Marcelo Henrique
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Diante dos desencarnes coletivos, o Espiritismo se-nos apresenta como a Doutrina da Responsabilidade, por permitir a todos os que se disponham a estudar e a entender estes acontecimentos da vida humano-material-espiritual de modo criterioso, para entender a razão (espiritual) dos fatos e os efeitos inteligentes que derivam de causa igualmente inteligentes.
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Preliminares
Todas as vezes que os noticiários e as mídias em geral repercutem catástrofes, é natural que os humanos voltem seus olhares para os fatos. Independente da crença ou formação espiritual, o sentimento padrão é o de lamento, solidariedade e empatia com a dor alheia. E, cada qual, dentro de sua fé, orientação religiosa ou convicção busca encontrar respostas.
Para nós, espíritas, dá-se o mesmo. Nos diálogos e nas atividades espiritistas, é comum ver-se as “tentativas” de explicação acerca do ocorrido, suas causas (atuais e pretéritas) e consequências. Não raro, há uma mescla de conceitos espíritas (Kardec) com opiniões de livros (grande parte deles contendo psicografias, naquilo que chamamos de “mediunidade à brasileira”) ou de palestrantes, articulistas, escritores ou dirigentes. Neste contexto, há a destacada interpolação dos conceitos contidos na Filosofia Espírita com os egressos de outras correntes do pensamento humano.
E é aí que há destacados prejuízos para o entendimento humano-espiritual acerca destes eventos que, volta e meia, estão presentes no cotidiano da ambiência planetária.
O incêndio
No dia 26 de novembro um incêndio atingiu um complexo residencial, de nome “Wang Fuk Court”, em Hong Kong (cidade que é porta de entrada para a China continental) [1], com a informação de que, até o presente momento, supera a marca de 120 mortos [2] [3], significando o mais letal em sete décadas [4], havendo cerca de 200 desaparecidos. Sete dos oito blocos de apartamentos do complexo foram afetados, fazendo com que seus ocupantes ficassem presos em seu interior, impossibilitados de saírem em função das chamas.
A apuração preliminar tem como causa motivadora o caráter de rápida combustão dos andaimes de bambu [5] que estavam sendo utilizados em reformas no condomínio, o que retoma as discussões sobre o uso desse tipo de material altamente inflamável nos projetos de engenharia.
Investigações governamentais estão sendo realizadas para a perícia do sinistro e a apuração das causas, com a correspondente responsabilização daqueles que tenham, direta ou indiretamente, concorrido para o fatídico evento.
Desencarnes coletivos
A ocorrência de desencarnes coletivos, em nosso planeta, possui registros em todos os tempos. São catástrofes, tsunamis, guerras, acidentes aéreos, incêndios e outros eventos comuns à vida na Terra. Como afirmamos alhures,
“Catástrofes naturais ou acidentais vitimam milhares de pessoas e as imagens televisivas, virtuais ou impressas nos mostram as tintas do drama de nossos irmãos, enquanto a população recolhe seus mortos, implorando por auxílio para o socorro aos sobreviventes e a futura reconstrução de casas, prédios, espaços e repartições públicas” [6].
E todos esses eventos permitem que sobre eles nos debrucemos, a fim de entendê-los com olhos espirituais. Nesse sentido, as informações contidas nas obras de Allan Kardec são muito úteis e oportunas. Do mesmo texto [6], repisemos:
“A filosofia espírita apresenta-nos a destruição como uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, importando no aniquilamento da vida material, a interrupção da atual experiência. Há, segundo a cátedra espírita, as desencarnações naturais, as provocadas e as violentas. As naturais decorrem do esgotamento dos órgãos e representam o encerramento “programado” das existências corporais, segundo a lei de causa e efeito e o planejamento encarnatório do ser. As provocadas resultam da ação humana no espectro da criminalidade e da agressividade (assassínio, atentados, guerras). As violentas encampam a ocorrência de catástrofes naturais (enchentes, terremotos, maremotos, ciclones, erupções, desmoronamentos, acidentes aéreos, automobilísticos, ferro ou aquaviários, entre outros), sem desconsiderar que a ação ou omissão humana, em face da ganância, da prepotência e da corrupção, pode estar entre as causas que geram tais efeitos danosos”.
Em um de nossos artigos recentes, tratando das enchentes no Rio Grande do Sul, no extremo meridional do território brasileiro, afirmamos que
“diante do caos, da miséria, do sofrimento, da destruição avassaladora, nem sempre o real nos traz as mais envolventes respostas. O estado de necessidade – individual ou coletivo – precisa da fé, seja no que e como for, para “seguir adiante”.” [7].
A Destruição, segundo o Espiritismo
Sim, notadamente, o incêndio está circunscrito à incidência da Lei de Destruição, que governa espiritualmente indivíduos, sociedades e mundos habitados, a teor do contido na Terceira Parte da obra primeira, “O livro dos Espíritos” (OLE).
Lemos no Item 737 de OLE: “a destruição é uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos” [8]. Interpretando esta questão, quando da análise da tragédia do incêndio da Boite Kiss, em Santa Maria (RS), assim apresentamos [9]:
“Há, assim, três núcleos semânticos no trecho destacado: destruição, necessidade e regeneração moral. […] Destruição importa necessariamente o aniquilamento da vida material, a interrupção da atual experiência reencarnatória. Há, segundo a cátedra espírita, os desencarnes naturais, os provocados e os violentos, em um dos vértices de análise conhecidos” (sublinhamos). A necessidade está diretamente correlacionada ao plano de existência físico-material que foi definido pelo Espírito, antes de encarnar, assim como o rol de escolhas que fez e faz em sua condição de encarnado. Por fim, a regeneração moral (também conceituada como progresso espiritual), resulta do somatório de experiências do Espírito e da forma como lidou com as distintas situações.
