quem deixou a cantoria
Oh meu deus aqui na terra tá um clima de guerra fria
Nem daqui um milhão de anos não aparece outra magia
Meu mito descansa em paz a cadeira está vazia”
A outra é mais conhecida e já fez parte da trilha sonora de novelas da Rede Globo de Televisão, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves (composição de Sergio Bittencourt, 1969, grifos nossos):
“Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa, tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim”.
Todas elas falam da morte de alguém que foi importante, em dado contexto. E sua ausência, assim, importa num vazio presencial, circunstancial, portanto, ao ramo de atividade e as lições que derivavam de sua prática e constância. E isto é bastante significativo.
Nas mais diversificadas áreas da expressão humana são consagrados ápices, havendo o reconhecimento de personagens que são referendados por lideranças associativas. Assim também ocorreu com o meio espirita, cuja popularização a nível nacional ocorreu na década de 1970, com o emblemático Programa “Pinga Fogo”, que contou, em dois programas, com recordes de audiência para a televisão da época, com a presença do médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier. O programa motivou reportagens em revistas nacionais, como “Realidade” e “Cruzeiro”, dois dos mais importantes periódicos culturais daquele momento, além de um elenco de ações de divulgação não-comercial na imprensa e em outros programas televisivos.
Depois, na década de 1990, o “meio” passou a ser, destacadamente, a internet (e de 1995 pra cá, com a “ocupação” espírita deste “campo”, como já destacamos em outro artigo, “Internet e espiritismo: três décadas de uma relação que merece discussão” – vide referência completa, ao final), ampliando a ascensão da religião espírita, centrada na figura de médiuns e na sua produção literária (psicográfica).
A figura de médiuns credenciados, como porta-vozes e reconhecidas lideranças do chamado movimento espírita hegemônico foi um traço marcante desses últimos cinquenta anos (ou mais, considerando que as primeiras produções de Chico foram no final da década de trinta), e moldaram o meio espírita, tanto a partir das obras psicografadas como, mais especificamente, com as manifestações na forma de entrevistas ou reportagens. Todavia, com o recolhimento de tais expoentes, em face de suas avançadas idades e enfermidades, até os seus desencarnes, passamos a viver, nesse conturbado Século XXI, um momento de “cadeiras vazias”, o que enseja no imaginário espírita, um movimentar natural de alguns atores que remanescem nesta ambiência, a fim de buscar encontrar o(s) substituto(s) dessas lideranças, como se houvesse a necessidade de um pastor para conduzir o rebanho (espírita).
Nesse cenário conjuntural – com os muitos “movimentos” espiritas dentro do meio espírita, num país de dimensões continentais, com algumas semelhanças e muitas diferenças culturais, a existência dessas lideranças carismáticas tanto amalgamou quanto criou dissensões, sendo chegada a hora de se discutir se esse paradigma de médiuns “credenciados” segue como sendo o mais adequado para grupos e instituições, considerando, ainda, uma prática (mediúnica e divulgacional) espirita tão diversa e complexa – o que não importaria, em termos da decantada “unificação” (lema, bandeira e prática do ente federativo nacional brasileiro), em uma transcendência normalizadora, que seria mantida pela escolha ou definição de novos protagonistas como emissários mediúnicos oficiais, mas, do contrário, inclusive pelos “novos tempos” vigentes, de espaços de debate, inovação e de construção da chamada convicção espírita contemporânea.
Sim, é preciso avançar neste “capítulo”, já que os números demográficos têm demonstrado o recrudescimento do quantitativo dos espíritas, o que deriva a necessidade de análises conjunturais, de associação e de comunicação que possam alcançar os públicos que, hoje, não estão contemplados na chamada “população espírita”, seja porque nunca participaram de qualquer atividade espiritista ou os que delas se afastaram.
Em uma doutrina pautada no estudo, no livre convencimento e na ação prática, com um cabedal claro e atual de conhecimento nas 32 obras de Kardec, com uma imprensa espírita consolidada e redes sociais a todo vapor, haverá espaço para uma voz credenciada e interpretadora do Espiritismo? Eis uma boa questão…
Historicamente, ainda, devemos lembrar, que os ocupantes de postos de direção em instituições, sejam estaduais ou nacionais, no meio espírita, jamais foram os mais importantes, cabendo aos médiuns – locais ou “nacionais” o protagonismo. Será que, agora, na ausência de tais expoentes mediúnicos, haverá um “novo pastor”?