Considerando, ainda, que o incêndio é um desencarne provocado, naquele texto, destacamos [9]:
“Os provocados resultam da ação humana no espectro da criminalidade e da agressividade (assassínio, atentados, guerras), como decorrem de ações negligentes, imprudentes ou imperitas”, quesito em que o incêndio, por negligência, como o caso em exame, também se enquadra.
As vítimas
Também é possível entender as vítimas fatais e os sobreviventes com lesões corporais e morais, do incêndio em tela, sob o prisma espiritual-espírita, mas sem fechar questão sobre o tema, ponderando sobre hipóteses plausíveis. Antes, acerca disto, afirmamos que eles:
“estão situados no quadrante dos que podem ter vínculos entre si, muitas vezes datados de épocas anteriores (vidas pregressas), e a circunstância de seu retorno à vida espiritual estava prevista pelo Ministério Divino, em nível de resgate (veja-se, a propósito, a questão 258, novamente de “O Livro dos Espíritos”)” (marcações do original).
Lembremos, aqui como alhures, que Kardec, em “Obras Póstumas”, no tópico “Questões e Problemas” [10], sentenciou que “as faltas coletivamente cometidas são expiadas solidariamente”, permitindo aferir que, entre muitos das vítimas estão Espíritos com laços de reciprocidade e relação direta. Isto sem afastar tanto os elementos de expiação e de prova que tais acontecimentos geralmente contêm, dentro da esteira de progresso de cada individualidade.
O importante, neste contexto, é afastar a conhecida ideia de “fatalidade”, como representativo de um destino imutável dos seres ou das desgraças. Lembremos, outrossim, a dicção do Item 851, de OLE [8], que esclarece que a fatalidade “existe unicamente pela escolha que o Espírito fez, ao encarnar, desta ou daquela prova para sofrer”. Portanto, não há acidentalidade fortuita nem obra do acaso em tais eventos.
O que há é a Lei de Causa e Efeito, como já destacado por nós [9],
“uma diretriz inteligente que, longe de ser absoluta e pré-determinada (inafastável) para todas as circunstâncias, nos coloca no ponto de partida e de chegada de todas as situações que conosco ocorrem, nesta e em outras encarnações”.
Diante destas diretrizes, é que podemos concluir ser, o Espiritismo, a Doutrina da Responsabilidade, por permitir a todos os que se disponham a estudar e a entender estes acontecimentos da vida humano-material-espiritual de modo criterioso, para entender a razão (espiritual) dos fatos e os efeitos inteligentes que derivam de causa igualmente inteligentes [11].
Quando assim agimos e encaramos os fatos da existência, deixamos de ser meros passageiros e assumimos a direção de nossas vidas, como, aliás, figura em toda a obra kardeciana.
Notas:
[1] Informações detalhadas sobre Hong Kong podem ser encontradas em: <https://www.gov.hk/en/about/abouthk/facts.htm>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[2] Além de muitas outras notícias a respeito do evento catastrófico na região do país oriental, recomendamos a leitura: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-se-sabe-sobre-o-incendio-em-hong-kong-que-queima-ha-mais-de-30-horas/>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[3] Reportagem do Portal UOL: “Hong Kong prende oito pessoas relacionadas ao incêndio; 128 morreram”. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/11/28/incendio-hong-kong-predio.htm>. Acesso em 28. Nov. 2025.
[4] Em 1996, um outro incêndio vitimou 41 pessoas, no Edifício Garley.
[5] Matéria da BBC, “Icônicos andaimes de bambu podem ter ajudado a espalhar fogo em incêndio devastador em Hong Kong”, disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewjx8ny220o>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[6] Artigo “Catástrofes e Desencarnes em Massa – A visão espírita”, publicado no Portal “Nova Era”, disponível em: <https://se-novaera.org.br/catstrofes-e-desencarnes-em-massa-a-viso-esprita/>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[7] Escrevemos, em 2024, naquele trágico momento, “Água e lágrimas em excesso. E agora, espíritas?”. Texto disponível em: <https://www.comkardec.net.br/agua-e-lagrimas-em-excesso-e-agora-espiritas-por-marcelo-henrique/>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[8] Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
[9] Artigo “Desencarne em massa em Santa Maria: o esclarecimento espírita”, publicado em 2021. Disponível em: <https://www.comkardec.net.br/desencarne-em-massa-em-santa-maria-o-esclarecimento-espirita/>. Acesso em 27. Nov. 2025.
[10] Kardec, A. (1979). “Obras Póstumas”. Trad. Sylvia Mele Pereira da Silva. Introdução e notas J. Herculano Pires. 2. Ed. São Paulo: LAKE.
[11] Outros artigos do autor, envolvendo as situações de desencarnações coletivas, podem ser acessadas nos seguintes endereços: <https://www.comkardec.net.br/terremoto-na-turquia-o-esclarecimento-espirita-por-marcelo-henrique/> e <https://www.comkardec.net.br/tragedias-aereas-o-cuidado-de-nao-ser-simplista-nem-de-ser-vitima-da-crendice-tida-como-espiritismo/>. Acesso em 27. Nov. 2025.
Imagem de marsattacks por Pixabay





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