Ter essas cadeiras de porta-voz vazias para alguns é o prenúncio do caos e da desordem, com espaço para dissidências e disputas ou lutas. Ora, ora, isso existe desde o início da vivência espírita, que data do início do Século XX, e deriva da própria natureza das coisas. Não ter, então, “vozes do Além” consideradas inquestionáveis e infalíveis – porque este foi, sempre, o comportamento usual dos espíritas, esperando a manifestação do “mentor” por meio do “médium oficial”, para tratar dos temas da atualidade e de interesse público –, pode nos conduzir a uma prática mais ciosa (com mais zelo pelas próprias Filosofia e Ciência que fundamentam o Espiritismo) e uma busca por mais estudos e debates, qualificados, embora respeitando as peculiaridades de entendimento, as necessidades e a maturidade de cada grupo.
Este novo paradigma que surge, sem a presença dos “luzeiros” – novamente, inquestionáveis e infalíveis – pode ser fundamental e propício para a redução do “Ad Hominem” mediúnico, porque sempre se relevou a condição humana e, portanto, falível dos médiuns, preferindo-se a idolatria e o endeusamento como se tais fossem criaturas muito além do nosso tempo e nível de progresso, superdimensionando qualidades e minimizando defeitos.
Se o que foi trazido por esses medianeiros, na forma de livros, artigos, entrevistas ou reportagens está posto aí e tem uma importância histórica, apesar de não se ter, sobre eles, tradicionalmente, exercido a necessária crítica – inclusive sob padrões kardecianos, via Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE) –, devemos ponderar que há muito a se produzir, seja por meio dos diálogos mediúnicos (sobretudo por meio da Evocação, para solicitar o concurso de determinados pensadores do passado, que se destacaram nas mais diferentes áreas, demonstrando intelectualidade e/ou moralidade avançadas para os tempos em que viveram entre nós), mas isto poderá/deverá ser por meio de uma forma/prática que irá demandar (ainda) mais debates e estudos, captando as vozes dos “mortos” de diversas maneiras – inclusive, como se projeta e imagina hoje, com o uso de ferramentas tecnológicas e instrumentos de Inteligência Artificial, como elementos acessórios.
Entendemos, assim, estar vivendo uma espécie de busca do “Velocino de Ouro” [1] de novos médiuns “fora de série”, para que tais venham a sentar na “cadeira que está vazia”. Isto diz muito sobre nós e acerca da necessidade de se ter cadeiras que nos prendem a determinado(s) paradigma(s). Entendemos, essencialmente, que isto precisa ser discutido com maturidade pelos atuais espíritas, envolvendo muitos formadores de opinião, enquanto estudiosos do Espiritismo (de Kardec, de fato), para avaliar se aquilo que suportou o chamado “Espiritismo de massas”, enquanto fenômeno cultural natural, continuará ou não existindo, e se coabitará com os “outros Espiritismos”. Para tanto, será preciso contemplar outras vozes, e isso inclui os aparentes absurdos – a contracultura daqueles que dizem o “diferente” em relação à(s) maioria(s), porque todos devem fazer parte do debate, sem quaisquer exclusões, dentro das premissas da dialógica, da dialética e dos contraditórios, principalmente os que se fazem à luz clara e não se encontram embaladas em um “mandato mediúnico”.
Será possível?
Nota dos Autores:
[1] O “Velocino de Ouro” era um artefato da mitologia grega, representado pela lã doutra de um carneiro alando (Crisômalo), que teria resgatado os irmãos Hele e Frixo de um sacrifício. O animal, então, foi sacrificado e a lã foi entregue ao rei Etes de Cólquida, que a pendurou em um bosque sagrado, tornando-se, assim, o tesouro guardado por um dragão. O artefato foi o objeto da lendária busca de Jasão e os Argonautas.
Fontes:
Bittencourt, S. (1969) Naquela Mesa. “Letras BR”. Disponível em <LINK>. Acesso em 10. Jan. 2026.
Braga, M.; Henrique, M. (2025). Internet e espiritismo: três décadas de uma relação que merece discussão. “Espiritismo COM Kardec (ECK)”. 10. Nov. 2025. Disponível em <LINK>. Acesso em 10. Jan. 2026.
Coeli, A. (2015) Áries e o Velocino de Ouro. “Médium”. 29. Out. 2015. Disponível em <LINK>. Acesso em 10. Jan. 2026.
Mulato, J.; Pereira, C. (Mulatinho) (1998). Cadeira Vazia. “Letras BR”. Disponível em <LINK>. Acesso em 10. Jan. 2026.
Rodrigues, L. (1949). Cadeira Vazia. “Letras BR”. Disponível em <LINK>. Acesso em 10. Jan. 2026.
Imagem de Tim Pritchard por Pixabay




